Eu e a dona Aurora: ambos cegos tateantes

Paiva, J. C. (2021). Eu e a dona Aurora: ambos cegos tateantes. Site Ponto SJ, 6-06-2021.

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Noutro dia vinha da feira, a pé, numa caminhada de uma horita. Coisas da vida aldeã. Uma rampa enorme apresentava ao longe uma senhora vergada, puxando um carro de compras com uma mão e arrastando-se com uma bengala na outra mão. Impressionava a sua resiliência. Ofereci-me para levar o carrinho até sua casa, imaginando que morava no topo daquela colina. Hesitou primeiro, deixou depois. Explicou-me onde morava, lá deixei as compras e segui viagem. A partir daqui é imaginação.

Quando a dona Aurora chegou a casa, aliviada, mas mesmo assim cansada, tomou um copo de água, suspirou, sentou-se no sofá e rezou: “agradeço-te, Senhor, por me teres enviado um anjo que me trouxe as compras e me aligeirou o jugo”.

As intercomunicações celestiais entenderam por bem informar o próprio anjo, eu mesmo, daquela prece. Comecei a processar aquela informação, não tanto por ter sido eu o anjo. Porque às vezes também sou mafarrico e porque os anjos é que lucram, mais do que os que são alvos das suas setas. A minha matutatação era intelectual, teológica, cosmovisionária. Permito-me partilhá-la – tal matutação – não tanto pelo seu processo, não tanto pela tese em si, mas pela sua explicitação final. É no ponto de chegada, que dá título a esta reflexão, que pode morar alguma centelha.

A dona Aurora imagina o Céu onde Deus monitoriza o mundo. As cortes do paraíso estão ao serviço do Senhor, que manda aqui e ali fazer alívios e intervenções, curas e auxílios. Fosse Aurora extrapolada culturalmente para adiante e imaginaria uma central robótica cosmocontroladora, com câmaras de filmar expiando todos os passos e cabelos do mundo. Uma panóplia de circuitos integrados que ativariam vários anjos, para as ações que comprovariam os sinais divinos.

Ora eu tenho outra cosmovisão, outra teologia e outro entendimento da ação de Deus no mundo. Impressiona-me o mal e o bem, a ferida e a bênção, a dor e beleza, a morte e a vida. Mas há um traço de liberdade, do horizonte do risco de Deus, que é mistério, mas que existe. É o resultado prático desta vida que vale a pena e que resulta da fé de Deus em nós e no mundo, amorosamente criado para todos. Deus arrisca. Arrisca fazer de homens anjos, arrisca a liberdade de todos e de cada um. Arrisca até o pulsar da natureza e do cosmos. Por isso a Terra treme e os vulcões bufam. Arrisca a dor da fricção das vontades e dos corpos. E há acidentes… Arrisca convocar-nos. Cria e está mas, ao mesmo tempo (que paradoxo!), deixa ar para o respiro da liberdade. Mais ainda, convoca homens e mulheres para construir o Seu sonho e não se impõe e talvez nem sequer peça, antes se propõe. Por isso também há doenças mas há quem salve (e se salve…) curando-as… É também por isso, porque Deus só pode o que o amor pode e o amor tece-se da íntima liberdade, que há faltas de comparências de anjos em muitos teatros de incompletude. Em alguns desses cenários de injustiça, falto lá eu… e com culpa.

Deste meu constructo – sim, talvez fruto da razão, do fluxo greco-latino, do iluminismo, da ciência, da cultura deste tempo – sai também alguma ‘cerimónia’ na petição a Deus e na forma como reconheço os Seus sinais na minha vida e no circo onde se movem as criaturas humanas. Não peço que me apareçam anjos nem que as doenças me larguem. Não peço chuva na seca nem sequer que o covid19 se vá embora. Posso desejar alívios, mas impõe-se-me esta abertura ao que vem, de mãos vazias. Impõe-se-me pedir para receber o tudo em nada e o nada em tudo. Impõe-se-me pedir que veja mais longe, que respire mais puro e que alcance mais alto, tanto na saúde como na doença, tanto na riqueza como na pobreza, tanto na honra como na desonra. Peço por mim e por todos, peço certa salvação e a nossa salvação. Peço para saber estar no silêncio e na soledade de hoje e de amanhã. Peço paz, adesão, fidelidade, coragem e alegria. Peço para saber pedir nada. Portanto peço.

Poderei mudar os meus horizontes mas, provavelmente, não vou mudar radicalmente a minha forma de ver o mundo, a minha forma de rezar e pedir, a minha forma de me entender e abraçar o que existe. Eu e a dona Aurora vemos o mundo de forma diferente, por isso também Deus e as coisas de Deus sobre o mundo. Somo flores diferentes de um mesmo jardim, ângulos diferentes a olhar um mesmo destino. Somos mundo, somos comunidade, somos porventura Igreja (com I grande e aberto), eu e ela. Nenhum melhor que o outro, ambos cegos tateantes de um Deus que se não consegue dizer. Somos anjos que se cruzaram num instante de paraíso.

JP in Sem categoria 30 Agosto, 2021

Oportunidades no digital: subtilezas do ‘desinstalar-se’

Paiva, J. C. (2021). Oportunidades no digital: subtilezas do ‘desinstalar-se’. Site Ponto SJ, 13-08-2021.

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Esta reflexão nasceu de elaborações que tenho vindo a fazer a propósito da reação a uma proposta de abertura a formatos mistos presencial/digital, em dinamismo de comunidades cristãs. Embalado pela simpatia dos modelos mistos (presencial/digital) provocados, oferecidos, ensaiados e vividos em tempo de pandemia, parece-me um bom caminho tirar proveito e recomeçar criativamente, superando o mero “voltar ao que era antes”.

Diante da mudança e da novidade, em geral, há inércia e reatividade. Tudo compreensível, nos planos antropológico, psicológico e social. Mas pergunto-me se o Evangelho, nos detalhes e nas traves-mestras, não traz uma insinuação contrária, mais desafiante: precisamente a impressão digital da boa-Nova.

A pandemia trouxe novos formatos de possibilidade para algumas vivências comunitárias, mas há quem tenha receio da novidade que a novidade pode ter trazido. Nas entrelinhas da argumentação reativa, quase sempre, vejo sinais de medo: o medo de que venha a ‘ser uma balda’, o medo de perder o já conquistado, o medo de não ser como era dantes, o medo de perder o controlo, o medo da novidade…

O desinstalar-se…

Algumas reações a estas oportunidades são curiosas e até projetivas…

De todos os argumentos mais reativos aos formatos mistos presencial/digital na vida das comunidades cristãs, o que mais cócegas me faz é o que invoca a necessidade de nos desinstalarmos. Pode estar cheio de aparências de bem…

Aprecio a expressão ‘desinstalar-se’, neste sentido de evitar o sofá da vida humana… Entendo até (não sei se é consensual…) que é no plano da existencialidade mais profunda que o perigo da instalação se alimenta. Compreendo a instalação de Marta no fazedismo de muita coisa, mas é talvez no modelo de sua irmã Maria, que o convite à novidade da escuta aberta é mais radical. O que será desinstalar-se?

a) Subtilezas de certa teologia da cruz e do mérito
A ideia de que a experiência em sacrifício vale mais do que a menos dolorosa tem as suas razões, mas muitas sombras. Está claro que dar a vida (fundamento último da liberdade cristã) pode demandar esforço e dor (no limite dá morte de cruz…), mas o horizonte nunca é a cruz, é o amor que vai até à cruz. Por isto mesmo, no dia-a-dia, o que importa é o amor posto em cada gesto, não o que marca o ‘sacrifiquímetro’, esse aparelho imaginário que mede o grau de sacrifício com que cada atitude se desenvolve, que alguns de nós, crentes, teimamos em trazer no bolso… A par de certa desfocagem da cruz, vem quase sempre o mérito, a ideia de que colecionando sacrifícios, teremos as medalhas para ir para o Céu. Só que o Céu, mais ainda aquele Céu que se vive no tempo e no espaço oferecidos, é uma dádiva, apriorística e garantida. O mérito que a dádiva dá (redundância deliberada) pede à nossa liberdade o “sacrifício” da aceitação de tamanho amor.

E o que tem isto a ver com encontros mistos presencial/digitais? É que alguns argumentos de reatividade, mais ou menos explícitos, estão nas entrelinhas de um insinuante sacrificialismo: vens cá presencialmente e não digitalmente; vestes-te e não estás de pijama; vais meter a criança nos teus pais e não a deitas já na sua cama; vives na cidade e estás perto do ruído urbano, não no campo; abandonas o conforto do lar e desinstalas-te na saída de casa; sofres como eu sofri a logística para vires presencialmente a todos os encontros; não estás a ler um livro até cinco minutos antes da reunião e perdes uma hora no trânsito e poluis, etc. A metáfora “se dói muito, então vale mais” tem muito de criticável em sede de terreno cristão…

b) A presencialidade física como condição necessária pode ser fuga
Há depois uma outra nuance, com que cada um se poderá ver ao espelho, sem máscaras. Face a um dilema de estar presencialmente ou virtualmente numa reunião, a ida presencial é necessariamente mais virtuosa? Pode ser… mas pode não ser. Pode ser sinal de fuga, de quem não tem vida interior, de inquietude, de compulsão convivial. Não confundir nada disto, claro está, com a legítima saudade e positiva prática de encontro corpo-a-corpo, de abraço e de movimento, de toque e de cheiro. Quem escreve estas linhas, que fique claro, aprecia, pratica e promove tais encontros plenos de fisicalidade… mas admite que eles sejam intercalados com o encontro virtual, para benefício flexível de todos e para bem do planeta…

c) A tradição, mais uma vez a tradição…
Também de forma mais ou menos velada, aparecem argumentos reativos de certa tradição: sempre foi assim… E sempre nos sacrificamos pela fidelidade presencial. No passado assim foi, no presente e no futuro assim será… Compreendo o valor da tradição, mas sem leitura crítica não vamos lá. Uma boa analogia envolvendo a tradição misturada com o sacrificialismo seria a ideia de uma Mãe que, diante da sua filha grávida, prestes a dar à luz, lhe dissesse: no meu tempo não havia epidural, portanto trata de fazer nascer a criança com dor. Com mais ironia (embora eu mesmo veja valor e pratique o retorno à terra) pergunto-me se não seria de ponderar ter um porco na varanda em vez de ir comprar febras, para isto voltar ao que era…

Entre gente madura, é o discernimento na pluralidade que vale

Está claro que há necessidade do elemento presencial. Com alguma organização e agendamento, alguma da fisicalidade inexpurgável dos dinamismos comunitários (não só, mas também os cristãos) pode ser concentrada em determinadas circunstâncias. No entre-tanto, estou mesmo convencido disto, seria ótimo criar condições para os encontros mistos (presencial/digital) precisamente “à vontade do freguês”, diga-se sem receios. Claro que “à vontade do freguês”, numa versão madura, é o sagrado discernimento pessoal da melhor conveniência sistémica. E aqui, no melhor dos sentidos, cada um sabe de si, não havendo lugar a juízos mais ou menos morais sobre as respetivas justificações. A propósito de justificações, aliás, tenho uma versão muito própria e radical sobre justificações de ausências a encontros de comunidades cristãs: prescindo delas! Sou um admirador e julgo que praticante da assiduidade, mas confrontado com justificações de ausência, minhas ou dos outros, fico meio sem jeito e convoco aquela máxima que ainda sinto na pele: quanto mais te justificas mais te “enterras”, porque muitos ‘não posso’ são ‘não quero’. O caminho, claro está, é assumir as preferências.

Ainda a propósito de fidelidades a dinamismos grupais há uma nota curiosa que, embora pessoal, me parece merecer alguma consensualidade: a assiduidade e a pontualidade subiram radicalmente nos encontros virtuais em tempo de pandemia. Se assim é, pode ser auspicioso que assim continue nos formatos mistos de hoje e amanhã…

Uma referência assumidamente prática, mas importante: nos encontros mistos, há que tratar muito bem do aspeto tecnológico, para que quem está presencialmente escute e se faça entender junto de quem está mediado digitalmente. Do ponto de vista do som, há que cuidar de ter um bom telemóvel ou computador, ou, melhor ainda, de dispositivos mediadores de som associados próprio para videoconferência. Sem este cuidado técnico, pode comprometer-se a funcionalidade dos encontros mistos, que são tecnologicamente mais desafiantes que os encontros digitalmente puros (zoom e companhia…).

Deverei fazer uma declaração de interesses, no sentido de assumir uma posição algo extremada na simpatia por algumas interações digitais, em virtude do meu estilo de vida (não urbano) e das possibilidades e aptidões tecnológicas que fui experimentando. Mas, descontando essa suspeição, fica o convite à pluralidade livre e discernida…

Uma referência última, algo sintética em si mesma, ao medo que a “a moda pegue” e que todos optem pelo “mais fácil do digital”. É isso mesmo, um medo… que pode conter uma insinuação moralista, mais ou menos consciente, de certo controlo, receio de novidade e falta de confiança.

Que cada um e cada comunidade encontrem o seu processo, sem tabus e sem moralismos. Que se abram e não fechem portas. Tudo com muita paciência e alegria!

JP in Sem categoria 18 Agosto, 2021

fotos de turismo…

Na metáfora contemporânea do turismo desenfreado e irrequieto, acho graça à generalização de tirar milhões de fotos. A maioria de nós, depois, não seleciona essas fotos, não as contempla e nem as embrulha de memórias. São hipercliques, não fotos… Seria melhor olhar mais e fotografar menos?…

JP in Sem categoria 22 Julho, 2021

e a semente vai brotando e crescendo

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mc 4, 26-34

e a semente vai brotando e crescendo

As comparações que Jesus faz entre as metáforas agrícolas e o Seu reino são muito fecundas, mesmo neste tempo em que, infelizmente, muitas pessoas vivem longe da terra. A “semente vai brotando e crescendo” é uma referencia não só poética mas muito certeira da nossa própria vida: a valorização do processo, o tempo e a paciência que são preci(o)sos, o fruto que nasce e se desenvolve, o crescimento que robustece, a imprevisibilidade das condições, a necessidade de cuidado, a abundância eventual da colheita, a consciência da dádiva. Está aqui tudo o que podemos ser…

JP in Sem categoria 12 Junho, 2021

apostolado e proselitismo

Ser apóstolo não é proselitismo e é quase o seu contrário: é fomentar porosidade em mim, no outro e no mundo. É tentar ser transparente face à “causa que causa todas as causas” (Melloni).

JP in Sem categoria 8 Junho, 2021

os Seus parentes diziam: “está fora de Si”

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mc 3, 20-35

os Seus parentes diziam: “está fora de Si”

Podemos apoiar-nos na ideia de que Jesus foi acusado de “estar fora de si”, para estarmos mais imunes a eventuais críticas que nos façam, quando mergulhamos em certa “loucura amorosa”, que, tantas vezes vai contra a corrente. Estas críticas vêm, não raras vezes, como aconteceu com Jesus, da própria família. Jesus, porém, não vacila e segue o Seu caminho, impelido por um bem maior do que ser alguém muito certinho. O estilo cristão não é, definitivamente, o do bem comportadinho… É importante não entender esta passagem como um convite a colocarmos em segundo plano o amor aos nossos Pais ou irmãos de sangue. Não se trata disso e seria um mau testemunho cristão, amar o mundo sem amar os nossos mais próximos. Mas, nalguns casos, temos mesmo que romper com alguns laços ou ouvir algumas palavras mais duras, para podermos, como Jesus, realizar a aventura de, como Ele, estar “fora de nós”…

JP in Sem categoria 6 Junho, 2021

Nova Evangelização: permanecer!

Paiva, J. C. (2021). Nova Evangelização: permanecer! Site Ponto SJ, 28-05-2021.

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A expressão “Nova Evangelização” é, bem o sabemos, uma redundância em si mesma. O Evangelho é Boa Nova e, como tal, seria próprio de quem se importa e tenta viver segundo os critérios de tais inspirações, fazer novas todas as coisas. A redundância é uma figura de estilo bem coerente para este caso: trata-se de sublinhar o essencial do essencial (abrir-se à dádiva do insistente novo), secundarizando alguns apêndices, mais ou menos disciplinares, moralistas, exterioristas, formais, rígidos, fechados, velhos…

Escolho o verbo permanecer para harmonizar uma certa visão de nova evangelização, que fará por gerir um difícil e dinâmico equilíbrio tensional: guardar o que certo passado e tradição nos oferecem, abrindo tal legado à novidade do que o tempo de hoje nos oferece e do que o futuro de novo nos trará, na convicção profunda de que estes, como todos os tempos da história da fé, são “tempos favoráveis” (2 Cor 6: 2). Não há lugar, portanto, por mandato bíblico, para pessimismos no olhar, como se o mundo concorresse em sentido oposto ao da esperança. É lá, na realidade do palco da vida, que se radica o sentido. Permanecer em Deus é permanecer na vida real e permanecer no mundo, no sabor encontrado da crença, é permanecer em Deus.

1- Permanecer em Cristo

Permanecer significa dar-se conta da importância da paciência, da fidelidade e de certa passividade que assume o compromisso de estar, esperando a espera da esperança, acreditando no amor. Este permanecer é algo contracorrente face a certo imediatismo contemporâneo onde, precisamente, pelo contrário, se saltita à distância de um clique ou de uma sensação. A imagem de Cristo como videira, em Jo 15, como fonte de seiva e garantia de vida e de unidade, é bastante inspiradora. Permanecer como ramo de videira é teimar nos critérios de Cristo, porque tal vale a pena, porque a vida assim vivida confirma o jugo leve e suave prometido. Porque permanecer é também dar um sentido outro às feridas e às fraturas da existência, vislumbrando a luz que teima em perpassar cada pequena ou grande contrariedade. Para alguns, permanecer na fé ganha tónus com permanecer em Igreja, um gesto continuado que, como tudo na vida, tem também o seu custo. Para quem escreve estas linhas, esta permanência eclesial, muitas vezes suada, é fonte de grande alegria e descentramento, sublinhando-se um caminho e uma salvação da ordem do “nós”. Uma procura de unidade na diversidade que tem as suas identidades e os seus frutos. Um dos aspetos que mais resiste aos ventos do Concílio Vaticano II é certo clericalismo que manifesta os seus resquícios. A iniciativa laical vai dando os seus sinais, mas não está consumada. Da parte de muitos leigos, porventura distantes da circularidade e da horizontalidade que nos fazem povo em caminho, há ainda resistências que se manifestam, por exemplo, na quase ingénua ideia de que o selo de Igreja se confunde com a presença e com a atividade dos clérigos. Sem escamotear a importância e singularidade do dinamismo dos ordenados na Igreja, ontem, hoje e amanhã, há ainda um salto de qualidade laical por emancipar…

2- Permanecer no mundo e no tempo

A lucidez crítica de alguma tendência superficial dos nossos tempos não pode ser entendida como qualquer combate contra o mundo, mais ou menos dualista, como se o mundo precisasse essencialmente de luta. O nosso primado é um outro, o da aceitação ativa e o da procura da justiça fraterna. Inspira-nos Jesus de Nazaré que sempre recusou ruturas com o mundo, preferindo revelar e revelar-Se nas más companhias mundanas, a partir da realidade como ela é. O Espírito Santo, enquanto gerúndio de Deus que em tudo sopra, ganha, no seu entendimento para a vida, em quasi confundir-se com o tempo e com o espaço que correm. Permanecer no Espírito Santo, portanto, é permanecer no mundo. As teses defensivas e identitárias da Igreja esmorecem no próprio Evangelho, que nada tem a ver com trincheiras, antes rasgando-se numa misericórdia em saída, como Francisco não se cansa de apontar. Não haverá nova evangelização sem atenção e permanência nos sinais dos tempos. De aí para o alto se caminhará porque não há caminho, antes prisão, no movimento contrário, bandeirando o cristianismo como mera ideologia.

3- Permanecer na pergunta

Este caminho da realidade para um ideal (e não o seu inverso), é radicalmente pedagógico e um filão fundamental da nova evangelização. As correntes pedagógicas atuais, embaladas pelo iluminismo, pela racionalidade das próprias ciências, incluindo as sociais, e por valores como a democracia e a pluralidade (na minha ótica, sopros com forte raiz judaico-cristã, agora no lastro de uma sociedade positivamente laica) são de ter em conta. As aprendizagens, seja do que for, são colocações baseadas na pergunta. Será o aprendente, mediante informação e propostas, que realizará o seu caminho, processando, acolhendo, ancorando e resignificando o que lhe é proposto, não imposto (ao estilo de Jesus, diria eu). O cristão (sim, missionário e evangelizador por inerência) terá neste tempo uma permanência baseada na pergunta, fazendo e porventura dizendo o que os outros fazem e dizem, mas com um tónus diferente. Principalmente pelos seus gestos e pelo seu ser, mais até do que pelo que diz, gerará a pergunta no outro. Só assim se poderá propor. Se houvesse eles e nós, em matéria de conversão (mas não há…), ambos, nós e eles que somos só nós, seríamos pergunta. Deus teima em ser a última pergunta diante de cada resposta provisória. E Jesus, Ele mesmo, transitou em formato pergunta. A bem dizer, morreu por amor e estava já a permanecer ressuscitando, como uma pergunta. A Igreja que somos, se quiser ser nova evangelização, terá de permanecer como pergunta aprendente diante da novidade que é a própria graça da vida!

JP in Sem categoria 2 Junho, 2021

vacinações…

Inscrevi-me recentemente para vacinação covid. É um privilégio imenso. Valorizei essa sorte: ser europeu, estar num sistema de ‘fila’ em que ninguém é mais que ninguém, surfar na alavanca da ciência, começar a espreitar maior mobilidade e abraços mais físicos. É curioso o convite a especializar o que é, ao mesmo tempo, tão ordinário e comum mas tão extraordinário e significativo.

JP in Sem categoria 14 Maio, 2021

As novidades do dia não estão… no telemóvel

Paiva, J. C. (2021). As novidades do dia não estão… no telemóvel Site Ponto SJ, 02-05-2021.

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O transístor foi uma invenção muito relevante. Curto-circuitando etapas, a pequenez progressiva de todo o arsenal eletrónico permitiu-nos chegar a estes tempos em que, no nosso bolso, podem estar a internet e milhões de dados e informações (i)relevantes, a previsão do tempo e tradutores, emails, mensagens escritas e de voz, o telefone, o controlo de dispositivos em casa, o jornal e até orações. As redes sociais, com os seus prós e contras, tecem-se igualmente no telemóvel. Está ali, portanto, também, algo das nossas relações.

Entender a tecnologia em geral e o telemóvel, em particular, como uma ameaça e um subtrator civilizacional, é nostálgico e pouco fecundo. A procura do equilíbrio parece, antes, residir no ‘tanto quanto’. O fio da navalha coloca-se sempre na pergunta ética que leve a um fazer humanizante. Como químico, gosto de resumir esta tensão ao ajuste da dose. Que dose, neste caso, de telemóvel, pode tornar o aparelho e a minha relação com ele verdadeiramente tónica… e não tóxica, para mim e para os outros?

Algumas dicas quase-práticas para ‘ajustar a dose’

1) de manhã… não começar pelo aparelho…
O início da manhã é sempre uma importante rampa de lançamento do dia. Começar torto é uma porta abertíssima para caminhar torto… e acabar torto. Todos os rituais religiosos valorizam a oração da manhã. Se a vida fosse uma guerra, a oração da manhã era o apontar da artilharia. Sem ela, as munições vão cair erraticamente e podem até causar danos. Quantas vezes reconhecemos que, orientando mal matinalmente, disparamos em todas as direções… Um dos distrativos de orientação chama-se telemóvel. Começar a manhã com as notícias de última hora, com os pop-ups do email ou do WhatsApp, com os espetáculos do istragram ou até com a previsão do tempo, é movediço. Há uma novidade de manhã, que entendo como uma graça, mas que merece o seu trabalho e cuidado: acordar sem vontade de fechar logo os olhos. E uma oração, um naco de silêncio, um agradecimento, comer pequeno almoço ponderado, calmo e sem ruído, são a grande novidade do dia, que brota de dentro e à minha volta. As novidades do dia não estão no telemóvel!

2) às refeições, está desligado
Há uma regra simples e que é consensual para quem reflita minimamente sobre relações humanas, incluindo as connosco mesmos: não ligar o telemóvel durante as refeições. Desligar, colocar em silêncio, tê-lo distante… Sobra espaço para a conversa, com os outros comensais ou para comigo mesmo, para a atitude ponderada e reconhecedora da bondade dos alimentos, para o sabor. Os dedos a teclar e navegar na tela digital favorecem a voracidade do comer, subtraem-nos liberdade…

3) para o quarto é que não
Para crianças e adultos convém também defender-nos do telemóvel no quarto, local de descanso por excelência. Há formas de permitir que apenas chamadas urgentes (um familiar doente, por exemplo) deem sinal, abrindo espaço ao descanso que se procura no quarto e, sejamos humildes, telemóvel e descanso não combinam entre si…

4) proibido se alguém está a querer falar contigo
Todos nós nos espantamos – e lamentamos – um cenário muito frequente em grupos juvenis (e até infantis) em que conjuntos de pessoas estão fisicamente juntos, cada um teclando para o seu lado. Mas alguns de nós, mesmos se adultos críticos destes quadros, já experimentamos estar a teclar no telemóvel com pessoas ao nosso alcance, que desejariam falar connosco. ‘Só um minutinho’, poderemos dizer, ‘tenho uma chamada urgente’. Mas é esta urgência (mal colocada) que nos desumaniza.

5) não deixar de dar feedback
A partir do momento que temos telemóvel (resistindo a uma opção tão hippy quanto tentadora de o não ter.…) temos a obrigação de não defraudar quem nos procura. Assim sendo, SMS sem resposta, emails sem retorno e telefonemas sem chamada ou sinal de volta, são desaconselhados, no que concerne à consideração humana. A dispersão comunicacional em que vivemos pode ter este perigo: banalizar as convocatórias, não significando o toque à porta digital de quem nos procura. Diria mesmo que pode haver um toque ‘sagrado’ na solicitação, também por via eletrónica. Se é sagrado, dê-se-lhe valor e sequência… Pode haver casos de burnout, de não dar conta do recado. Talvez possa ter sentido, nessas situações, prevenir os potencias contactos de que se deixa de ter telemóvel e se atende apenas um número fixo, que só se responde a email ou outra qualquer plataforma clara e coerente que explicite o grau de abertura possível para comunicar.

6) pela positiva: que nos ajude a organizar a vida e promover contactos
Se não se pretende alimentar a visão e vivência pessimistas das inovações tecnológicas, há que sublinhar os aspetos positivos e otimizáveis associados ao telemóvel. Para além de um ‘almanaque sempre à mão’, com oportunidades de conhecimento, organização e contactos, há que potenciar esses caminhos. Numa outra intervenção escrita, gostaria de aprofundar as vantagens da organização digital na vida pessoal e comunitária, mas, para já, a título de exemplo, fica a sugestão de ampliar a eficácia de pontes com pessoas mais sozinhas, tendo uma lista de tarefas dos contactos a promover. Entre outras, esta é uma das vias solidárias – e por isso eticamente cristãs – do aparelho…

7) sentido autocrítico para uma pedagogia capaz de promover a autocontenção
Algumas das regras acima estão radicalmente entrelaçadas nos processos pedagógicos. Pais e professores sabem bem da urgência de educar para o bom uso do telemóvel. Além de tentar começar desde cedo com estas regras (tão anuídas e aceites por todos quanto possível) há que ir fomentando pela conversa, pelo comentário cultural, por várias expressões artísticas contemporâneas (cinema, artes plásticas, literatura, etc.) um sentido genuinamente autocrítico acerca do uso do telemóvel. Os alcances mais ancorados no dinamismo pedagógico serão conseguidos quando forem auto-conquistados. A meta do educador, nunca esquecendo, seria aquela de que o próprio educando interiorizasse e se apropriasse da regra, mesmo que a tivesse recebido em idade mais recuada, como uma rotina… Depois surge a criatividade e o trabalho de engendrar alternativas ao tecnológico, onde a relação com a natureza, a arte, o jogo lúdico analógico e o desporto assumem particular relevo de saída.

Está visto o diagnóstico: reconhecemos mau uso, abuso ou overdose de telemóvel. Falta ‘mãos à obra’ e, incontornavelmente, teremos de convocar alguma autodisciplina, capaz de potenciar este instrumento e esta possibilidade tecnológica, tanto quanto nos conduz para o fim amoroso da nossa existência, que não é desligar-nos, mas ligar-nos!…

PS: Recebo algumas críticas, particularmente dos que me são mais próximos e não sem razão, que me apontam um resvalar, algumas vezes, para um estilo meio professoral, excessivamente pedagógico e até com algum malabarismo estratégico de ‘querer convencer’. Reconheço essa tentação, em parte potenciada pelos ossos do ofício de ser professor. E, nesta reflexão, tenho o dever de confessar o crime. Estas palavras têm o seu quê de endireitar veredas, talvez até de ‘puxar as orelhas’ e contribuir para reorientar um menino que eu cá sei… eu mesmo!

JP in Sem categoria 4 Maio, 2021

Digo ou não digo?

Paiva, J. C. (2021). Digo ou não digo? Site Ponto SJ, 15-04-2021.

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Um dos grandes dilemas relacionais que nos atravessa a vida toda prende-se com a questão “digo ou não digo?”. O que penso, como me sinto, como reajo, como leio determinada perspetiva, palavra ou acontecimento, como pressinto dado cenário, etc. Quem escreve estas palavras tem um passado e um traço personológico de um certo anti-conflitualismo militante que, apesar de tudo, tem vindo a transformar-se. Reconheço hoje, de forma muito clara, que sem algum grau de conflito dificilmente há progresso relacional. Há formas, ambientes, oportunidades e até técnicas que nos ajudam a conflituar civilizadamente (não levantar a voz, por exemplo) mas, a vida, ela mesma, sublinha-nos que o confronto crítico é da dor de parto inevitável das relações sadias. É assim, aliás, também, na vida interior e espiritual, onde a palavra luta não pode ser excluída e onde, por sugestão bíblica, o morno é desaconselhado.

Há um caminho para o discernimento em causa: relações com ou sem futuro

Apresento uma boa notícia (à qual se seguirá, como é costume, uma menos boa notícia…): há uma tese, diria mesmo, uma resposta objetiva, um critério, para fazer face à pergunta que dá título a esta reflexão. E é esta: sim, digo, se a relação tiver futuro.

A má notícia é que a tensão discernente se mantém: desloca-se para uma outra pergunta: “esta relação tem futuro”? Ficará para outro momento um olhar e um eventual amparo para esta enorme e inquietante questão mas registo desde já que algumas relações até “formalmente” próximas (com amigos, pais, filhos, cônjuges, membros da mesma comunidade, etc.) podem não ter muito futuro. Muitas vezes, esse sombrio futuro é dramático e espreitam até becos sem saída. O “sem futuro” das relações nota-se pela toxicidade e desgaste das interações e pode e deve ser encarado com realismo, coragem e liberdade. Muitas vezes, há que romper e vir embora, sacudindo o pó das sandálias. Sem futuro, todos concordamos, não vale a pena.

Algumas dicas quase-práticas para as relações com futuro:

1) quando o fígado se quer descarregar
Há muitos dizeres que são meras descargas figadais, autocentradas e, normalmente, não construtivas. Um discernimento pessoal atento, quando nos preparamos para dizer algo a alguém, porventura de maior teor crítico ou menos abonatório, poderá balizar-se por esta auto-pergunta: “é para descarregar o fígado ou para trabalhar esta relação com futuro?”. Em suma, quem se prepara para dizer, pode colocar a sua intenção numa banho-maria que só avança se passar pelo crivo da construtividade relacional.

2) O tempo, o modo e o espaço
Não pode ser qualquer, o tempo (para uns à noite, para outros à tarde, para outros daqui a uns dias…), o modo e até o espaço onde um diálogo mais combativo se pode travar. Muitas vezes, estas circunstâncias mais externas minam a qualidade da conversa e, por isso mesmo, estes aspetos deves ser mutuamente combinados, preparados e anuídos.

3) O caso da mensagem escrita
Tenho uma simpatia particular, nos cenários de maior tensão e de maior acumulação de “não ditos”, pela mensagem escrita. As grandes vantagens deste expediente prendem-se com a não interrupção recíproca, com a possibilidade de ponderação e de forma de expressão, com o enfoque e com o evitamento da deriva (a bem dizer, as virtudes que descrevo correspondem, no seu avesso, aos traços típicos das deteriorações dialogantes). Como há um certo mito de que a mensagem escrita pode significar medo, fuga ou falta de coragem, sugiro que quando se usa este mecanismo escrito desbloqueante, se tenha um encontro presencial, face-a-face, e se entregue a mensagem, que o recetor ou o emissor podem ler, sem interrupções, em voz alta. Seguir-se-á, desde logo ou adiante, o dinâmico feedback e contra feedback que se impõe…

4) Perguntar ao (potencial) recetor… se quer receber
Pode parecer estranho, mas é fundamental perguntar ao outro se quer ouvir o que lhe tenho para dizer, prevenindo, se for o caso, que pode incluir inspirações mais críticas. Mas é crucial esta indagação na cultura da assertividade. Ninguém ouve se não quiser ouvir e nem convém que o recetor se disponibilize apenas por cerimónia ou obediência. Desde que comecei a usar esta prática (“queres ouvir algo que te tenho para dizer sobre este assunto e que pode incluir algum teor crítico a teu respeito?”), tenho tido mais autênticos encontros a partir de dilemas e divergências. Tenho acumulado também, ironicamente, experiências surpreendentes de negação, em relações que eu julgava… com mais futuro. É verdade que no caso da resposta ser negativa, se manterá, até por mandato cristão, um certo não desistir da pessoa. No nosso coração, será libertador guardar sempre uma abertura, um lugar universal que, por assim ser, tem sempre um nicho de oportunidade para todos e para cada um. Mas, participando no risco da liberdade criadora, não podemos forçar um futuro que o outro não queira ou não possa, na circunstância em que se encontra…

Há denúncias incontornáveis mas há também os nossos limites 

Podemos incluir nesta temática um devir ético e também cristão de denúncia. Em alguns casos (de forma evidente naqueles que correspondem à ultrapassagem da lei e à tangência de crime, real ou moral) teremos mesmo de avançar, mesmo que o próprio visado não deseje confronto. Quando são tocados terceiros pelos atos em causa, a pressão para “dizer” torna-se mais evidente. Mesmo assim, porém, a denúncia, como tudo o que fazemos e dizemos, há-de ser suportada pela liberdade e sujeita aos nossos próprios limites. Tenho a consciência de, ontem e hoje, embora não deseje, ter metido no bolso denúncias que deveriam ser feitas, por limitações próprias da mais variada ordem.

Na Igreja que somos – que tem futuro – ainda falta dizer muito… 

Na Igreja que somos, nas nossas relações intra-comunitárias e no modus faciendi da estrutura eclesial, vejo com frequência certa cerimónia no dizer. Atribuo tal circunstância, principalmente, a dois tipos de equívocos: 1) uma certa ideia de “cristão bonzinho” (que não me parece emergir dos Evangelhos) que poupa aprioristicamente os outros, esquecendo que o crescimento pode pressupor alguma dor. É por isto que ‘magoo ou não magoo se disser’ não é a pergunta central do discernimento cristão sobre o dizer ou não dizer. Também nesta linha, são positivamente inspiradoras, embora não necessariamente muito e bem exercidas, as práticas de correção fraterna, tão frequentes nas regras de muitos carismas religiosos; 2) um excessivo e desequilibrado apoio na metáfora da descrição, do ‘não dar escândalo’, em última análise, na preservação da imagem (exterior…). Essa defensividade colide radicalmente com a sugestão evangélica da luz que convém mostrar e não esconder (Mc. 4, 21-22). Em muitos dossiers polémicos, vistos de dentro e de fora da Igreja, há um longo caminhos a percorrer no que diz respeito à assertividade pública e privada, à transparência e à explicitação…

Na perspetiva crente há dois vetores relacionais que possuem intrínseco valor e que, por isso, merecem investimento: a relação connosco mesmos e a relação com Deus. Há que nunca desistir destes dinamismos, interligados pela Presença que nos habita e pelas pontes com os outros humanos. Tudo isto tem um enorme futuro!

JP in Sem categoria 20 Abril, 2021