Digo ou não digo?

Paiva, J. C. (2021). Digo ou não digo? Site Ponto SJ, 15-04-2021.

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Um dos grandes dilemas relacionais que nos atravessa a vida toda prende-se com a questão “digo ou não digo?”. O que penso, como me sinto, como reajo, como leio determinada perspetiva, palavra ou acontecimento, como pressinto dado cenário, etc. Quem escreve estas palavras tem um passado e um traço personológico de um certo anti-conflitualismo militante que, apesar de tudo, tem vindo a transformar-se. Reconheço hoje, de forma muito clara, que sem algum grau de conflito dificilmente há progresso relacional. Há formas, ambientes, oportunidades e até técnicas que nos ajudam a conflituar civilizadamente (não levantar a voz, por exemplo) mas, a vida, ela mesma, sublinha-nos que o confronto crítico é da dor de parto inevitável das relações sadias. É assim, aliás, também, na vida interior e espiritual, onde a palavra luta não pode ser excluída e onde, por sugestão bíblica, o morno é desaconselhado.

Há um caminho para o discernimento em causa: relações com ou sem futuro

Apresento uma boa notícia (à qual se seguirá, como é costume, uma menos boa notícia…): há uma tese, diria mesmo, uma resposta objetiva, um critério, para fazer face à pergunta que dá título a esta reflexão. E é esta: sim, digo, se a relação tiver futuro.

A má notícia é que a tensão discernente se mantém: desloca-se para uma outra pergunta: “esta relação tem futuro”? Ficará para outro momento um olhar e um eventual amparo para esta enorme e inquietante questão mas registo desde já que algumas relações até “formalmente” próximas (com amigos, pais, filhos, cônjuges, membros da mesma comunidade, etc.) podem não ter muito futuro. Muitas vezes, esse sombrio futuro é dramático e espreitam até becos sem saída. O “sem futuro” das relações nota-se pela toxicidade e desgaste das interações e pode e deve ser encarado com realismo, coragem e liberdade. Muitas vezes, há que romper e vir embora, sacudindo o pó das sandálias. Sem futuro, todos concordamos, não vale a pena.

Algumas dicas quase-práticas para as relações com futuro:

1) quando o fígado se quer descarregar
Há muitos dizeres que são meras descargas figadais, autocentradas e, normalmente, não construtivas. Um discernimento pessoal atento, quando nos preparamos para dizer algo a alguém, porventura de maior teor crítico ou menos abonatório, poderá balizar-se por esta auto-pergunta: “é para descarregar o fígado ou para trabalhar esta relação com futuro?”. Em suma, quem se prepara para dizer, pode colocar a sua intenção numa banho-maria que só avança se passar pelo crivo da construtividade relacional.

2) O tempo, o modo e o espaço
Não pode ser qualquer, o tempo (para uns à noite, para outros à tarde, para outros daqui a uns dias…), o modo e até o espaço onde um diálogo mais combativo se pode travar. Muitas vezes, estas circunstâncias mais externas minam a qualidade da conversa e, por isso mesmo, estes aspetos deves ser mutuamente combinados, preparados e anuídos.

3) O caso da mensagem escrita
Tenho uma simpatia particular, nos cenários de maior tensão e de maior acumulação de “não ditos”, pela mensagem escrita. As grandes vantagens deste expediente prendem-se com a não interrupção recíproca, com a possibilidade de ponderação e de forma de expressão, com o enfoque e com o evitamento da deriva (a bem dizer, as virtudes que descrevo correspondem, no seu avesso, aos traços típicos das deteriorações dialogantes). Como há um certo mito de que a mensagem escrita pode significar medo, fuga ou falta de coragem, sugiro que quando se usa este mecanismo escrito desbloqueante, se tenha um encontro presencial, face-a-face, e se entregue a mensagem, que o recetor ou o emissor podem ler, sem interrupções, em voz alta. Seguir-se-á, desde logo ou adiante, o dinâmico feedback e contra feedback que se impõe…

4) Perguntar ao (potencial) recetor… se quer receber
Pode parecer estranho, mas é fundamental perguntar ao outro se quer ouvir o que lhe tenho para dizer, prevenindo, se for o caso, que pode incluir inspirações mais críticas. Mas é crucial esta indagação na cultura da assertividade. Ninguém ouve se não quiser ouvir e nem convém que o recetor se disponibilize apenas por cerimónia ou obediência. Desde que comecei a usar esta prática (“queres ouvir algo que te tenho para dizer sobre este assunto e que pode incluir algum teor crítico a teu respeito?”), tenho tido mais autênticos encontros a partir de dilemas e divergências. Tenho acumulado também, ironicamente, experiências surpreendentes de negação, em relações que eu julgava… com mais futuro. É verdade que no caso da resposta ser negativa, se manterá, até por mandato cristão, um certo não desistir da pessoa. No nosso coração, será libertador guardar sempre uma abertura, um lugar universal que, por assim ser, tem sempre um nicho de oportunidade para todos e para cada um. Mas, participando no risco da liberdade criadora, não podemos forçar um futuro que o outro não queira ou não possa, na circunstância em que se encontra…

Há denúncias incontornáveis mas há também os nossos limites 

Podemos incluir nesta temática um devir ético e também cristão de denúncia. Em alguns casos (de forma evidente naqueles que correspondem à ultrapassagem da lei e à tangência de crime, real ou moral) teremos mesmo de avançar, mesmo que o próprio visado não deseje confronto. Quando são tocados terceiros pelos atos em causa, a pressão para “dizer” torna-se mais evidente. Mesmo assim, porém, a denúncia, como tudo o que fazemos e dizemos, há-de ser suportada pela liberdade e sujeita aos nossos próprios limites. Tenho a consciência de, ontem e hoje, embora não deseje, ter metido no bolso denúncias que deveriam ser feitas, por limitações próprias da mais variada ordem.

Na Igreja que somos – que tem futuro – ainda falta dizer muito… 

Na Igreja que somos, nas nossas relações intra-comunitárias e no modus faciendi da estrutura eclesial, vejo com frequência certa cerimónia no dizer. Atribuo tal circunstância, principalmente, a dois tipos de equívocos: 1) uma certa ideia de “cristão bonzinho” (que não me parece emergir dos Evangelhos) que poupa aprioristicamente os outros, esquecendo que o crescimento pode pressupor alguma dor. É por isto que ‘magoo ou não magoo se disser’ não é a pergunta central do discernimento cristão sobre o dizer ou não dizer. Também nesta linha, são positivamente inspiradoras, embora não necessariamente muito e bem exercidas, as práticas de correção fraterna, tão frequentes nas regras de muitos carismas religiosos; 2) um excessivo e desequilibrado apoio na metáfora da descrição, do ‘não dar escândalo’, em última análise, na preservação da imagem (exterior…). Essa defensividade colide radicalmente com a sugestão evangélica da luz que convém mostrar e não esconder (Mc. 4, 21-22). Em muitos dossiers polémicos, vistos de dentro e de fora da Igreja, há um longo caminhos a percorrer no que diz respeito à assertividade pública e privada, à transparência e à explicitação…

Na perspetiva crente há dois vetores relacionais que possuem intrínseco valor e que, por isso, merecem investimento: a relação connosco mesmos e a relação com Deus. Há que nunca desistir destes dinamismos, interligados pela Presença que nos habita e pelas pontes com os outros humanos. Tudo isto tem um enorme futuro!

JP in Sem categoria 20 Abril, 2021

Blended apostolicus: oportunidades para a Igreja no digital

Paiva, J. C. (2021). Blended apostolicus: oportunidades para a Igreja no digital. Site Ponto SJ, 14-03-2021.

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A situação de pandemia que vivemos forçou-nos a todos a uma maior intensidade de mediação digital. Reuniões síncronas por via de plataformas como o zoom; visualização e partilha de vídeos, textos e animações; maior interação em redes sociais; mais à vontade com recursos digitais.

Na vida da Igreja muitas das habituais interações como conferências e catequeses, reuniões de estruturas e outros encontros não pararam. A eficácia resultante surpreendeu muitas pessoas, mesmo os mais céticos, pelos progressos técnicos pessoais e pela eficiência que os processos digitais possibilitam.

Somos peregrinos. Não está no nosso ADN a simples nostalgia de desejar tão só voltar ao mesmo sítio. Por isto mesmo, há um certo mandato cristão de tirar proveito destas aprendizagens e potenciar as grandes virtudes de algumas interações digitais. Nos tempos mais próximas, espera-se, haverá uma espectável e legítima procura de presencialidade, de toque e de fisicalidade. Mas não tardará um reequilíbrio capaz de conjugar essa mesma congregação pessoal clássica com as novas janelas da tecnologia. Em educação, usa-se o termo blended-learning (abreviatura b-learning) para a utilização conjunta de momentos presenciais com interações digitais, síncronas ou assíncronas, tipicamente a distância. A palavra blended aproxima-se da palavra mistura e diz respeito à indústria do whisky, onde vários líquidos se juntavam. É algo inspirador para muitas das coisas que podemos vir a fazer em Igreja, embalados pela hiperdigitalização destes tempos: um entrelaçado fecundo (blended) entre os momentos plasmados no mesmo espaço e no mesmo tempo e outros à distância… de um clique!

São óbvias algumas vantagens das reuniões virtuais, quer na perspetiva geográfica (daqui para qualquer lugar do mundo, e vice-versa…) quer por aspetos muito práticos como: poder estar em casa, com filhos pequenos, doentes ou dormindo, poupar combustível, ganhar algum tempo, aliviar o trânsito, bem como outros contributos indiretos para a saúde da Casa Comum. Em síntese, um potencial incremento da assiduidade. Digo isto quer para aqueles encontros de preparações de eventos, secretariado e planeamento, quer para outros eventos de natureza mais “apostólica” (convivo bem com o termo – apostólico – mas sublinho que o sentido apostólico é da ordem do ser e essa ontologia é pouco dada a estratégias e a militâncias muito dirigidas…).

Poderíamos chamar a certa vida futura da nossa comunidade, b-Igreja (b de blended). De fora, compreende-se pela própria essencialidade do toque, os sacramentos. A eucaristia, em particular, não me pareceu ganhar muito com a mediação digital. Independentemente da emissão para terceiros, de per si, a missa (física) em COVID apresenta notárias falhas cénicas (mascaradas) e fragiliza intrinsecamente a liturgia. Em particular, saliento a antítese de evitar o contacto quando se celebra a comunhão. Compreende-se o mal menor das missas transmitidas em pandemia, já praticado pela via televisiva em pré-pandemia. Intensificou-se por aí uma marcada regressão, na forma como alguns se referem à eucaristia usando essa terrível expressão: “assistir” à missa…

Por outro lado, passível de potencialidade digital, claro está, estão realidades como o acompanhamento espiritual, as reuniões comunitárias de fé e de vida, conferências temáticas, debates, catequeses, secretariado de equipas de serviço, etc. Será lamentável se não se aproveitar este embalo. O formato blended (não falamos de digitalização exclusiva) será equilibrado e permitirá respeitar os vários ritmos. Não será razoável, em pós-pandemia, fazer reuniões de cariz nacional, principalmente de secretariado, no formato virtual (pelo menos algumas vezes, senão na maioria dos casos…)? Não será interessante evitar viagens cansativas e arriscadas, principalmente no Inverno, fazendo-se a parte ou o todo de um grupo, presente não fisicamente? Pode colocar-se a questão, aqui e ali, de haver ritmos e sensibilidades diferente na tensão encontro presencial/encontro digital. Para estes dilemas sugiro o caminho salomónico, respeitador de todas as equações e estilos: quem entender como melhor estar fisicamente, assim estará. Quem entender como melhor (ou só puder assim), estará digitalmente. Estes formatos mistos presencial/digital parecem-me de enorme futuro. Hoje em dia, tecnicamente, qualquer telemóvel de gama média colocado no meio de uma mesa, capta o som do conjunto e fornece a participação de quem estiver a distância. Para eventos com mais pessoas, não será desproporcionado adquirir um microfone/emissor de maior alcance, dispositivos cada vez mais acessíveis e que otimizam a receção e emissão de som para grupos de muita gente.

Costuma ser notado, no contexto destes argumentos, o problema da infoexclusão, particularmente dos mais idosos ou desprotegidos económico-culturalmente. Sem prejuízo de ser precisa ainda alguma solidariedade cristã digital, impressionou nestes tempos a quantidade de pessoas que se superaram e apareceram on line. Mais ainda (e digo-o com experiência própria), foram lançadas e vividas oportunidades a gente do interior do país, nos mais variados lugares europeus e até do outro lado do oceano.

Pode caber aqui, em véspera de ano inaciano, o exemplo de Inácio, forçado a parar em confinamento por fraturas da vida. O seu momento Pamplona (equivalente ao nosso momento COVID…) levou-o a reformular (-se) e a reformular a vida. O essencial desta resignificação que vivemos não é a digitalização mas existirá, também no bom uso da tecnologia, uma alternativa de alavancamento.

Sim… há perigo de sofá, de quentinho, de ir pelo mais fácil. Por outro lado, via tanta gente cansada, a ir a todas… Via uma sociedade poluída, ruidosa, azafamada (mesmo com a agenda das ‘coisas de Deus’), excessivamente urbanizada… Caberá a cada um e a cada grupo ir vendo e avaliando sistemicamente tudo isto, surfando nas aprendizagens COVID. Aferir o grau blended para a bebida do grupo… ou até tomar sempre whisky quase puro! Com ânimo e alegria há que ir caminhando, com um pé na fisicalidade e outro pé no digital…

JP in Sem categoria 16 Março, 2021

contemplar-discernir-propor

Austen Ivereigh, um dos mais notáveis biógrafos do Papa Francisco, diz que este prefere, em vez da tríade ver-julgar-agir, uma outra, sob o chapéu da misericórdia, que poderia ser contemplar-discernir-propor. Percebo este andamento, menos moralista, mais gradual, mais pedagógico, mais confiante na consciência de cada um. Por vício de síntese, tomo para mim como seria interessante ver, julgar e agir, contemplando, discernindo e propondo…

JP in Sem categoria 10 Março, 2021

ecologia e autocrítica…

Interpreto com compreensão e até com agrado a irreverência juvenil contemporânea que marca presença nas manifestações pela preservação da casa comum e pelo combate às causas dos desarranjos climáticos. Há um lastro de responsabilidade social e sentido autocrítico, porém, que convém ter em conta. Estar a manifestar-me nestes cenários e mudar de telemóvel assim que sai um novo modelo, aceitar acriticamente a boleia dos papás, de carro, para a escola ou viajar intercontinentalmente de forma desenfreada, é lutar ao estilo de frei Tomás: olha para o que eu grito, não para o que se faz…

JP in Sem categoria 2 Fevereiro, 2021

Empanturrados de religião

Paiva, J. C. (2021). Empanturrados de religião. Site Ponto SJ, 24-1-2021.

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Tropecei algures, não sei onde, com uma expressão feliz de crítica religiosa: “os empanturrados”. Olhando à minha volta e até na minha história pessoal, dentro da Igreja, reconheço com nitidez estas insinuações.

A dose, a intensidade e a colocação da “coisa religiosa” merece constante resignificação na vida de cada crente. Sem uma lucidez crítica apurada, facilmente caímos em dois lugares extremos que representam, ambos, um não encontro: ou nos desiludimos, ou nos empanturramos.

Convoco duas analogias que me foram trazidas pelo jesuíta Javier Melloni, não sei se em segunda, se em primeira mão, para explicitar a minha colocação: a analogia do copo e do vinho e a analogia do caminho e do veículo.

O copo e o vinho. Segundo esta analogia, o essencial espiritual representa o vinho. Note-se que o vinho é bom, perfumado, saboroso, valioso e dom (fruto do trabalho, também…). As religiões seriam o copo, por onde se pode tomar o vinho, com valor adicional de eficácia. Os copos, porém, valem pelo potencial de conter e partilhar o vinho, não por si. São diversos nas formas, feitios, cores, mas apresentam uma função em si própria louvável, que é a de serem disponbilizadores de vinho. Há uma certeza humilde que o copo deveria ter (perdoe-se-me a personificação): o copo não é nem a fonte nem o vinho!

O caminho e o veículo. Nesta analogia, o caminho, desde logo comum e não exclusivo de ninguém, é o trilho onde se pode progredir. Este caminho é feito de estações de encontro e constitui, em si mesmo, também teleologicamente, o Encontro. O veículo, mais uma vez com potencias de utilidade e favorecimento, ajuda a caminhar. As religiões, bem entendido, são veículo e não são caminho, não lhes cabendo, portanto, qualquer espaço nem tribal nem endogâmico. Se convém cuidar do veículo? Sim, fazer as revisões, estimar e não estragar desnecessariamente. Mudar o óleo, evitar a corrosão. Mas que se cuide do veículo para ele andar e, já agora, de forma inclusiva, para ser o veículo do nós e não o meu veículo. Todos conhecemos os endeusadores de automóveis, às vezes de coleção: estão polidos, expostos e protegidos… mas progridem pouco, valendo mais para serem vistos do que para caminhar. Há também carros que optaram por se preservar das agressões externas, quiseram ser defendidos e resguardados. Ficaram parados, não fazem caminho e mais parecem sucata…

Ambos os cenários analógicos, como se vê, apresentam forte potencial ecuménico e inter-religioso mas são, simultaneamente, as estradas da própria identidade cristã, cuja marca tem em si própria a porosidade radical de quem não tem fronteiras. Quem coloca o tónus no copo escolhe lutar pela sua posse, enquanto o vinho é diálogo. Quem se polariza no veículo foca-se em defender(-se), enquanto o caminho é rasgada oferta.

Na linguagem analógica acima podemos perceber bem os dois extremos típicos já aludidos: os que com alguma ingenuidade optam por aceder ao vinho sem copo ou que caminham sem veículo (concedendo-se que algum vinho beberão e alguns passos andarão); e os que, em reduto fundamentalista, que não é nem fundamental nem radical, endeusam os copos e esquecem o vinho, puxam o lustro ao veículo, mas mantem-no estático.

O cerne do equívoco prende-se com a clarificação do que é central e do que é periférico. Com alguma clareza, observo na lide religiosa quem toma como central as formas, as normas, as roupagens e as exterioridades. Essa (pesudo)segurança fecha, enrijece e, não raras vezes, é bafienta a até apodrece. Se, pelo contrário, o centro for a fé, a crença vivida num Deus que só ama e cria e a misericórdia com que, também por nós, se verte no mundo, resulta em abertura, respiro, leveza… vinho e caminho.

O contrário do indesejável moralismo não é a amoralidade. Os que trabalham para se centrar e recentrar atenta e comunitariamente no núcleo amoroso da fé não desprezam as roupas com que nos precisamos de vestir, mas estão conscientes da secundariedade das formas, dos ritos e dos normativos. Estes só servem se colorirem o fundamento primeiro do amor a Deus e ao próximo. Jesus de Nazaré parece ser, a este nível, inspirador…

Perguntei-me, por simetria, se haveria “empanturrados de Deus”. A minha conclusão é que Deus não deixa que d’Ele nos empanturremos. Há um lado na relação com a transcendência que é da ordem do “quanto mais melhor”. Mas esse salto místico, paradoxalmente, deixa-nos sempre não possuidores e, pelo contrário, expostos com entusiasmo à novidade e à alegria interior, com as suas consequências relacionais soltas e promotoras. Mais ainda, essa overdose com o Totalmente Outro, dentro de nós e em toda a parte, alimenta-se da não palavra, num silêncio que não ocupa espaço de sobrelotação. A nossa religiosidade, portanto, ou serve essa mística aberta vivida… ou empanturra…

JP in Sem categoria 26 Janeiro, 2021

adiar o abraço

No tempo de pandemia e nos desejos de estar e abraçar fisicamente tantos outros que há muito não tocamos, talvez se possa dar um pequeno mergulho místico e dizer: “até breve pois se um instante é a eternidade contida e a eternidade são instantes inteiros e integrados, daqui até ao Verão é um eterno instante…

JP in Sem categoria 14 Janeiro, 2021

ética global

Em ambiente de pandemia, notemos com reparo agradado que talvez se tenha globalizado alguma ética: nas prioridades da vacinação, um pouco por todo o mundo, vão primeiro os mais velhos, os mais frágeis, os mais inseguros (ou quem cuida deles). Esta preferência pelos ‘últimos’ deve orgulhar a humanidade.

JP in Sem categoria 4 Janeiro, 2021

Ajudar melhor quando nos pedem: a complexa situação da fragilidade social.

Paiva, J. C. (2020). Ajudar melhor quando nos pedem: a complexa situação da fragilidade social. Site Ponto SJ, 22-12-2020.

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1. Quando me batem à porta…
Numa (só aparente, porque sempre tendente…) novidade na história da Igreja, o Papa Francisco coloca no centro da vida cristã o que nunca deixou de o ser: a fraternidade. Toca-me particularmente a sua mais recente encíclica, Fratelli Tutti, na qual Francisco convoca a Igreja para a sua missão essencial, nos tempos concretos que vivemos. É essa enculturação no tempo e no espaço que habitamos que renova todas as coisas. Este documento ajuda-me a entender, com a razão e com o coração, o trilho, o perfume e a inspiração da resposta a trabalhar face à grande pergunta da identidade crente: “onde está o teu irmão?” (Gn 4, 9-10).

Confesso, porém, uma extrema dificuldade, oxalá não bloqueante, em praticar estas indicações, como forma vertida nos lugares que piso. É no “como fazer” que se tece a ambiguidade e o desafio.

Recordo com ternura a inspiração de Santo Afonso, um simples porteiro que, segundo se conta, quando ouvia a campainha da porta dizia a si mesmo e a quem estivesse por perto: “já lá vou, Senhor”. Esta será, em meu entender, a luz que sempre iluminará: cada um que me solicita torna-se o centro (o Senhor…), que merece atenção, carinho e eficácia.

2. Convergir com a ação social institucionalizada
Sou abordado por pessoas em dificuldade social que, aqui e ali, me pedem ajuda. Tento, muitas vezes em família, dar alguma sequência em pequenos gestos que envolvem coisas como: otimizar processos de acesso à saúde, alavancar imbróglios burocráticos na relação com as finanças, a segurança social ou as entidades municipais, ajudar na vida escolar de filhos, mediar alguns conflitos, etc. A experiência de alguns anos e algumas situações delicadas de frutos discutíveis, leva-me a sugerir a mim mesmo, o seguinte:

a) Não empreender gestos e ações que não foram solicitados ou, pelo menos, cuja confirmação de interesse pela parte de quem os recebe não esteja clara. Tenho no meu passado nesta área muitas iniciativas cheias de diligências, procedimentos e energia que ‘morreram na praia’ muito por falta de aferição minha do que era francamente desejado, possível e sustentável…
b) Não dar dinheiro diretamente. Salvo raríssimas e ponderadíssimas exceções é sempre melhor evitar a dádiva de dinheiro, “tout court”.
c) Escutar bem a necessidade, o contexto e o que me é solicitado.
d) Não prometer nem o impossível nem o que não puder fazer. O mais infecundo, nestes cenários, é o dizer que se vai fazer e depois esquecer (no limite, é a acumulação dessas não correspondências que trouxe até à fragilidade social quem nela está…).
e) Evitar os julgamentos prévios, que contaminam a generosidade. Os perigosos “vai trabalhar malandro”, “é para a droga” ou “recebe RSI e toma o pequeno almoço na pastelaria” são ótimos relaxantes escapatórios e são de um simplismo básico, que inibe o necessário olhar mais profundo, exigente e atuante.
f) Por fim, algo que nem sempre pratiquei, mas que considero hoje vital: quando tal se justifica (na maioria dos casos assim é) procurar saber quem é a equipa de assistência social ou apoio já no terreno e convergir com esses esforços. Nos dias de hoje não avanço em procedimentos mais elaborados de ajuda sem indagar, com o conhecimento de quem me procura, junto dos técnicos ou outros agentes já no cenário da ajuda. Tudo isto ganha frutos adicionais quando feito em rede. O contrário, voluntarista e porventura sentimentalmente, gera em muitos casos dispersão e, não raras vezes, contradição de ajudas…
A realidade da fragilidade socioeconómica é de uma complexidade gritante. Por conseguinte, a ação dos técnicos de ação social, antes de mais louvável, mas, ao mesmo tempo, muito exigente e às vezes frustrante, pede colaboração dos pares (vizinhos, amigos, familiares, cidadãos… cada um de nós). Esta colaboração, porém, deverá ser feita de forma transparente e coerente, colaborando, de facto, e nunca concorrendo ou divergindo…

3. Um ‘mimo’ e oração: gestos que cabem sempre
Acontece-me inúmeras vezes querer articular com a assistente socio-caritativa já em ação, face a um pedido de alguém e, quem me está a solicitar ajuda, negar esse envolvimento. Posso sempre fazer qualquer coisa. Chamo a isso mesmo os ‘mimos’, tipicamente radicados em gestos simples:

a) Ouvir. Serei simples neste item e afirmo, com alguma ironia, que nunca fui tão bom a enunciar o que não pratico assim tão bem. Quando me distraio, com pressa de muito fazer ou desvalorizando o que importa, claudico neste propósito…
b) Dar de comer. Acontece tipicamente em cafés, restaurantes, hipermercados. Pode-se sempre dar algo de comer se existir vestígio de fome. Melhor ainda se for aferido pelo gosto de quem solicita (“o que gostaria de comer”?). Personalizar, portanto… E evitar dar o supérfluo, mas ser capaz de dar o que consumo também eu mesmo…
c) Dar em chave simbólica. Costumo ter no carro caramelos (seria criativo se também tivesse cigarros, mesmo sabendo que fazem menos bem, sei que são mimos para muitos). Quando me pedem, principalmente em filas de trânsito, estacionamentos, etc, embrulho um ou outro caramelo num sorriso. Em regra resulta… Seja um chocolate, uma bolacha, uma flor… o que for…
d) Perguntar o nome e conversar um pouco. Principalmente no espaço incógnito da rua. Por vezes não tenho muito sucesso, porque a agenda de quem me pede é legitimamente outra, mas procuro perguntar o nome a quem me aborda e saber um pouco da sua vida. Bem sei como não aguentaria esse ritmo de falar com todas as pessoas que me pedem se tivesse uma vida numa grande cidade (e isto alimenta-me em certa crítica da própria metáfora urbana…)
e) Oferecer… quando se conhece mais a pessoa, uma peça de roupa ou um elemento de decoração personalizados, que se adivinhem ser bem acolhidos.

No formato crente, pode-se trazer à oração estas pessoas. Nomeá-las como presenças na triangulação com a transcendência amorosa. Pedir sempre a graça da lucidez e de nos abrirmos todos a receber e construir o que possa ajudar no sonho fraterno de Deus, que teima em querer usar as nossas mãos…

4. Ovos-galinhas-ovos…
A conhecida metáfora de “dar a cana de pesca e não o peixe” é uma ótima sugestão para a ação social sustentável. Mas a complexidade, a surpresa e a dificuldade espreitam igualmente, mesmo sob esta inspiração. Um exemplo que fala por si: fitados na dita ‘cana de pesca’ entendemos mudar um ritual que tínhamos de dar ovos caseiros produzidos aqui no espaço em que vivemos a algumas famílias. Perguntamos se aceitariam, em vez, potenciando a vida no campo e aproveitando restos de comida, as próprias ervas da natureza, etc, meia dúzia de galinhas poedeiras e uma boa dose de ração de ignição, para dar início sustentável a produção própria. Resposta sim. Ação empreendida. Alguns meses depois “as galinhas foram comidas pelos cães”. Algum humor. Voltamos a dar ovos caseiros, os mimos que sempre valem. Um desconcerto que nos reforça o tónus da complexidade de tanta desgovernação acumulada, génese da pobreza.

5. Ir ainda mais além passará pelo empenhamento político, económico, educativo, cultural…
Perante a multifactoralidade do cenário socioeconómico no nosso país e no mundo, há que estar conscientes de que muitos dos desafios colocados são de ordem política, económica, diplomática (até militar, em alguns casos mais extremos). O empenhamento nestas áreas – e naquela que todas potencia no médio-longo prazo, que é a educação, pode e deve ser resignificado por cada um e por todos nós. O investimento neste ‘macro’, que é a intervenção cívico-política é saudavelmente compatível com a ação ‘micro’ no terreno que, mesmo que simbólica, nos permite algum toque de amparo e, claro está, um mergulho na realidade. A este propósito assinalo que algumas linhas de pensamento e eventual ação, porventura um tanto descontinuistas, como o Rendimento Básico Incondicional (RBI), podem ser ensaiadas.

Na senda desta reflexão não me parecem nada desprezíveis, muito pelo contrário, as doações discernidas e generosas a instituições de confiança e com provas dadas de credibilidade e eficácia na ação socio-económica, nas mais variadas escalas (e porque o mundo é pequeno e globalizado). Por exemplo, o Banco Alimentar Contra a Fome, a Fundação Gonçalo da Silveira (FGS) ou os Leigos para o Desenvolvimento. Participar doando a estas instituições é, em si mesmo, uma aferição de eficácia.

Perigoso, seria uma qualquer instalação nossa “em sofá”, ou num conforto pelo que já se faz (intrinsecamente insuficiente) ou na prisão do que se não consegue fazer. Pedir sede na ação social é pedir lucidez de leitura e de ação, mas, acima de tudo, saber-se esperançosamente irrequieto!

JP in Sem categoria 28 Dezembro, 2020

Natal 2020 – nascimentos em pandemia…

Não seria excessivo escrever que o Natal de há dois mil anos se deu em tempo de confinamento, dificuldade, cansaço e falta de esperança. Esse beijo da transcendência amorosa ao mundo que somos, também hoje, é sinal vivível de abertura, docilidade, energia e sentido. Há que celebrar, pois, mais purgados de certas exterioridades, esta festa esperançosa da vida! Que a celebração nos encha o coração e tenha frutos na realização do sonho de Deus, que é cuidar, amparar, atender, promover, abraçar, sarar e viver intensamente!

JP in Sem categoria 24 Dezembro, 2020

do meu ponto de vista…

Há uma frase que, a bem dizer, deveríamos impor a nós mesmos como “antecessora de tudo o mais”. Ela garante a empatia e a consciência profunda do valor da diversidade. A frase mágica é “do meu ponto de vista…”

JP in Sem categoria 22 Dezembro, 2020