Nova Evangelização: permanecer!

Paiva, J. C. (2021). Nova Evangelização: permanecer! Site Ponto SJ, 28-05-2021.

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A expressão “Nova Evangelização” é, bem o sabemos, uma redundância em si mesma. O Evangelho é Boa Nova e, como tal, seria próprio de quem se importa e tenta viver segundo os critérios de tais inspirações, fazer novas todas as coisas. A redundância é uma figura de estilo bem coerente para este caso: trata-se de sublinhar o essencial do essencial (abrir-se à dádiva do insistente novo), secundarizando alguns apêndices, mais ou menos disciplinares, moralistas, exterioristas, formais, rígidos, fechados, velhos…

Escolho o verbo permanecer para harmonizar uma certa visão de nova evangelização, que fará por gerir um difícil e dinâmico equilíbrio tensional: guardar o que certo passado e tradição nos oferecem, abrindo tal legado à novidade do que o tempo de hoje nos oferece e do que o futuro de novo nos trará, na convicção profunda de que estes, como todos os tempos da história da fé, são “tempos favoráveis” (2 Cor 6: 2). Não há lugar, portanto, por mandato bíblico, para pessimismos no olhar, como se o mundo concorresse em sentido oposto ao da esperança. É lá, na realidade do palco da vida, que se radica o sentido. Permanecer em Deus é permanecer na vida real e permanecer no mundo, no sabor encontrado da crença, é permanecer em Deus.

1- Permanecer em Cristo

Permanecer significa dar-se conta da importância da paciência, da fidelidade e de certa passividade que assume o compromisso de estar, esperando a espera da esperança, acreditando no amor. Este permanecer é algo contracorrente face a certo imediatismo contemporâneo onde, precisamente, pelo contrário, se saltita à distância de um clique ou de uma sensação. A imagem de Cristo como videira, em Jo 15, como fonte de seiva e garantia de vida e de unidade, é bastante inspiradora. Permanecer como ramo de videira é teimar nos critérios de Cristo, porque tal vale a pena, porque a vida assim vivida confirma o jugo leve e suave prometido. Porque permanecer é também dar um sentido outro às feridas e às fraturas da existência, vislumbrando a luz que teima em perpassar cada pequena ou grande contrariedade. Para alguns, permanecer na fé ganha tónus com permanecer em Igreja, um gesto continuado que, como tudo na vida, tem também o seu custo. Para quem escreve estas linhas, esta permanência eclesial, muitas vezes suada, é fonte de grande alegria e descentramento, sublinhando-se um caminho e uma salvação da ordem do “nós”. Uma procura de unidade na diversidade que tem as suas identidades e os seus frutos. Um dos aspetos que mais resiste aos ventos do Concílio Vaticano II é certo clericalismo que manifesta os seus resquícios. A iniciativa laical vai dando os seus sinais, mas não está consumada. Da parte de muitos leigos, porventura distantes da circularidade e da horizontalidade que nos fazem povo em caminho, há ainda resistências que se manifestam, por exemplo, na quase ingénua ideia de que o selo de Igreja se confunde com a presença e com a atividade dos clérigos. Sem escamotear a importância e singularidade do dinamismo dos ordenados na Igreja, ontem, hoje e amanhã, há ainda um salto de qualidade laical por emancipar…

2- Permanecer no mundo e no tempo

A lucidez crítica de alguma tendência superficial dos nossos tempos não pode ser entendida como qualquer combate contra o mundo, mais ou menos dualista, como se o mundo precisasse essencialmente de luta. O nosso primado é um outro, o da aceitação ativa e o da procura da justiça fraterna. Inspira-nos Jesus de Nazaré que sempre recusou ruturas com o mundo, preferindo revelar e revelar-Se nas más companhias mundanas, a partir da realidade como ela é. O Espírito Santo, enquanto gerúndio de Deus que em tudo sopra, ganha, no seu entendimento para a vida, em quasi confundir-se com o tempo e com o espaço que correm. Permanecer no Espírito Santo, portanto, é permanecer no mundo. As teses defensivas e identitárias da Igreja esmorecem no próprio Evangelho, que nada tem a ver com trincheiras, antes rasgando-se numa misericórdia em saída, como Francisco não se cansa de apontar. Não haverá nova evangelização sem atenção e permanência nos sinais dos tempos. De aí para o alto se caminhará porque não há caminho, antes prisão, no movimento contrário, bandeirando o cristianismo como mera ideologia.

3- Permanecer na pergunta

Este caminho da realidade para um ideal (e não o seu inverso), é radicalmente pedagógico e um filão fundamental da nova evangelização. As correntes pedagógicas atuais, embaladas pelo iluminismo, pela racionalidade das próprias ciências, incluindo as sociais, e por valores como a democracia e a pluralidade (na minha ótica, sopros com forte raiz judaico-cristã, agora no lastro de uma sociedade positivamente laica) são de ter em conta. As aprendizagens, seja do que for, são colocações baseadas na pergunta. Será o aprendente, mediante informação e propostas, que realizará o seu caminho, processando, acolhendo, ancorando e resignificando o que lhe é proposto, não imposto (ao estilo de Jesus, diria eu). O cristão (sim, missionário e evangelizador por inerência) terá neste tempo uma permanência baseada na pergunta, fazendo e porventura dizendo o que os outros fazem e dizem, mas com um tónus diferente. Principalmente pelos seus gestos e pelo seu ser, mais até do que pelo que diz, gerará a pergunta no outro. Só assim se poderá propor. Se houvesse eles e nós, em matéria de conversão (mas não há…), ambos, nós e eles que somos só nós, seríamos pergunta. Deus teima em ser a última pergunta diante de cada resposta provisória. E Jesus, Ele mesmo, transitou em formato pergunta. A bem dizer, morreu por amor e estava já a permanecer ressuscitando, como uma pergunta. A Igreja que somos, se quiser ser nova evangelização, terá de permanecer como pergunta aprendente diante da novidade que é a própria graça da vida!

JP in Sem categoria 2 Junho, 2021

Empanturrados de religião

Paiva, J. C. (2021). Empanturrados de religião. Site Ponto SJ, 24-1-2021.

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Tropecei algures, não sei onde, com uma expressão feliz de crítica religiosa: “os empanturrados”. Olhando à minha volta e até na minha história pessoal, dentro da Igreja, reconheço com nitidez estas insinuações.

A dose, a intensidade e a colocação da “coisa religiosa” merece constante resignificação na vida de cada crente. Sem uma lucidez crítica apurada, facilmente caímos em dois lugares extremos que representam, ambos, um não encontro: ou nos desiludimos, ou nos empanturramos.

Convoco duas analogias que me foram trazidas pelo jesuíta Javier Melloni, não sei se em segunda, se em primeira mão, para explicitar a minha colocação: a analogia do copo e do vinho e a analogia do caminho e do veículo.

O copo e o vinho. Segundo esta analogia, o essencial espiritual representa o vinho. Note-se que o vinho é bom, perfumado, saboroso, valioso e dom (fruto do trabalho, também…). As religiões seriam o copo, por onde se pode tomar o vinho, com valor adicional de eficácia. Os copos, porém, valem pelo potencial de conter e partilhar o vinho, não por si. São diversos nas formas, feitios, cores, mas apresentam uma função em si própria louvável, que é a de serem disponbilizadores de vinho. Há uma certeza humilde que o copo deveria ter (perdoe-se-me a personificação): o copo não é nem a fonte nem o vinho!

O caminho e o veículo. Nesta analogia, o caminho, desde logo comum e não exclusivo de ninguém, é o trilho onde se pode progredir. Este caminho é feito de estações de encontro e constitui, em si mesmo, também teleologicamente, o Encontro. O veículo, mais uma vez com potencias de utilidade e favorecimento, ajuda a caminhar. As religiões, bem entendido, são veículo e não são caminho, não lhes cabendo, portanto, qualquer espaço nem tribal nem endogâmico. Se convém cuidar do veículo? Sim, fazer as revisões, estimar e não estragar desnecessariamente. Mudar o óleo, evitar a corrosão. Mas que se cuide do veículo para ele andar e, já agora, de forma inclusiva, para ser o veículo do nós e não o meu veículo. Todos conhecemos os endeusadores de automóveis, às vezes de coleção: estão polidos, expostos e protegidos… mas progridem pouco, valendo mais para serem vistos do que para caminhar. Há também carros que optaram por se preservar das agressões externas, quiseram ser defendidos e resguardados. Ficaram parados, não fazem caminho e mais parecem sucata…

Ambos os cenários analógicos, como se vê, apresentam forte potencial ecuménico e inter-religioso mas são, simultaneamente, as estradas da própria identidade cristã, cuja marca tem em si própria a porosidade radical de quem não tem fronteiras. Quem coloca o tónus no copo escolhe lutar pela sua posse, enquanto o vinho é diálogo. Quem se polariza no veículo foca-se em defender(-se), enquanto o caminho é rasgada oferta.

Na linguagem analógica acima podemos perceber bem os dois extremos típicos já aludidos: os que com alguma ingenuidade optam por aceder ao vinho sem copo ou que caminham sem veículo (concedendo-se que algum vinho beberão e alguns passos andarão); e os que, em reduto fundamentalista, que não é nem fundamental nem radical, endeusam os copos e esquecem o vinho, puxam o lustro ao veículo, mas mantem-no estático.

O cerne do equívoco prende-se com a clarificação do que é central e do que é periférico. Com alguma clareza, observo na lide religiosa quem toma como central as formas, as normas, as roupagens e as exterioridades. Essa (pesudo)segurança fecha, enrijece e, não raras vezes, é bafienta a até apodrece. Se, pelo contrário, o centro for a fé, a crença vivida num Deus que só ama e cria e a misericórdia com que, também por nós, se verte no mundo, resulta em abertura, respiro, leveza… vinho e caminho.

O contrário do indesejável moralismo não é a amoralidade. Os que trabalham para se centrar e recentrar atenta e comunitariamente no núcleo amoroso da fé não desprezam as roupas com que nos precisamos de vestir, mas estão conscientes da secundariedade das formas, dos ritos e dos normativos. Estes só servem se colorirem o fundamento primeiro do amor a Deus e ao próximo. Jesus de Nazaré parece ser, a este nível, inspirador…

Perguntei-me, por simetria, se haveria “empanturrados de Deus”. A minha conclusão é que Deus não deixa que d’Ele nos empanturremos. Há um lado na relação com a transcendência que é da ordem do “quanto mais melhor”. Mas esse salto místico, paradoxalmente, deixa-nos sempre não possuidores e, pelo contrário, expostos com entusiasmo à novidade e à alegria interior, com as suas consequências relacionais soltas e promotoras. Mais ainda, essa overdose com o Totalmente Outro, dentro de nós e em toda a parte, alimenta-se da não palavra, num silêncio que não ocupa espaço de sobrelotação. A nossa religiosidade, portanto, ou serve essa mística aberta vivida… ou empanturra…

JP in Sem categoria 26 Janeiro, 2021

Encíclica do Papa Francisco Fratelli Tutti: fraternidade para o mundo e para cada um de nós

J. C. Paiva, Fratelli tutti: fraternidade para o mundo e para cada um de nós Site PontoSJ (que se recomenda…). 04 de outubro de 2020.

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Fratelli tutti: fraternidade para o mundo e para cada um de nós

Não há aspiração humana (mais ainda cristã) que deixe de apontar para
a abertura ao outro, à fraternidade… e à fraternidade com
todos….Por isto, Fratelli Tutti é um documento que nos inspira mas,
sobretudo, nos envia!

1- Pontos de Abertura

Fratelli Tutti é uma encíclica que nos inspira a ver, julgar e agir no
horizonte da fraternidade universal. Parte de dentro da Igreja mas de
uma Igreja cada vez mais porosa, aberta a inspirações externas e capaz
de inspirar todas as periferias. Até o samba brasileiro está presente,
com a lírica de Vinicius de Moraes que nos apresenta a vida como a
arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida (215), qual
metáfora da morte e Ressurreição, lastro da fraternidade.

Acedi ao convite de fazer uma síntese e um eco em mim deste documento
do sumo pontífice, mas, desde logo, ciente da dificuldade em colher
sumo de tanto sumo… Costumo lembrar aos meus alunos, principalmente
quando me apresentam documentos extensos de mais, aquela máxima de
Pascal: “escrevo-te esta carta longa porque não tive tempo de a
escrever curta”. No vertente caso, desde o início da leitura,
apercebi-me que, mesmo com muito mais tempo, não conseguiria dizer com
poucas palavras as muitas ideias que já em mim ecoam. Logo do final da
primeira leitura resultou um excesso de sublinhados quase impossível
de conter nesta esforço de síntese… Por isto mesmo, e antes de mais,
recomendo a leitura total, paciente, consoladora e desafiante deste
documento oferecido a todos nós.

Esta obra traz, no geral, o embalo de toda a história da Igreja e, em
particular, resume e interliga as múltiplas reflexões, intervenções e
outros documentos do Papa Francisco. Faz a ponte entre a inspiração de
sempre, tomada em Cristo, no século primeiro, e uma leitura moderna e
lúcida deste tempo que vivemos no século XXI. A inspiração do título
(Fratelli Tutti) é de um Santo, precisamente, São Francisco, do século
XIII (o mesmo que inspirou a encíclica Laudato Si e de quem o Papa se
aproxima bastante, a começar no próprio nome que escolheu para o seu
pontificado). São curiosos os dinamismos em espiral que atravessam
todos os tempos: assim como São Francisco foi marcado pela sua visita
ao sultão Malik-al-Kamil, que o inspirou a recomendar que se evitem
todas as formas de agressão e contenda e a viver a humildade e a
fraternidade mesmo com quem não partilha a nossa Fé (3), o Papa
Francisco reconhece no seu encontro com o Grande Imã Ahmad
Al-Tayyebalgo determinante no rumo desta encíclica (285). Esta
impulsão no dinamismo ecuménico e inter-religioso, que tem na
fraternidade uma charneira comum, sublinha a não autorreferenciação
mas a Igreja “em saída”, que Francisco não se cansa de afirmar, dando
assim tónus à identidade cristã (282) marcada pela novidade, pelo
encontro, pela abertura, pela não defensividade e pela fraternidade
(277).

O documento está dividido em sete capítulos, que vão desde um olhar
acutilante sobre o nosso mundo e as suas sombras (I) à própria questão
das religiões face ao desafio da fraternidade (VII). No meio,
referências a questões cruciais do nosso tempo, como as migrações, a
organização social, a era da digitalização, o mundo da política, da
economia e da cultura. Um olhar atual, com os óculos da fraternidade.
Na organização temática, sublinharia algumas palavras ou expressões
que falam por si e nos dão conta do rumo seguido neste documento:
“mundo fechado”, caminho, abertura, amizade, encontro e serviço.

Em todas as secções (não poderíamos estranhar isso em Francisco…) há
referências constantes aos mais excluídos, preocupações particulares
com aqueles a quem o Papa tem chamado os “(cruelmente) descartados da
sociedade” (19): idosos, deficientes, estrangeiros, frágeis, mulheres
indefesas, indigentes, últimos, etc… Fratelli Tutti…

Uma nota final nesta introdução para destacar que apesar do estilo
expectável da encíclica, muito prática, quotidiana, positivamente
banal e sem rodeios, há substrato de grande valor teológico,
filosófico e cultural (81, 134, 206, 216). Esta observação é
importante para amparar críticas (quanto a mim injustas) que vão sendo
feitas a este papado, principalmente de dentro da Igreja, que apontam
certa falta de densidade conceptual na base do pensamento de
Francisco.

Uma nota final nesta introdução para destacar que apesar do estilo
expectável da encíclica, muito prática, quotidiana, positivamente
banal e sem rodeios, há substrato de grande valor teológico,
filosófico e cultural.

2- Pontos de inspiração

O que desenvolvo neste segundo ponto são os sublinhados pessoais mais
relevantes do documento. Não só assumo a subjetividade do processo, no
que diz respeito às escolhas feitas, como intuo que, em releituras
seguintes, me focaria em zonas diferentes.

a)    A cumplicidade entre esta encíclica e a Laudato Si é evidente:
Cuidar do mundo que nos rodeia e sustenta significa cuidar de nós
mesmos. Agora somos desafiados a constituirmo-nos como um «nós» que
habita a casa comum (17).

b)    Referências muito concretas a situações atuais como a pandemia
por Covi19 (32) ou a tensões relacionadas com as migrações e outros
problemas das sociedades onde vivemos. Estamos todos numa clara
emergência de interfragilidade, que não permite soluções
individualistas mas sim sistémicas e plenas de solidariedade. Os
caminhos terão também na fraternidade (e não noutros mecanismos) a
verdadeira solução: “a tentação de fazer uma cultura dos muros, de
erguer os muros, muros no coração, muros na terra, para impedir este
encontro com outras culturas, com outras pessoas. E quem levanta um
muro, quem constrói um muro, acabará escravo dentro dos muros que
construiu, sem horizontes. Porque lhe falta esta alteridade” (27).

c)    Ao citar com frequência outros papas, Santos de vários tempos e
documentos variados, o Papa coloca também visível o positivo valor da
tradição, expondo a Igreja na sua matriz de barca ajudante, capaz de
permanecer firme, proponente, lúcida e atuante nas tempestades das
gerações. Em particular, aqui e ali, compreende-se uma agenda ainda
importante e urgente de atualizar o Concílio Vaticano II, ele próprio
bastante apontador – para fora – de que somos, de facto, Fratelli
Tutti: “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos
homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem,
são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias
dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente
humana que não encontre eco no seu coração”. (56)

d)    Como não poderia deixar de ser, a raiz bíblica da fraternidade é
muito explorada neste documento. O centro nevrálgico do desafio
fraterno é muito bem colocado na pergunta de Deus a Caim em Génesis 4:
“onde está o teu irmão?” (57). Os pontos 62 a 72 da encíclica, por sua
vez, desenvolvem de forma inspirada e inspiradora a parábola do bom
samaritano como lema de fraternidade.

e)    A abertura aos outros como missão e como expressão de liberdade
não conhece exceção nos seus protagonistas. A família e o seu valor,
não escapam: “O vínculo de casal e de amizade está orientado para
abrir o coração em redor, para nos tornar capazes de sair de nós
mesmos até acolher a todos. Os grupos fechados e os casais
autorreferenciais, que se constituem como um «nós» contraposto ao
mundo inteiro, habitualmente são formas idealizadas de egoísmo e mera
autoproteção” (89).

f)     A aspiração a uma genuína liberdade passa pela fraternidade.
Falsas aparências de “liberdade individual”, muito veiculadas na
cultura contemporânea, geram uma separação nada humanizante entre a
pessoa e o contexto (111). O não cumprimento de indicações justas e
oportunas, sanitárias ou de organização social, podem ser disto um bom
exemplo.

g)     Há no documento inúmeras referências a problemáticas
sociolaborais, onde se sugere a fraternidade numa perspetiva mais
sustentável. Chama-se à atenção para um certo caráter provisório e
insuficiente do pão necessário, em confronto com a importância do
“trabalho para todos” (127).

h)     A política merece um particular destaque nas preocupações de
Francisco e neste confronto do mundo com a fraternidade. O capitulo V
(“A política melhor”, embora se pudesse chamar a “política menor”,
pelas múltiplas críticas a certa forma de fazer política…) é o mais
longo do documento. Há, de facto, uma via da política para e na
fraternidade, onde a inspiração cristã… pode ser inspiradora (165,
180, 194). Não pode estranhar-se uma insinuação fortemente crítica aos
populismos (156), ao neoliberalismo desregrado (168), à corrupção
(176). Apreciei o apontamento de valorização e redignificação de
organizações como a ONU (173) e as muitas menções justificadas à
nobreza da política (186, 197) que, na senda do Vaticano II, convocam
os cristãos para o empenhamento político.

i)      Merece uma referência minimamente patriótica (…) a invocação
do documento dos Bispos portugueses (178), citando, a bom propósito da
fraternidade, que a “a terra é um empréstimo que cada geração recebe e
deve transmitir à geração seguinte”.

j)      Está presente uma alusão crítica e equilibrada no que concerne
às comunicações digitais e aos seus contextos de utilização: “a
difusão altissonante de factos e reivindicações nos media, na
realidade o que faz muitas vezes é obstruir as possibilidades do
diálogo” (201). Com efeito, o conhecido e experimentado ruído dos
média e da redes sociais, que se nos oferece e tanta vezes nos esmaga,
pode impedir a genuína e desejável fraternidade. É verdade que, bem
usados, os meios digitais podem ajudar (205) mas, como em quase tudo,
é preciso discernimento, disciplina e boa ação para que estes recursos
contribuam para a fraternidade universal.

k)     É de destacar o apontamento de que os encontros que se desejam
para construir a fraternidade não significam voltar ao período
anterior dos conflitos (226). Os processos de reconciliação demandam
grande criatividade e procura de “terceiras vias”, que quebrem as
dicotomias e oposições primárias e sem saída (233). Ajudam e são
crucias, com toda a certeza, as inspirações cristãs do perdão, ainda
que sem ingenuidades nem facilitismos, que escamoteiem que “perdoar
não significa que continuem a espezinhar a dignidade…” (241).

l)      Convém tomar nota das posições emergentes que esclarecem a
posição atual da Igreja sobre a guerra e a pena de morte. A “guerra
justa” parece não ter lugar (258) e a pena de morte (263), ou mesmo a
prisão perpétua, “pena de morte escondida” (268), são consideradas
inadmissíveis na plataforma de uma visão cristã de fraternidade.

m)    Como seria previsível, são focados e desmantelados os laivos de
radicalismo religioso (284), apontando-se, pelo contrário, o potencial
de fraternidade alcançável nas e pelas religiões, cada uma com sua
contribuição (283).

3- Pontos de interrogação

Um documento como este tem sempre, além do conteúdo explícito,
aberturas que se podem constituir como janelas de inspiração mais
lata. Por outro lado, aqui e ali, permito-me chamar à atenção, não
tanto de fragilidades ou dissonâncias críticas em relação às palavras
do Papa, mas de possibilidades de certa distorcida interpretação ou
enviesada (não) contextualização que outros possam fazer.

i)      E a Igreja não é também, muitas vezes, palco de obstáculos à
fraternidade?

Ao criticar os estados e certos aspetos da cultura atual, não podemos
deixar de olhar para nós mesmos, enquanto Igreja, e reconhecer que,
não raras vezes, somos também impedimento fraterno. Podemos todos
concordar que “uma maneira eficaz de dissolver a consciência
histórica, o pensamento crítico, o empenho pela justiça e os percursos
de integração é esvaziar de sentido ou manipular as «grandes»
palavras. Que significado têm hoje palavras como democracia,
liberdade, justiça, unidade? Foram manipuladas e desfiguradas para
serem utilizadas como instrumento de domínio, como títulos vazios de
conteúdo que podem servir para justificar qualquer ação” (14). Pois
bem, teremos de estar conscientes, como cristãos, dos aspetos subtis
como também nós gastamos as palavras e lhes esvaziamos o sentido, com
esmagamentos mais ou menos moralistas e estéreis. Caridade, serviço,
sacramento, liberdade, são gritos de Cristo que, ao longo da história
e ainda hoje, nalguns recantos sombrios da Igreja que somos, são (não)
mostrados como opulência, poder, exterioridade clerical ou
aprisionamento. Sublinho esta tensão autocrítica mas esclareço que o
Papa Francisco não deixa de dar os seus recados críticos internos,
como faz, por exemplo, a propósito de certos lugares digitais de
movimentos da Igreja Católica Romana que são plenos de agressividade e
estimulam a polarização discursiva, em claro desalavancamento da
fraternidade (46).

ii)     O acolhimento aos refugiados pode tanger práticas ingénuas e
não sustentáveis?

O texto desta encíclica, em clara concordância com a agenda de
Francisco, dá uma atenção específica e desenvolvida à questão dos
refugiados. Não podia deixar de ser assim. No acolhimento e na
hospitalidade ao estrangeiro está o cerne da fraternidade. Além disso,
somos todos migrantes ou ex-migrantes, peregrinos a e em caminho,
sempre em processo, via Fratelli Tutti. Ao encorajar com um sentido
muito prático todos os Estados a humanizar as estruturas e as
dinâmicas de acolhimento de refugiados, o Papa está, tão só, a ser
Cristão. Há que reconhecer, contudo, que convém impregnar as
integrações migrantes de realismo sustentável. Um voluntarismo de
coração muito afetado pela sensibilidade e, pouco amparado pela
racionalidade e pela operacionalidade, pode estar a remendar para
pior, pode alimentar redes de tráfico humano, pode ser insustentável e
pode até, ironicamente, alimentar populismos. Francisco está atento a
este fenómeno e convoca até para a solidariedade um termo curioso, a
“solidez” (115), que pode inspirar o acolhimento de refugiados com uma
estruturação mais robusta.

iii)    Um mundo assim tão dividido tem lugar para a esperança?

Não poderíamos esperar de Francisco um discurso morno, poupado nas
palavras que descrevem o mundo onde estamos inseridos, pleno de
idiossincrasias e incoerências. O próprio título do capitulo I, “as
sombras de um mundo fechado”, fala por si. Neste aspeto, porém, tenho
um certo receio de palavras do Papa tiradas do contexto sistémico, que
nunca esquece a esperança, serem mal usadas. A “terceira guerra
mundial aos pedaços” (25) é um termo forte, que tem sentido na sua
alusão crítica metafórica mas cuja interpretação literal
descontextualizada permitiria algum instinto incendiário. Há que somar
essas palavras duras às mensagens de esperança radical subjacentes a
todo o documento: “Apesar destas sombras densas que não se devem
ignorar, nas próximas páginas desejo dar voz a tantos percursos de
esperança“(54). Por outro lado – e este é um tónus muito pessoal onde
até posso admitir algum déficit denunciador da minha parte –
pergunto-me sempre se temos consciência de que os males de hoje são
também traços da história e não está dito nem provado que as coisas
vão de mal a pior… A este propósito, no ponto 154, que diz “Mas hoje,
infelizmente, muitas vezes a política assume formas que dificultam o
caminho para um mundo diferente”, eu suprimiria a palavra ‘hoje’
(porque sempre assim foi e porventura será).

iv)    Poderá haver caminhos mais disruptivos para a fraternidade?

Um documento desta natureza é muito mais apontador do que prescritivo.
Ainda bem que assim é. Mas é verdade que, nas entrelinhas, há convites
para esquemas mais originais, que permitam sair de certos vícios de
olhar e de ação, impeditivos da fraternidade. O Papa desafia os
políticos a resolver o problema dos mais desfavorecidos e chama à
atenção que pode parecer uma utopia ingénua (190) mas que é o processo
pelo qual se constrói a fraternidade. Não duvido da inspiração dessa
utopia e entendo que a criatividade utópico-realista, por vezes
disruptiva, pode e deve ser convocada. Em termos de modelo
político-económico-social, para dar um exemplo, entendo que podemos
com seriedade procurar novas vias como o Rendimento Básico
Incondicional (RBI), com base na doutrina social da Igreja e, quanto a
mim, que sou entusiasta desta possibilidade, conducente à fraternidade
universal.

4 – Pontos de envio

Não há aspiração humana (mais ainda cristã) que deixe de apontar para
a abertura ao outro, à fraternidade… e à fraternidade com todos….Por
isto Fratelli Tutti é um documento que nos inspira mas, sobretudo, nos
envia!

O Papa Francisco volta neste documento a apontar o grande valor da
diversidade, nas relações humanas, na cultura, nas sociedades e nas
religiões. Contra todos os uniformismos (100), Francisco lembra-nos
que a fraternidade se tece precisamente no encontro feito de riquezas,
diferenças e novidades. Para o mundo e para a Igreja, Francisco usa
com frequência, mais uma vez, a imagem do “poliedro de muitas faces”
(144).

Esta leitura induziu-me uma questão: o que nos falta? O que me falta?
Respondi a mim mesmo: talvez render-me à fraternidade… e fraternidade
a todos, sem exceção. Talvez ceder… Talvez ‘seder’ (invento a palavra,
com um ‘s’, para me referir à procura da sede que, sendo sede do
outro, é sede de Deus). O que nos falta é a fraternidade que nos torna
humanos porque irmãos. E porque a fraternidade é para todos e porque
ser cristão é ser inteiramente humano, o que nos falta é ser
cristãos-humanos.

Termino como comecei: Fratelli Tutti é uma encíclica que recomendo ler
e saborear. Envia-nos a experimentar e a viver a fraternidade, que nos
toca e que toca o mundo!

O Papa conclui esta encíclica com uma referência a um desejo formulado
a um amigo, por Charles de Foucauld. Solicitava então: “que Deus nos
inspire a que sejamos realmente irmãos de todos” (287). Fratelli
Tutti, portanto. Talvez isto baste.

Desejo para mim e para todos que as nossas preces, feitas vida, se
embalem na proposta orante do final deste documento, para que se
“mostre a beleza refletida em todos os povos da terra, para
descobrirmos que todos são importantes, que todos são necessários, que
são rostos diferentes da mesma humanidade amada por Deus. Amen”.

JP in Sem categoria 6 Outubro, 2020

moral sexual e consciência

Era interessante robustecer os cristãos com ferramentas que permitissem um discernimento sério e profundo para um verdadeiro desenvolvimento da sua consciência pessoal, mais do que ditar prescrições rígidas mais ou menos infantilizantes. Estas cartilhas, em muitos casos, não ajudam mas antes bloqueiam o acesso das pessoas à melhor felicidade, reduto último da religião. Os assuntos de sexualidade, incluindo o uso do preservativo, são muitas vezes discutidos numa ridícula estrada de «sim ou não», que não corresponde a uma colocação séria do problema. A questão da consciência pessoal (e/ou diante de Deus, para os crentes) parece ser o elo mais crucial mas o menos abordado em muitos discernimentos, nomeadamente os que se prendem com as questões da sexualidade. Para formar esta consciência, porém, a religião terá de trabalhar mais e melhor a sua catequese. A «gestão» da nossa sexualidade é assunto tão fascinante quanto complexo e muitos cristãos estão suspensos ou mesmo «entalados» entre propostas moralistas, cujo verdadeiro significado não entendem, e uma proposta facilitista, que se joga na contemporaniedade e que entra pela televisão e por outros média. Ao ser menos prescritiva em algumas questões de moral e tentar formar a consciência global e profunda dos crentes, a Igreja poderia arriscar outro caminho, igualmente exigente mas ‘de dentro para fora’, escolhido e assumido por cada um. Esta postura baseia-se numa antropologia mais «confiante» no homem. Por vezes, parece haver medo da «desregração», mas, assim como nas famílias educar não é controlar, a moral católica poderia ser menos retalhada e mais baseada em princípios gerais de fraternidade, respeito por si próprio, pelos outros e pela vida. Seria o desfecho de consciência pessoal, sempre confrontável com acompanhamento espiritual, que determinaria a liberdade no amor de cada homem e mulher. Intui-se até que, se fosse bem construída esta formação, capaz de ler e integrar o património de cultura, fé, psicologia e sociologia que forma a consciência, as escolhas dos cristãos seriam mais interiorizadas. Não se trata de “baixar a fasquia”, mas de a propor num caminho ancorado internamente, em vez de o impor moralisticamente…

JP in Educação Espiritualidade 6 Agosto, 2020

interpretação da Bíblia e Igreja

O Concílio de Trento, iniciado em 1545, reafirmou a autoridade da Igreja Católica na interpretação da Bíblia, mas o texto do decreto conciliar é bastante genérico e até mesmo ambíguo. Os padres conciliares decretaram que ninguém se deveria permitir «interpretar a Sagrada Escritura, nas matérias de fé e de moral, que pertencem ao edifício da doutrina cristã, distorcendo a Sagrada Escritura segundo o seu modo de pensar, contrário ao sentido que a santa mãe Igreja determina». O texto conciliar não especificou, porém, critérios suficientemente precisos para a definição, por exemplo, de uma questão como sendo de fé ou de moral, nem entrou em pormenores sobre o difícil problema de decidir quando se deveria interpretar a Escritura em sentido literal ou em sentido metafórico.

Desde a tradição medieval que é comum distinguir quatro sentidos possíveis no texto bíblico, a saber: 1) histórico ou literal, 2) alegórico ou cristológico, 3) tropológico ou moral e antropológico, e, finalmente, 4) anagógico ou escatológico.

A tradição hermenêutica é, pois, bem longínqua na história da Igreja. Conhecem-se dois extremos caricaturais, em traços deixados ao longo do tempo e ainda hoje presentes: de um lado, uma visão restritiva e estaticamente ortodoxa da autoridade da Igreja na interpretação bíblica e, do outro lado, uma personificação originalista, que não tem em conta a riqueza da tradição, nem a procura duma expressão comunitária de afirmar dinamicamente as verdades da fé. Caminhamos, ainda hoje, nesta tensão…

JP in Espiritualidade Frases 10 Julho, 2020

A Igreja dos pobres que (ainda não) sou

J. C. Paiva, A Igreja dos pobres que (ainda não) sou

Site PontoSJ (que se recomenda…). 27 de maio de 2020.

Disponível na íntegra abaixo:

A Igreja dos pobres sempre me fascinou. O início da Igreja é feito de pouca coisa, qual pobreza. Nas suas inquietudes e escapatórias, sem querer ser historicamente minimalista, são sobretudo os desvios dessa pobreza que descaraterizam a seiva da Igreja. Também nos nossos tempos, os legítimos olhares mais duvidosos sobre a Igreja fitam as suas riquezas. E eu próprio, quando me olho mais criticamente, como cristão, vejo falta de pobreza.

1- O que será a pobreza?

A palavra ‘pobreza’ está quase gasta, entrecruzada erraticamente nas suas dimensões pessoal, espiritual, cultural, social e política. Há várias pobrezas, dentro e fora de nós. A falta das necessidades mais básicas, como aquela de comer, é um rosto de pobreza que não podemos escamotear. Neste mundo, agora mais pequeno e ligado, continua a ser aviltante haver um qualquer habitante do planeta que não tenha o que comer. Enquanto isso acontecer, nenhum de nós pode estar descansado. Comer é necessário mas não suficiente para se ser livre. No seu poema cantado “liberdade”, Sérgio Godinho diz bem: “Só há liberdade a sério quando houver: a paz, o pão, habitação, saúde, educação”. Neste sentido, a promoção concreta das condições de vida de todas as pessoas, nestas diferentes áreas, são o nosso combate à pobreza. Há uma dimensão de pobreza mais profunda, que ultrapassa o pão mas que só é conquistável por quem tenha um mínimo de pão: chamamos-lhe pobreza espiritual. É uma bem-aventurança de abertura em crer para nada querer. Percebe-se bem naquele conto oriental segundo o qual um mendigo pediu a uma pessoa de posses que lhe desse algo. Essa pessoa deu-lhe tudo o que tinha. No dia seguinte, o pobre voltou e retorquiu: “ensina-me a ser como tu. Dá-me a riqueza de que eu preciso, que é a capacidade de dar tudo o que tenho, como fizeste ontem comigo”. Compreendemos bem que haja gente (e as duas gentes dentro de cada um de nós…) que seja rica-pobre e pobre-rica…

2- A pobreza nos evangelhos

Há extensa bibliografia sobre este assunto mas talvez se consiga uma síntese consensual sobre a forma acolhedora, provocante e libertadora como Jesus se dirigia às pessoas. Todas elas carentes, frágeis, desejosas de algo mais. Todas elas, pobres, como nós. Os pobres do Evangelho são, pois, a mulher adúltera, o amigo traidor, o cobrador de impostos, o cego e a sua família, os convivas das bodas de Caná, o coxo e o paralítico, a mulher viúva e a samaritana com sede, a multidão com fome. O desfecho com os famintos pode inspirar-nos na resposta à pobreza, como Igreja: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc 6, 37).

3- Uma pobreza que esmaga

Face à pobreza e à injustiça, ao que falta de amor no mundo, sinto-me tremendamente esmagado. Esta pressão tem dois sentidos, que apertam ambos o meu coração: a compaixão evidente por aquele que sofre e a minha própria dor pelo pouco que dou. Para estas entaladelas, ajudará a paciência, a perseverança da fé e a consequente ação. Não há outra resposta à chaga que não seja tocar-lhe. A insuficiência da minha doação aos pobres tem, aliás, algo parecido com a epistemologia da ciência e não só: quanto mais descobrimos, mais ignorantes nos encontramos, como se tentássemos alcançar uma linha do horizonte, que sempre se desloca adiante… Com a caridade, palavra desgastada mas que vale como sinónimo de amor, e particularmente amor aos mais pobres, acontece algo de parecido: quanto mais se dá mais se constata o que falta dar… Há pois um equilíbrio dinâmico a empreender, importante mas difícil, entre: a) assumir o que falta como luta face à pobreza, realizando concretamente a partilha (de bens, de tempo, de presença, de nós mesmos…); b) constatar a nossa insuficiência senão mesmo certa mediocridade neste combate; c) resistir sempre a ficar no sofá, excessivamente adaptado à complexidade do problema e às limitações próprias da ação. Há um certo conforto, também ele evangélico, que podemos valorizar a partir do pouco que fazemos; faz-se muito do pequeno: do grão de mostarda, da migalha, da moeda modesta, do cesto do pão…

4- Não perder de vista que a austeridade escolhida é uma burguesia

Aprecio e tento praticar a chamada economia da frugalidade, que nos aponta Serge Latouche. Mas há que registar que nós, deste lado do mundo, com comidinha à mesa e banho quente, podemos melhor fazer este caminho. Não posso pedir a um menino que vive de colheita de plástico em lixeiras da Indonésia que seja frugal, nem a um habitante de uma favela brasileira que não deseje fortemente ter um carro bom. Posso ser mais pessoal nisto: fui conquistando certa austeridade escolhida, mas tenho um salário garantido. Abrandei radicalmente o turismo longínquo, também a pensar no ambiente… mas já conheci muitas cidades em quase todas as latitudes; não tenho no meu horizonte trocar de veículo de transporte, mas já me fartei de andar em dunas com uma mota de boa cilindrada Honda Transalp; evito ir a restaurantes… mas já fui muitas vezes comer fora, etc, etc. Por isto mesmo, não me escandalizo com as pessoas que, tendo rendimento mínimo garantido, tomam o pequeno almoço fora… Claro, para elas é excepcionalmente bom, o que para nós seria criticamente ordinário… A sua pobreza pode não ser nem só nem principalmente de pão… mas é pobreza e pede a nossa entrega e a nossa criatividade. Compreendem-se bem os padres da teologia da libertação que, apesar dos conhecidos exageros de tal movimento, tinham muita razão cristã quando invocavam uma máxima a ter em conta: ao oferecer o pão da eucaristia, tenho que oferecer também pão a quem não o tem para comer.

5- Creio na Igreja, vou à Igreja, estou na Igreja ou sou a Igreja?

Quando rezo o credo, na esperança de não estar em heresia (…), faço uma auto-atualização que me confere mais sentido. Digo que creio em Deus, em Jesus, no Espírito Santo e que… creio em Igreja. Uso deliberadamente este ‘em’ (em vez de ‘na’), para sublinhar que a Igreja é o lugar onde me situo para viver as crenças vitais na trindade. Esta pertença assim dita não me desmobiliza e penso poder até evitar a idolatria institucional acrítica ou o “picar o ponto” num dinamismo desresponsabilizante. Pelo contrário, diria, pelo menos em desejo, quero trazer à minha relação com a Igreja certa ontologia e, por isso, ser Igreja, encoraja-me neste dom de ser um ordinário batizado. E se a Igreja é o lugar onde creio, se vivo em Igreja, esta é a Igreja de todos os que nela caminham e, por isso, é a Igreja dos pobres, que vivem em comunidade e celebram a alegria de se quererem partilhar, partir, comungar, ser pão para os outros… A Igreja será também o lugar onde a caridade aos mais pobres se exerce coletiva e comunitariamente. Se a salvação espiritual não é um caminho solitário, é o povo de Deus que reza “Pai nosso” e não “Pai meu” que dá pleno sentido à Igreja e, portanto, ser Igreja é co-laborar em conjunto no alívio dos mais necessitados. Somos ainda, tipicamente, “fraquinhos” cristãos de hospital de campanha, comparados com a mobilização celebrativa e outros apelos e manifestações…

A constatação de que eu próprio sou um medíocre e tensional praticante da caridade, leva-me ao desejo de uma relação mais humilde (mais verdadeira) e mais obediente (capaz de escutar outras sensibilidades) com esta Igreja que sou. Com efeito, querendo manter a lucidez crítica, não posso deixar de ser moderado e misericordioso no olhar que estendo aquilo que falta à Igreja (…que sou, repito). A este nível da encarnação da pobreza a que somos chamados, somos também todos… pobres. Desejo evitar certo tom de protesto obsessivo pelo caminho que falta e dar eu próprio os passos possíveis, denunciar construtivamente, dar sugestões alavancadoras, fazer provocações que mobilizem…

6- Opção preferencial pelos pobres: uma escatologia

Não haverá outro devir mais livre e pleno, para cada um de nós, do que aquele de ser pobre e de preferir os pobres. No seu sentido mais amplo, ser pobre é ser de mãos vazias. Ser pobre é ser livre e livre para a doação. Há que equilibrar a aspiração à pobreza espiritual mais profunda (que só se consegue, me parece, com recolhimento e oração) com a atenção concreta e quotidiana aos francamente mais próximos.

Há pobres mais distantes, face aos quais algo podemos fazer mas cuja pobreza envolve complexidades enormes. Muitas vezes matam à fome as malhas políticas, militares, tribais, diplomáticas, etc. Por isto, estudar e depois exercer eticamente artes como o direito, a ciência, a economia, a medicina, a arte, as humanidades, a educação, a prática política, etc., podem e devem ser feitas com vista a minimizar a pobreza dos homens.

Estar sempre do lado dos pobres é o sítio da Igreja e, por isso, de cada um de nós. A opção preferencial pelos pobres tem de ser concreta. Tanto pode ser ir para um país distante em missão como comprar preferencialmente marcas de produtos com selos de garantia de não exploração, mesmo que mais caros. Pode ser preferir desenvolver um projeto de investigação científica que otimiza medicamentos anti-maláricos em vez de apostar na ciência que crie novos produtos tecnológicos que só sirvam para alimentar superficialidades do ocidente.

Vale a pena ser Igreja para ser pobre porque só o pobre pode partilhar. A sensibilidade à pobreza e a solidariedade são mandatos humanistas e universais. As metodologias são diferentes e o nosso distintivo, apesar de alguma luta, é o primado da aceitação da vida como um dom. Estar em missão para alimentar a prontidão de acolher a riqueza do tempo, do espaço e do outro é um privilégio. É o que nos espera, esta disposição para coisa nenhuma e, assim, para tudo. A pobreza é para erradicar. Tocaremos amanhã esta plenitude que, agora, aperitivamos: já… mas ainda não!

JP in Textos 28 Maio, 2020

A saudade da missa é estruturalmente insuficiente

J. C. Paiva, A saudade da missa é estruturalmente insuficiente. Site PontoSJ (que se recomenda…). 10 de maio de 2020.

Disponível na íntegra aqui

Uma declaração de interesses prévia que, mais do que me colocar em ângulo menos suspeito, previna eventuais retiradas de frases ou ideias fora de contexto, que pervertam a mensagem que gostava de passar: como cristão, faz-me falta celebrar a eucaristia em comunidade; reconheço na celebração da missa uma oportunidade notável de congregação de fé; não entendo, nesta linha, que esta “quarentena missal” deva implicar qualquer desvalorização da eucaristia (pelo contrário…). Porém, algumas perguntas se me colocam…

1- Desejar e agradecer o regresso à missa com que horizontes?

Posso estar a exagerar mas, nem sei bem porquê, imaginei uma festa de alguns em agradecimento a Deus pelo regresso da missa, como os antigos dançavam, aplacando a ira dos deuses tiranos e mandatórios, em festa pela vinda da chuva… Em todo este processo de confinamento, como de resto já era na nossa vida, há desafios notáveis para resignificar constantemente as nossas imagens de Deus. Não sei se levamos a sério o risco de Deus em nós, na nossa liberdade e no pulsar do mundo, o Seu mistério amoroso de omnitransformação, que recusa caprichosamente marionetar o tempo e o espaço. Até admito a mim próprio agradecer a Deus o regresso da missa, quando chegar o tempo oportuno, em segurança sanitária e na mais elementar alteridade humana… e por isso também cristã. Mas, no meu caso, sinto um apelo a agradecer-Lhe este tempo que estou a viver, de desafio para um crescimento, pessoal e comunitário, numa Igreja em caminho. O que teve, tem e terá a dizer-nos esta experiência de não poder celebrar a partilha de um pão tão especial?

2- A ausência da missa é crucifixão?

Temo certa visão e vivência destas privações sacramentais como cruzes flagelantes a suportar. Não serão antes oportunidades de re-velar um sempre novo Cristo que espreita? De rever a nossa posição mais ou menos rotineira face às potencialidades dos sacramentos, que importa serem sempre novos? O Evangelho é Boa Nova e este Espírito novo que sopra não meteu férias com medo do vírus. Está aí, a soprar e a inspirar, a provocar e a co-mover. Voltar ao que era é sempre curto, recuar apenas não é o estilo de Jesus. Não será a privação sacramental, mais do que uma crucifixão, uma Páscoa que se adivinha para um novo renascimento? Não será claro o convite, mais do que a saudade pela saudade, a saber estar numa Igreja vazia (como o Papa bem mostrou)?

3- Haverá espaço para a diversidade celebrativa e para a Igreja doméstica?

O que nos tem trazido este tempo, enquanto crentes Católicos Romanos, é um desafio concentrado de provocação nascida há seis décadas de dentro da nossa Igreja, fruto de um fecundo discernimento eclesial de síntese de toda a tradição: sermos Povo de Deus em caminho. Os convites a certa desclericalização estão aí para quem os quiser ver e viver. Nasceram em cada casa, como cogumelos, verdadeiras igrejas domésticas, capazes de viver e celebrar Cristo no seu seio. Reinventaram-se rituais plenos de significado e de sentidos entre os mais próximos de cada habitação. A Alegria do Evangelho pode verter-se no cuidado da Casa Comum, em cada lar, precisamente através do tesouro que é a Família (e varro uma tríada de importantes escritos de Francisco…). Temos ainda algum caminho para andar mas estão a ser muitas as sementes colocadas na terra para gerarem, finalmente, batizados que, por o serem, são sacerdotes por Cristo, com Cristo e em Cristo…

4- Será de rever os ‘mandamentos da Igreja’?

A expressão ‘mandamentos da Igreja’ nunca foi da minha simpatia. Entendo melhor os mandamentos de Deus mas, mesmo esses, potenciados pela mediação eclesial, são tateamentos comunitários e pessoais muito complexos. Sempre preferi propostas a imposições. E é aqui que pode colocar-se em cima da mesa uma nova pedagogia eclesial: mais centrada na proposta a batizados responsáveis do que na deliberação dirigista. A exigência cristã é evidente mas ela há-de ser subida (ou descida?…) sempre e apenas se, for andaimada pela consciência pessoal exigente e interiorizada. Nos rituais como na moral, a fasquia não pode rastejar, mas pode se proposta em vez de imposta, porque assim fazia Cristo. Poderão dizer-me que sem regras e normativos entra a balda e a excessiva personalização. Não nego esse risco mas prefiro corrê-lo em detrimento do seguidismo cego e forçado. Queremos, será que queremos, que alguém vá à missa porque tem que ir? Não merece aquele altar da radical partilha do pão gente mais automotivada?

Há uma tensão evidente entre a riqueza da interioridade e a banalização da exterioridade, onde se podem inserir certos rituais, também religiosos. Este tempo de privação sacramental é uma clara purga de exterioridades, um convite à interioridade com Cristo, na nossa profundidade pessoal e coletiva, brotando da nossa sede e da interfragildade, que já existia, mas que o covid19 enalteceu. Todos sabemos do perigo da exterioridade das cerimónias e, portanto, da sua possível esterilidade. Ir à missa e ficar na mesma, sem crescimento interior, é o que não queremos nem cremos, como crentes em caminho.

5- Só uma Igreja que caminha com os mais pobres nos pode galvanizar

Só a Igreja dos pobres nos pode interessar. O Papa Francisco, a começar pelo nome que se deu, anda a semear. Tudo o que esta pandemia enalteceu foi o grito dos mais frágeis, que convocou universalmente todos os homens de boa vontade no planeta inteiro. Se somos todos frágeis, se somos todos buscadores, se somos todos pobres, pois a Igreja é dos pobres. Enquanto houver gente a sofrer, sem pão e sem amor, será tal a nossa inquietação aguda, a nossa mobilização central. A missa, é para nos fazer sair da missa em missão com os mais pobres, onde nos incluímos. Esta pandemia trouxe para a ribalta a atenção aos últimos, aos mais velhos, aos dos países mais vulneráveis, aos que clamam. O pão que se parte e reparte na missa é a fragmentação que nos parte o coração mas que, ao mesmo tempo, nos fascina pela agudeza da dádiva radical. É a celebração que nos impele a acudir aos mais necessitados. Essa, é, sem dúvida, a saudade do futuro que nos falta!

JP in Espiritualidade Textos 12 Maio, 2020

igrejas e sacramentos em tempos de pandemia

Não me sai da cabeça esse cartoon engraçado que circula, com qualquer coisa deste tipo: um globo em covid19 que tem um diabinho a dizer “fechei-te as igrejas todas” e um “Deus” que responde “eu abri uma igreja em cada casa”. Dará que pensar sobre a revalorização da Igreja doméstica; certo retorno às primeiras comunidades; recuperação de uma dimensão mais interiorizada da vida espiritual. Criticaremos uma civilização que queira apenas e nostalgicamente voltar a ‘uma vida normal’ (o que será isso?). Mas teremos de refletir, também, sobre a Igreja (povo de Deus em caminho, atento aos sinais dos tempos…). Compreende-se a saudade sacramental mas, assim como será curto o mundo voltar ao que era, a Igreja será pouco evangélica (portadora de novidade) se se limitar a voltar a ser o que era…

JP in Espiritualidade 16 Abril, 2020

salvação fora da Igreja

Em 1953 há um gesto simbólico da Igreja muito curioso: o Padre Leonard Feeney é excomungado da Igreja (excluído) por recusar a ideia muito própria do Concílio Vaticano II, segundo a qual “há salvação fora da Igreja”. As consequências são simples e podem reproduzir-se assim: “não há lugar na Igreja Católica Romana para quem entenda que não há salvação fora da Igreja”…

JP in Espiritualidade Frases 16 Dezembro, 2019

Igreja e lei da inércia…

A evolução da religião é compreensivelmente lenta. Observe-se o caso da Igreja Católica: com cerca de dois mil anos de história, milhões de fiéis e, actualmente, cerca de meio milhão de padres e religiosos, tem uma inércia própria. A inércia, na sua raiz científica, relaciona-se com uma tendência que todos os corpos possuem para manter o seu estado (de movimento ou repouso). Quanto maior massa, maior inércia… Por outro lado, estes anos de história e tradição e este volume de pessoas e de conhecimentos, congregam uma sabedoria e um património que dão consistência e corpo à cultura humana, podendo ajudar a humanidade a ter Deus como referência fundamental.

JP in Espiritualidade Frases 10 Dezembro, 2019