o mito da Igreja e da Idade Média como os ‘maus da fita’ da ciência…

Mesmo se o nascimento do método científico se consubstanciou com Francis Bacon, já no século XVII, até lá alguns progressos de natureza científica e tecnológica realizaram-se a par da filosofia e da religião.

Naquele tempo, as ideias de Aristóteles eram o cenário de todo o conhecimento e um certo fundamentalismo do seu pensamento terá impedido o progresso. Mas grande parte do conhecimento na Idade Média deu-se, de alguma forma, no seio de um ambiente religioso. Sobretudo na Astronomia e na Matemática, mas também na Medicina e noutras áreas, o progresso era associado a instituições religiosas, sendo protagonizado essencialmente por monges. Este facto, aliás, terá marcado a cultura ocidental, em comparação com a China ou o mundo árabe, por exemplo. Foi crucial todo o trabalho desenvolvido no seio da Igreja Católica na Idade Média para se darem os maiores passos na ciência. Foi a Europa Ocidental e a sua cultura que constituíram o palco dos grandes eventos científicos. É o caso da Física, por exemplo: Galileu na Itália, Newton em Inglaterra e Einstein (Alemanha e Estados Unidos). Foi a Idade Média (e no seu seio uma forte presença católica), o terreno histórico que, a montante, suportou estes três gigantes…

JP in Frases 10 Maio, 2022

muitas moradas…

“A casa do Pai tem muitas moradas” (Jo 14, 2) é uma cama bíblica que nos poderia descansar ainda mais. Rasga a unidade na diversidade e o valor sagrado e ímpar de cada um, na sacralidade do seu ser. Elcesialmente, abre portas a uma já tradicional mas sempre incompleta pluralidade teológica, assim como ampara a diversidade carismática e a congregação de um sem número de estilos…

JP in Espiritualidade Frases 12 Abril, 2022

«peço sempre com alegria por todos vós» 

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Filipe 1, 4-6.8-11 
«peço sempre com alegria por todos vós»

Paulo, apóstolo enérgico, vital, empreendedor e mobilizador (nem por isso imaculado e, portanto, sujeitável a um olhar histórico-crítico…), empresta-nos nesta carta à comunidade dos filipenses um verdadeiro sentido do “nós”. Viver, estar e ser em Igreja, tem um potencial de autodescentramento, de nos polarizar num crescimento comum. Rezamos “Pai nosso…” e não “Pai meu…” e, isso mesmo, é símbolo de um convite mais coerente e amplo para uma vida espiritual comunitária. Rezarmos uns pelos outros é diferente de ‘pedinchar’. Na linha de Paulo, será pedir e contribuir para o dom da alegria de cada um, em todas as  circunstâncias. Rezar pelos outros é pedir desde logo a abertura para que as minhas mãos os beneficiem e sejam mãos capazes de aliviar jugos e promover esperanças em cada um.

JP in Espiritualidade Textos 4 Dezembro, 2021

AGUENTAR: um verbo tramado em Igreja…

Paiva, J. C. (2021). AGUENTAR: um verbo tramado em Igreja… Site Ponto SJ, 24-09-2021.

Disponível aqui

Tenho simpatia pelo verbo aguentar. A vida, a nossa vida e a vida de cada um de nós, é feita, não só mas também, de muitos “aguentamentos”. Aguentar é permanecer, é ficar quando o vento sopra. É tolerar a tempestade e, por ligação à rocha, manter-se em pé. Jesus de Nazaré, aguentou, e aguentou até à cruz.

MAS (trata-se de um grande mas…) estamos sujeitos a abusar deste verbo. Quando olho a Igreja que somos, neste tempo e neste espaço, pergunto-me se não estamos excessivamente focados (ou tapados?) no verbo aguentar. Este aguentar (para não perder, para não mexer, para deixar estar… a ver se aguenta…), pode implicar derrocadas, entre hoje e, sobretudo, amanhã. Perdas não só de abrigo, como de fundação. Existe uma expressão popular que aqui e ali assenta como uma luva nas atitudes que tendemos a ter face a certos desafios eclesiais: “atirar com a barriga para a frente”, esse deixar correr que adia a decisão corajosa.

A Igreja encontra-se numa encruzilhada muito original, que a crise pandémica agudizou ou exibiu em maior extensão e profundidade. Há neblina sobre o próprio devir eclesial. Apesar dos esforços evidentes e fecundos do Papa Francisco, colocando em andamento as inspirações do concilio Vaticano II, há resistências, principalmente internas, que minam a ação. Mesmo as pessoas que entendem estarmos num tempo novo e face a novos desafios, carregam a pressão dessa reatividade resistente, e impera o receio de arriscar e a falta de coragem, preferindo-se…aguentar. Há dois vírus que a Igreja carrega ao longo do tempo, que serviram para aguentar, mas que, tão feliz quando dramaticamente, se estão a tornar insuportáveis: o medo e o controlo.

Alinho abaixo alguns (apenas alguns) aspetos da nossa Igreja que, em muitos cenários e horizontes, me parecem estar a ser encarados com demasiado ‘aguentamento’. O elenco poderia ser mais vasto e é aqui apresentado telegraficamente, sendo que seria merecido, em momento ulterior, aprofundar cada um dos itens:

1.Uma catequese com modelos pedagógicos falidos
Os modelos catequéticos “curriculares”, mimetizando a escolaridade, com a tríade batismo/primeira(ou última?) comunhão/crisma terão mesmo de ser questionados. A aproximação mecânica das famílias a este modelo tem gerado infecundidades gritantes. Fazer o mesmo porque sempre se fez assim é radicalmente insuficiente.

2. Uma “concorrência” feroz para proporcionar encontros com odor de Evangelho, principalmente aos mais novos
Como uma quase fatalidade, é hoje dramaticamente desafiante oferecer alternativas a tantas possibilidades de encontros que se geram fora do espaço tradicional da Igreja. É certo que o lugar da Igreja é o mundo, mas as ofertas que este tempo coloca no horizonte, incluindo nas redes sociais, torna tudo muito mais complexo.

3. Um dinamismo celebrativo à espera de mais rasgo, beleza, silêncio e simplicidade
Há um espaço tensional nas celebrações católicas romanas. Uma rica tradição, que não se pode perder, é muitas vezes, vivida com defensividade, como se manter tudo na mesma fosse sinal de conservar. Há que reconciliar esse embalo milenar positivo com a renovação necessária, também na festa da missa. A simplificação litúrgica, em particular, potenciada com dinamismos mais horizontais e momentos de silêncio, menos centrados em quem preside, são caminhos menos percorridos.

4. Um clericalismo teimoso, de muitos clérigos e leigos
São muito persistentes os sinais de clericalismo, na consciência interna e na ação eclesial de muitos de nós. Um dos aspetos gritantes é a forma típica como se responde à falta de padres ou à situação (frequente, como sabemos) de padres desajustados a certa realidade paroquial/pastoral. O ‘tique’ mais típico é “partir padres ao meio”. Muitas vezes, nas (não) decisões, pondera-se mais o padre em si (onde vamos colocar este sacerdote?) do que a comunidade no seu todo. São radicalmente tímidas as iniciativas de promover a liderança laical de comunidades, com novos enquadramentos de garantia de unidade aos Bispos e ao Papa.

5. Uma sinodalidade duvidosa, onde a escuta se arrisca a ser um procedimento estéril
Não há forma de se ser Igreja, hoje, senão em chave sinodal. Promover uma escuta efetiva de todos e para todos, que tenha depois contra-feedback, reflexão desapegada, “amassamento” dos contributos no Espírito, caminhos e ação. De Roma, nos nossos tempos, aparecem, felizmente, gritos fortes de desejo sinodal. Alguns, mais longe dali, resistem a dar valor a este (único) estilo de ser Igreja.

6. Falta de iniciativas e experiências originais
Seria bom que os bispos usassem da liberdade de ensaiar e as comunidades, por sua vez, tivessem liberdade para essas mesmas iniciativas. Seriam processos, janelas, pequenas respostas, insights vertidos no tempo e no espaço… que depois, claro está, teriam a respetiva avaliação e eventual reformulação/replicação.

Disse no início desta reflexão que Jesus de Nazaré, aguentou, e aguentou até à cruz. No alinhamento do que as palavras foram tecendo, prefiro terminar assim: Jesus de Nazaré, que foi até à cruz, amou e ama, abriu e abre janelas de luz e de esperança. Mas encarnou para amar, não para aguentar. Aguentar é um meio (não o fim) do sonho de Deus maior: a liberdade do próprio amor. Para isto existimos. A Igreja existe para proporcionar este encontro de todos com a livre liberdade do amor. Para construir essa Igreja não podemos deixar de olhar com esperança a abundância que semeia em todo o lugar. Mas cabe-nos um trabalho e fazer render talentos de mudança criativa. Aguentar, definitivamente, é excessivamente defensivo e insuficiente!

JP in Sem categoria 4 Outubro, 2021

negligenciam os mandamentos de Deus e apegam-se às tradições dos homens

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mc 7, 1-8

negligenciam os mandamentos de Deus e apegam-se às tradições dos homens

As palavras de Jesus para os fariseus apresentam um enorme potencial autorreflexivo para a Igreja. O apego a certa tradição, como se tal tradição fosse o próprio Deus é, ainda hoje, aqui e ali, um problema agudo no seio da Igreja. Não se nega o valor da tradição mas evidencia-se, pelas próprias palavras de Jesus, o perigo de, em nome dessa tradição, se negligenciarem as propostas cristãs e, especificamente, o mandamento do amor ao próximo. Hoje como ontem há fariseus por muito lado. Há também, porventura, um “fariseu” dentro de cada um de nós…

JP in Espiritualidade Frases 28 Agosto, 2021

Nova Evangelização: permanecer!

Paiva, J. C. (2021). Nova Evangelização: permanecer! Site Ponto SJ, 28-05-2021.

Disponível aqui

A expressão “Nova Evangelização” é, bem o sabemos, uma redundância em si mesma. O Evangelho é Boa Nova e, como tal, seria próprio de quem se importa e tenta viver segundo os critérios de tais inspirações, fazer novas todas as coisas. A redundância é uma figura de estilo bem coerente para este caso: trata-se de sublinhar o essencial do essencial (abrir-se à dádiva do insistente novo), secundarizando alguns apêndices, mais ou menos disciplinares, moralistas, exterioristas, formais, rígidos, fechados, velhos…

Escolho o verbo permanecer para harmonizar uma certa visão de nova evangelização, que fará por gerir um difícil e dinâmico equilíbrio tensional: guardar o que certo passado e tradição nos oferecem, abrindo tal legado à novidade do que o tempo de hoje nos oferece e do que o futuro de novo nos trará, na convicção profunda de que estes, como todos os tempos da história da fé, são “tempos favoráveis” (2 Cor 6: 2). Não há lugar, portanto, por mandato bíblico, para pessimismos no olhar, como se o mundo concorresse em sentido oposto ao da esperança. É lá, na realidade do palco da vida, que se radica o sentido. Permanecer em Deus é permanecer na vida real e permanecer no mundo, no sabor encontrado da crença, é permanecer em Deus.

1- Permanecer em Cristo

Permanecer significa dar-se conta da importância da paciência, da fidelidade e de certa passividade que assume o compromisso de estar, esperando a espera da esperança, acreditando no amor. Este permanecer é algo contracorrente face a certo imediatismo contemporâneo onde, precisamente, pelo contrário, se saltita à distância de um clique ou de uma sensação. A imagem de Cristo como videira, em Jo 15, como fonte de seiva e garantia de vida e de unidade, é bastante inspiradora. Permanecer como ramo de videira é teimar nos critérios de Cristo, porque tal vale a pena, porque a vida assim vivida confirma o jugo leve e suave prometido. Porque permanecer é também dar um sentido outro às feridas e às fraturas da existência, vislumbrando a luz que teima em perpassar cada pequena ou grande contrariedade. Para alguns, permanecer na fé ganha tónus com permanecer em Igreja, um gesto continuado que, como tudo na vida, tem também o seu custo. Para quem escreve estas linhas, esta permanência eclesial, muitas vezes suada, é fonte de grande alegria e descentramento, sublinhando-se um caminho e uma salvação da ordem do “nós”. Uma procura de unidade na diversidade que tem as suas identidades e os seus frutos. Um dos aspetos que mais resiste aos ventos do Concílio Vaticano II é certo clericalismo que manifesta os seus resquícios. A iniciativa laical vai dando os seus sinais, mas não está consumada. Da parte de muitos leigos, porventura distantes da circularidade e da horizontalidade que nos fazem povo em caminho, há ainda resistências que se manifestam, por exemplo, na quase ingénua ideia de que o selo de Igreja se confunde com a presença e com a atividade dos clérigos. Sem escamotear a importância e singularidade do dinamismo dos ordenados na Igreja, ontem, hoje e amanhã, há ainda um salto de qualidade laical por emancipar…

2- Permanecer no mundo e no tempo

A lucidez crítica de alguma tendência superficial dos nossos tempos não pode ser entendida como qualquer combate contra o mundo, mais ou menos dualista, como se o mundo precisasse essencialmente de luta. O nosso primado é um outro, o da aceitação ativa e o da procura da justiça fraterna. Inspira-nos Jesus de Nazaré que sempre recusou ruturas com o mundo, preferindo revelar e revelar-Se nas más companhias mundanas, a partir da realidade como ela é. O Espírito Santo, enquanto gerúndio de Deus que em tudo sopra, ganha, no seu entendimento para a vida, em quasi confundir-se com o tempo e com o espaço que correm. Permanecer no Espírito Santo, portanto, é permanecer no mundo. As teses defensivas e identitárias da Igreja esmorecem no próprio Evangelho, que nada tem a ver com trincheiras, antes rasgando-se numa misericórdia em saída, como Francisco não se cansa de apontar. Não haverá nova evangelização sem atenção e permanência nos sinais dos tempos. De aí para o alto se caminhará porque não há caminho, antes prisão, no movimento contrário, bandeirando o cristianismo como mera ideologia.

3- Permanecer na pergunta

Este caminho da realidade para um ideal (e não o seu inverso), é radicalmente pedagógico e um filão fundamental da nova evangelização. As correntes pedagógicas atuais, embaladas pelo iluminismo, pela racionalidade das próprias ciências, incluindo as sociais, e por valores como a democracia e a pluralidade (na minha ótica, sopros com forte raiz judaico-cristã, agora no lastro de uma sociedade positivamente laica) são de ter em conta. As aprendizagens, seja do que for, são colocações baseadas na pergunta. Será o aprendente, mediante informação e propostas, que realizará o seu caminho, processando, acolhendo, ancorando e resignificando o que lhe é proposto, não imposto (ao estilo de Jesus, diria eu). O cristão (sim, missionário e evangelizador por inerência) terá neste tempo uma permanência baseada na pergunta, fazendo e porventura dizendo o que os outros fazem e dizem, mas com um tónus diferente. Principalmente pelos seus gestos e pelo seu ser, mais até do que pelo que diz, gerará a pergunta no outro. Só assim se poderá propor. Se houvesse eles e nós, em matéria de conversão (mas não há…), ambos, nós e eles que somos só nós, seríamos pergunta. Deus teima em ser a última pergunta diante de cada resposta provisória. E Jesus, Ele mesmo, transitou em formato pergunta. A bem dizer, morreu por amor e estava já a permanecer ressuscitando, como uma pergunta. A Igreja que somos, se quiser ser nova evangelização, terá de permanecer como pergunta aprendente diante da novidade que é a própria graça da vida!

JP in Sem categoria 2 Junho, 2021

Empanturrados de religião

Paiva, J. C. (2021). Empanturrados de religião. Site Ponto SJ, 24-1-2021.

Disponível aqui

Tropecei algures, não sei onde, com uma expressão feliz de crítica religiosa: “os empanturrados”. Olhando à minha volta e até na minha história pessoal, dentro da Igreja, reconheço com nitidez estas insinuações.

A dose, a intensidade e a colocação da “coisa religiosa” merece constante resignificação na vida de cada crente. Sem uma lucidez crítica apurada, facilmente caímos em dois lugares extremos que representam, ambos, um não encontro: ou nos desiludimos, ou nos empanturramos.

Convoco duas analogias que me foram trazidas pelo jesuíta Javier Melloni, não sei se em segunda, se em primeira mão, para explicitar a minha colocação: a analogia do copo e do vinho e a analogia do caminho e do veículo.

O copo e o vinho. Segundo esta analogia, o essencial espiritual representa o vinho. Note-se que o vinho é bom, perfumado, saboroso, valioso e dom (fruto do trabalho, também…). As religiões seriam o copo, por onde se pode tomar o vinho, com valor adicional de eficácia. Os copos, porém, valem pelo potencial de conter e partilhar o vinho, não por si. São diversos nas formas, feitios, cores, mas apresentam uma função em si própria louvável, que é a de serem disponbilizadores de vinho. Há uma certeza humilde que o copo deveria ter (perdoe-se-me a personificação): o copo não é nem a fonte nem o vinho!

O caminho e o veículo. Nesta analogia, o caminho, desde logo comum e não exclusivo de ninguém, é o trilho onde se pode progredir. Este caminho é feito de estações de encontro e constitui, em si mesmo, também teleologicamente, o Encontro. O veículo, mais uma vez com potencias de utilidade e favorecimento, ajuda a caminhar. As religiões, bem entendido, são veículo e não são caminho, não lhes cabendo, portanto, qualquer espaço nem tribal nem endogâmico. Se convém cuidar do veículo? Sim, fazer as revisões, estimar e não estragar desnecessariamente. Mudar o óleo, evitar a corrosão. Mas que se cuide do veículo para ele andar e, já agora, de forma inclusiva, para ser o veículo do nós e não o meu veículo. Todos conhecemos os endeusadores de automóveis, às vezes de coleção: estão polidos, expostos e protegidos… mas progridem pouco, valendo mais para serem vistos do que para caminhar. Há também carros que optaram por se preservar das agressões externas, quiseram ser defendidos e resguardados. Ficaram parados, não fazem caminho e mais parecem sucata…

Ambos os cenários analógicos, como se vê, apresentam forte potencial ecuménico e inter-religioso mas são, simultaneamente, as estradas da própria identidade cristã, cuja marca tem em si própria a porosidade radical de quem não tem fronteiras. Quem coloca o tónus no copo escolhe lutar pela sua posse, enquanto o vinho é diálogo. Quem se polariza no veículo foca-se em defender(-se), enquanto o caminho é rasgada oferta.

Na linguagem analógica acima podemos perceber bem os dois extremos típicos já aludidos: os que com alguma ingenuidade optam por aceder ao vinho sem copo ou que caminham sem veículo (concedendo-se que algum vinho beberão e alguns passos andarão); e os que, em reduto fundamentalista, que não é nem fundamental nem radical, endeusam os copos e esquecem o vinho, puxam o lustro ao veículo, mas mantem-no estático.

O cerne do equívoco prende-se com a clarificação do que é central e do que é periférico. Com alguma clareza, observo na lide religiosa quem toma como central as formas, as normas, as roupagens e as exterioridades. Essa (pesudo)segurança fecha, enrijece e, não raras vezes, é bafienta a até apodrece. Se, pelo contrário, o centro for a fé, a crença vivida num Deus que só ama e cria e a misericórdia com que, também por nós, se verte no mundo, resulta em abertura, respiro, leveza… vinho e caminho.

O contrário do indesejável moralismo não é a amoralidade. Os que trabalham para se centrar e recentrar atenta e comunitariamente no núcleo amoroso da fé não desprezam as roupas com que nos precisamos de vestir, mas estão conscientes da secundariedade das formas, dos ritos e dos normativos. Estes só servem se colorirem o fundamento primeiro do amor a Deus e ao próximo. Jesus de Nazaré parece ser, a este nível, inspirador…

Perguntei-me, por simetria, se haveria “empanturrados de Deus”. A minha conclusão é que Deus não deixa que d’Ele nos empanturremos. Há um lado na relação com a transcendência que é da ordem do “quanto mais melhor”. Mas esse salto místico, paradoxalmente, deixa-nos sempre não possuidores e, pelo contrário, expostos com entusiasmo à novidade e à alegria interior, com as suas consequências relacionais soltas e promotoras. Mais ainda, essa overdose com o Totalmente Outro, dentro de nós e em toda a parte, alimenta-se da não palavra, num silêncio que não ocupa espaço de sobrelotação. A nossa religiosidade, portanto, ou serve essa mística aberta vivida… ou empanturra…

JP in Sem categoria 26 Janeiro, 2021

Encíclica do Papa Francisco Fratelli Tutti: fraternidade para o mundo e para cada um de nós

J. C. Paiva, Fratelli tutti: fraternidade para o mundo e para cada um de nós Site PontoSJ (que se recomenda…). 04 de outubro de 2020.

Disponível aqui

Fratelli tutti: fraternidade para o mundo e para cada um de nós

Não há aspiração humana (mais ainda cristã) que deixe de apontar para
a abertura ao outro, à fraternidade… e à fraternidade com
todos….Por isto, Fratelli Tutti é um documento que nos inspira mas,
sobretudo, nos envia!

1- Pontos de Abertura

Fratelli Tutti é uma encíclica que nos inspira a ver, julgar e agir no
horizonte da fraternidade universal. Parte de dentro da Igreja mas de
uma Igreja cada vez mais porosa, aberta a inspirações externas e capaz
de inspirar todas as periferias. Até o samba brasileiro está presente,
com a lírica de Vinicius de Moraes que nos apresenta a vida como a
arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida (215), qual
metáfora da morte e Ressurreição, lastro da fraternidade.

Acedi ao convite de fazer uma síntese e um eco em mim deste documento
do sumo pontífice, mas, desde logo, ciente da dificuldade em colher
sumo de tanto sumo… Costumo lembrar aos meus alunos, principalmente
quando me apresentam documentos extensos de mais, aquela máxima de
Pascal: “escrevo-te esta carta longa porque não tive tempo de a
escrever curta”. No vertente caso, desde o início da leitura,
apercebi-me que, mesmo com muito mais tempo, não conseguiria dizer com
poucas palavras as muitas ideias que já em mim ecoam. Logo do final da
primeira leitura resultou um excesso de sublinhados quase impossível
de conter nesta esforço de síntese… Por isto mesmo, e antes de mais,
recomendo a leitura total, paciente, consoladora e desafiante deste
documento oferecido a todos nós.

Esta obra traz, no geral, o embalo de toda a história da Igreja e, em
particular, resume e interliga as múltiplas reflexões, intervenções e
outros documentos do Papa Francisco. Faz a ponte entre a inspiração de
sempre, tomada em Cristo, no século primeiro, e uma leitura moderna e
lúcida deste tempo que vivemos no século XXI. A inspiração do título
(Fratelli Tutti) é de um Santo, precisamente, São Francisco, do século
XIII (o mesmo que inspirou a encíclica Laudato Si e de quem o Papa se
aproxima bastante, a começar no próprio nome que escolheu para o seu
pontificado). São curiosos os dinamismos em espiral que atravessam
todos os tempos: assim como São Francisco foi marcado pela sua visita
ao sultão Malik-al-Kamil, que o inspirou a recomendar que se evitem
todas as formas de agressão e contenda e a viver a humildade e a
fraternidade mesmo com quem não partilha a nossa Fé (3), o Papa
Francisco reconhece no seu encontro com o Grande Imã Ahmad
Al-Tayyebalgo determinante no rumo desta encíclica (285). Esta
impulsão no dinamismo ecuménico e inter-religioso, que tem na
fraternidade uma charneira comum, sublinha a não autorreferenciação
mas a Igreja “em saída”, que Francisco não se cansa de afirmar, dando
assim tónus à identidade cristã (282) marcada pela novidade, pelo
encontro, pela abertura, pela não defensividade e pela fraternidade
(277).

O documento está dividido em sete capítulos, que vão desde um olhar
acutilante sobre o nosso mundo e as suas sombras (I) à própria questão
das religiões face ao desafio da fraternidade (VII). No meio,
referências a questões cruciais do nosso tempo, como as migrações, a
organização social, a era da digitalização, o mundo da política, da
economia e da cultura. Um olhar atual, com os óculos da fraternidade.
Na organização temática, sublinharia algumas palavras ou expressões
que falam por si e nos dão conta do rumo seguido neste documento:
“mundo fechado”, caminho, abertura, amizade, encontro e serviço.

Em todas as secções (não poderíamos estranhar isso em Francisco…) há
referências constantes aos mais excluídos, preocupações particulares
com aqueles a quem o Papa tem chamado os “(cruelmente) descartados da
sociedade” (19): idosos, deficientes, estrangeiros, frágeis, mulheres
indefesas, indigentes, últimos, etc… Fratelli Tutti…

Uma nota final nesta introdução para destacar que apesar do estilo
expectável da encíclica, muito prática, quotidiana, positivamente
banal e sem rodeios, há substrato de grande valor teológico,
filosófico e cultural (81, 134, 206, 216). Esta observação é
importante para amparar críticas (quanto a mim injustas) que vão sendo
feitas a este papado, principalmente de dentro da Igreja, que apontam
certa falta de densidade conceptual na base do pensamento de
Francisco.

Uma nota final nesta introdução para destacar que apesar do estilo
expectável da encíclica, muito prática, quotidiana, positivamente
banal e sem rodeios, há substrato de grande valor teológico,
filosófico e cultural.

2- Pontos de inspiração

O que desenvolvo neste segundo ponto são os sublinhados pessoais mais
relevantes do documento. Não só assumo a subjetividade do processo, no
que diz respeito às escolhas feitas, como intuo que, em releituras
seguintes, me focaria em zonas diferentes.

a)    A cumplicidade entre esta encíclica e a Laudato Si é evidente:
Cuidar do mundo que nos rodeia e sustenta significa cuidar de nós
mesmos. Agora somos desafiados a constituirmo-nos como um «nós» que
habita a casa comum (17).

b)    Referências muito concretas a situações atuais como a pandemia
por Covi19 (32) ou a tensões relacionadas com as migrações e outros
problemas das sociedades onde vivemos. Estamos todos numa clara
emergência de interfragilidade, que não permite soluções
individualistas mas sim sistémicas e plenas de solidariedade. Os
caminhos terão também na fraternidade (e não noutros mecanismos) a
verdadeira solução: “a tentação de fazer uma cultura dos muros, de
erguer os muros, muros no coração, muros na terra, para impedir este
encontro com outras culturas, com outras pessoas. E quem levanta um
muro, quem constrói um muro, acabará escravo dentro dos muros que
construiu, sem horizontes. Porque lhe falta esta alteridade” (27).

c)    Ao citar com frequência outros papas, Santos de vários tempos e
documentos variados, o Papa coloca também visível o positivo valor da
tradição, expondo a Igreja na sua matriz de barca ajudante, capaz de
permanecer firme, proponente, lúcida e atuante nas tempestades das
gerações. Em particular, aqui e ali, compreende-se uma agenda ainda
importante e urgente de atualizar o Concílio Vaticano II, ele próprio
bastante apontador – para fora – de que somos, de facto, Fratelli
Tutti: “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos
homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem,
são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias
dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente
humana que não encontre eco no seu coração”. (56)

d)    Como não poderia deixar de ser, a raiz bíblica da fraternidade é
muito explorada neste documento. O centro nevrálgico do desafio
fraterno é muito bem colocado na pergunta de Deus a Caim em Génesis 4:
“onde está o teu irmão?” (57). Os pontos 62 a 72 da encíclica, por sua
vez, desenvolvem de forma inspirada e inspiradora a parábola do bom
samaritano como lema de fraternidade.

e)    A abertura aos outros como missão e como expressão de liberdade
não conhece exceção nos seus protagonistas. A família e o seu valor,
não escapam: “O vínculo de casal e de amizade está orientado para
abrir o coração em redor, para nos tornar capazes de sair de nós
mesmos até acolher a todos. Os grupos fechados e os casais
autorreferenciais, que se constituem como um «nós» contraposto ao
mundo inteiro, habitualmente são formas idealizadas de egoísmo e mera
autoproteção” (89).

f)     A aspiração a uma genuína liberdade passa pela fraternidade.
Falsas aparências de “liberdade individual”, muito veiculadas na
cultura contemporânea, geram uma separação nada humanizante entre a
pessoa e o contexto (111). O não cumprimento de indicações justas e
oportunas, sanitárias ou de organização social, podem ser disto um bom
exemplo.

g)     Há no documento inúmeras referências a problemáticas
sociolaborais, onde se sugere a fraternidade numa perspetiva mais
sustentável. Chama-se à atenção para um certo caráter provisório e
insuficiente do pão necessário, em confronto com a importância do
“trabalho para todos” (127).

h)     A política merece um particular destaque nas preocupações de
Francisco e neste confronto do mundo com a fraternidade. O capitulo V
(“A política melhor”, embora se pudesse chamar a “política menor”,
pelas múltiplas críticas a certa forma de fazer política…) é o mais
longo do documento. Há, de facto, uma via da política para e na
fraternidade, onde a inspiração cristã… pode ser inspiradora (165,
180, 194). Não pode estranhar-se uma insinuação fortemente crítica aos
populismos (156), ao neoliberalismo desregrado (168), à corrupção
(176). Apreciei o apontamento de valorização e redignificação de
organizações como a ONU (173) e as muitas menções justificadas à
nobreza da política (186, 197) que, na senda do Vaticano II, convocam
os cristãos para o empenhamento político.

i)      Merece uma referência minimamente patriótica (…) a invocação
do documento dos Bispos portugueses (178), citando, a bom propósito da
fraternidade, que a “a terra é um empréstimo que cada geração recebe e
deve transmitir à geração seguinte”.

j)      Está presente uma alusão crítica e equilibrada no que concerne
às comunicações digitais e aos seus contextos de utilização: “a
difusão altissonante de factos e reivindicações nos media, na
realidade o que faz muitas vezes é obstruir as possibilidades do
diálogo” (201). Com efeito, o conhecido e experimentado ruído dos
média e da redes sociais, que se nos oferece e tanta vezes nos esmaga,
pode impedir a genuína e desejável fraternidade. É verdade que, bem
usados, os meios digitais podem ajudar (205) mas, como em quase tudo,
é preciso discernimento, disciplina e boa ação para que estes recursos
contribuam para a fraternidade universal.

k)     É de destacar o apontamento de que os encontros que se desejam
para construir a fraternidade não significam voltar ao período
anterior dos conflitos (226). Os processos de reconciliação demandam
grande criatividade e procura de “terceiras vias”, que quebrem as
dicotomias e oposições primárias e sem saída (233). Ajudam e são
crucias, com toda a certeza, as inspirações cristãs do perdão, ainda
que sem ingenuidades nem facilitismos, que escamoteiem que “perdoar
não significa que continuem a espezinhar a dignidade…” (241).

l)      Convém tomar nota das posições emergentes que esclarecem a
posição atual da Igreja sobre a guerra e a pena de morte. A “guerra
justa” parece não ter lugar (258) e a pena de morte (263), ou mesmo a
prisão perpétua, “pena de morte escondida” (268), são consideradas
inadmissíveis na plataforma de uma visão cristã de fraternidade.

m)    Como seria previsível, são focados e desmantelados os laivos de
radicalismo religioso (284), apontando-se, pelo contrário, o potencial
de fraternidade alcançável nas e pelas religiões, cada uma com sua
contribuição (283).

3- Pontos de interrogação

Um documento como este tem sempre, além do conteúdo explícito,
aberturas que se podem constituir como janelas de inspiração mais
lata. Por outro lado, aqui e ali, permito-me chamar à atenção, não
tanto de fragilidades ou dissonâncias críticas em relação às palavras
do Papa, mas de possibilidades de certa distorcida interpretação ou
enviesada (não) contextualização que outros possam fazer.

i)      E a Igreja não é também, muitas vezes, palco de obstáculos à
fraternidade?

Ao criticar os estados e certos aspetos da cultura atual, não podemos
deixar de olhar para nós mesmos, enquanto Igreja, e reconhecer que,
não raras vezes, somos também impedimento fraterno. Podemos todos
concordar que “uma maneira eficaz de dissolver a consciência
histórica, o pensamento crítico, o empenho pela justiça e os percursos
de integração é esvaziar de sentido ou manipular as «grandes»
palavras. Que significado têm hoje palavras como democracia,
liberdade, justiça, unidade? Foram manipuladas e desfiguradas para
serem utilizadas como instrumento de domínio, como títulos vazios de
conteúdo que podem servir para justificar qualquer ação” (14). Pois
bem, teremos de estar conscientes, como cristãos, dos aspetos subtis
como também nós gastamos as palavras e lhes esvaziamos o sentido, com
esmagamentos mais ou menos moralistas e estéreis. Caridade, serviço,
sacramento, liberdade, são gritos de Cristo que, ao longo da história
e ainda hoje, nalguns recantos sombrios da Igreja que somos, são (não)
mostrados como opulência, poder, exterioridade clerical ou
aprisionamento. Sublinho esta tensão autocrítica mas esclareço que o
Papa Francisco não deixa de dar os seus recados críticos internos,
como faz, por exemplo, a propósito de certos lugares digitais de
movimentos da Igreja Católica Romana que são plenos de agressividade e
estimulam a polarização discursiva, em claro desalavancamento da
fraternidade (46).

ii)     O acolhimento aos refugiados pode tanger práticas ingénuas e
não sustentáveis?

O texto desta encíclica, em clara concordância com a agenda de
Francisco, dá uma atenção específica e desenvolvida à questão dos
refugiados. Não podia deixar de ser assim. No acolhimento e na
hospitalidade ao estrangeiro está o cerne da fraternidade. Além disso,
somos todos migrantes ou ex-migrantes, peregrinos a e em caminho,
sempre em processo, via Fratelli Tutti. Ao encorajar com um sentido
muito prático todos os Estados a humanizar as estruturas e as
dinâmicas de acolhimento de refugiados, o Papa está, tão só, a ser
Cristão. Há que reconhecer, contudo, que convém impregnar as
integrações migrantes de realismo sustentável. Um voluntarismo de
coração muito afetado pela sensibilidade e, pouco amparado pela
racionalidade e pela operacionalidade, pode estar a remendar para
pior, pode alimentar redes de tráfico humano, pode ser insustentável e
pode até, ironicamente, alimentar populismos. Francisco está atento a
este fenómeno e convoca até para a solidariedade um termo curioso, a
“solidez” (115), que pode inspirar o acolhimento de refugiados com uma
estruturação mais robusta.

iii)    Um mundo assim tão dividido tem lugar para a esperança?

Não poderíamos esperar de Francisco um discurso morno, poupado nas
palavras que descrevem o mundo onde estamos inseridos, pleno de
idiossincrasias e incoerências. O próprio título do capitulo I, “as
sombras de um mundo fechado”, fala por si. Neste aspeto, porém, tenho
um certo receio de palavras do Papa tiradas do contexto sistémico, que
nunca esquece a esperança, serem mal usadas. A “terceira guerra
mundial aos pedaços” (25) é um termo forte, que tem sentido na sua
alusão crítica metafórica mas cuja interpretação literal
descontextualizada permitiria algum instinto incendiário. Há que somar
essas palavras duras às mensagens de esperança radical subjacentes a
todo o documento: “Apesar destas sombras densas que não se devem
ignorar, nas próximas páginas desejo dar voz a tantos percursos de
esperança“(54). Por outro lado – e este é um tónus muito pessoal onde
até posso admitir algum déficit denunciador da minha parte –
pergunto-me sempre se temos consciência de que os males de hoje são
também traços da história e não está dito nem provado que as coisas
vão de mal a pior… A este propósito, no ponto 154, que diz “Mas hoje,
infelizmente, muitas vezes a política assume formas que dificultam o
caminho para um mundo diferente”, eu suprimiria a palavra ‘hoje’
(porque sempre assim foi e porventura será).

iv)    Poderá haver caminhos mais disruptivos para a fraternidade?

Um documento desta natureza é muito mais apontador do que prescritivo.
Ainda bem que assim é. Mas é verdade que, nas entrelinhas, há convites
para esquemas mais originais, que permitam sair de certos vícios de
olhar e de ação, impeditivos da fraternidade. O Papa desafia os
políticos a resolver o problema dos mais desfavorecidos e chama à
atenção que pode parecer uma utopia ingénua (190) mas que é o processo
pelo qual se constrói a fraternidade. Não duvido da inspiração dessa
utopia e entendo que a criatividade utópico-realista, por vezes
disruptiva, pode e deve ser convocada. Em termos de modelo
político-económico-social, para dar um exemplo, entendo que podemos
com seriedade procurar novas vias como o Rendimento Básico
Incondicional (RBI), com base na doutrina social da Igreja e, quanto a
mim, que sou entusiasta desta possibilidade, conducente à fraternidade
universal.

4 – Pontos de envio

Não há aspiração humana (mais ainda cristã) que deixe de apontar para
a abertura ao outro, à fraternidade… e à fraternidade com todos….Por
isto Fratelli Tutti é um documento que nos inspira mas, sobretudo, nos
envia!

O Papa Francisco volta neste documento a apontar o grande valor da
diversidade, nas relações humanas, na cultura, nas sociedades e nas
religiões. Contra todos os uniformismos (100), Francisco lembra-nos
que a fraternidade se tece precisamente no encontro feito de riquezas,
diferenças e novidades. Para o mundo e para a Igreja, Francisco usa
com frequência, mais uma vez, a imagem do “poliedro de muitas faces”
(144).

Esta leitura induziu-me uma questão: o que nos falta? O que me falta?
Respondi a mim mesmo: talvez render-me à fraternidade… e fraternidade
a todos, sem exceção. Talvez ceder… Talvez ‘seder’ (invento a palavra,
com um ‘s’, para me referir à procura da sede que, sendo sede do
outro, é sede de Deus). O que nos falta é a fraternidade que nos torna
humanos porque irmãos. E porque a fraternidade é para todos e porque
ser cristão é ser inteiramente humano, o que nos falta é ser
cristãos-humanos.

Termino como comecei: Fratelli Tutti é uma encíclica que recomendo ler
e saborear. Envia-nos a experimentar e a viver a fraternidade, que nos
toca e que toca o mundo!

O Papa conclui esta encíclica com uma referência a um desejo formulado
a um amigo, por Charles de Foucauld. Solicitava então: “que Deus nos
inspire a que sejamos realmente irmãos de todos” (287). Fratelli
Tutti, portanto. Talvez isto baste.

Desejo para mim e para todos que as nossas preces, feitas vida, se
embalem na proposta orante do final deste documento, para que se
“mostre a beleza refletida em todos os povos da terra, para
descobrirmos que todos são importantes, que todos são necessários, que
são rostos diferentes da mesma humanidade amada por Deus. Amen”.

JP in Sem categoria 6 Outubro, 2020

moral sexual e consciência

Era interessante robustecer os cristãos com ferramentas que permitissem um discernimento sério e profundo para um verdadeiro desenvolvimento da sua consciência pessoal, mais do que ditar prescrições rígidas mais ou menos infantilizantes. Estas cartilhas, em muitos casos, não ajudam mas antes bloqueiam o acesso das pessoas à melhor felicidade, reduto último da religião. Os assuntos de sexualidade, incluindo o uso do preservativo, são muitas vezes discutidos numa ridícula estrada de «sim ou não», que não corresponde a uma colocação séria do problema. A questão da consciência pessoal (e/ou diante de Deus, para os crentes) parece ser o elo mais crucial mas o menos abordado em muitos discernimentos, nomeadamente os que se prendem com as questões da sexualidade. Para formar esta consciência, porém, a religião terá de trabalhar mais e melhor a sua catequese. A «gestão» da nossa sexualidade é assunto tão fascinante quanto complexo e muitos cristãos estão suspensos ou mesmo «entalados» entre propostas moralistas, cujo verdadeiro significado não entendem, e uma proposta facilitista, que se joga na contemporaniedade e que entra pela televisão e por outros média. Ao ser menos prescritiva em algumas questões de moral e tentar formar a consciência global e profunda dos crentes, a Igreja poderia arriscar outro caminho, igualmente exigente mas ‘de dentro para fora’, escolhido e assumido por cada um. Esta postura baseia-se numa antropologia mais «confiante» no homem. Por vezes, parece haver medo da «desregração», mas, assim como nas famílias educar não é controlar, a moral católica poderia ser menos retalhada e mais baseada em princípios gerais de fraternidade, respeito por si próprio, pelos outros e pela vida. Seria o desfecho de consciência pessoal, sempre confrontável com acompanhamento espiritual, que determinaria a liberdade no amor de cada homem e mulher. Intui-se até que, se fosse bem construída esta formação, capaz de ler e integrar o património de cultura, fé, psicologia e sociologia que forma a consciência, as escolhas dos cristãos seriam mais interiorizadas. Não se trata de “baixar a fasquia”, mas de a propor num caminho ancorado internamente, em vez de o impor moralisticamente…

JP in Educação Espiritualidade 6 Agosto, 2020

interpretação da Bíblia e Igreja

O Concílio de Trento, iniciado em 1545, reafirmou a autoridade da Igreja Católica na interpretação da Bíblia, mas o texto do decreto conciliar é bastante genérico e até mesmo ambíguo. Os padres conciliares decretaram que ninguém se deveria permitir «interpretar a Sagrada Escritura, nas matérias de fé e de moral, que pertencem ao edifício da doutrina cristã, distorcendo a Sagrada Escritura segundo o seu modo de pensar, contrário ao sentido que a santa mãe Igreja determina». O texto conciliar não especificou, porém, critérios suficientemente precisos para a definição, por exemplo, de uma questão como sendo de fé ou de moral, nem entrou em pormenores sobre o difícil problema de decidir quando se deveria interpretar a Escritura em sentido literal ou em sentido metafórico.

Desde a tradição medieval que é comum distinguir quatro sentidos possíveis no texto bíblico, a saber: 1) histórico ou literal, 2) alegórico ou cristológico, 3) tropológico ou moral e antropológico, e, finalmente, 4) anagógico ou escatológico.

A tradição hermenêutica é, pois, bem longínqua na história da Igreja. Conhecem-se dois extremos caricaturais, em traços deixados ao longo do tempo e ainda hoje presentes: de um lado, uma visão restritiva e estaticamente ortodoxa da autoridade da Igreja na interpretação bíblica e, do outro lado, uma personificação originalista, que não tem em conta a riqueza da tradição, nem a procura duma expressão comunitária de afirmar dinamicamente as verdades da fé. Caminhamos, ainda hoje, nesta tensão…

JP in Espiritualidade Frases 10 Julho, 2020