aterrando…
Viajo cada menos de avião. Mas quando aterro ocorre-me: aqui está de novo Terra para pisar, terra para gozar e terra para ir fazendo novas todas as coisas.
Viajo cada menos de avião. Mas quando aterro ocorre-me: aqui está de novo Terra para pisar, terra para gozar e terra para ir fazendo novas todas as coisas.
Nos textos que publicou nos anos 60 e 70 do século passado, Joseph Ratzinger, (Papa Bento XVI), afirma claramente que matéria e espírito não são duas realidades que se possam considerar desligadas da perspectiva dinâmica do ser criado. Por um lado, deve considerar-se que «o espírito não é um produto ocasional do desenvolvimento da matéria, mas antes que a matéria significa um momento da história do espírito». Esta formulação é reafirmada mais adiante: «o espírito não aparece na matéria como algo estranho, um outro diferente, como uma segunda substância; o aparecimento do espírito significa… que o movimento ascendente chegou à meta que lhe estava destinada». Ratzinger continua a utilizar aqui, sem hesitar, uma linguagem quasi-teilhardiana, aceitando «o reconhecimento de um mundo evolutivo, como auto-realização de um espírito criador»
O citocromo C, uma proteína humana da mitocôndria, tem 104 aminoácidos. No macaco só 103 (ligeira diferença). Convite à evolução mas permanência de mistério. Que rubicão é este de um aminoácido?… Evolução criativa, de facto!
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 5, 17-37
«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar»
Uma das dicotomias mais evidentes do cristianismo é aquela entre continuidade e descontinuidade. Não é possível ver, ler e relacionar-se com Jesus sem este lastro tensional entre continuar e descontinuar. Pode dizer-se de outro modo: herdar e recriar, tradição e inovação… ou manter versus revolucionar. O judaico-cristianismo é o mar desta sinfonia. Se nos cruzarmos com os evangelhos não podemos ficar indiferentes ao sentido descontinuista de Jesus de Nazaré: as suas denúncias do que está mal, as suas constantes críticas religiosas, o sentido crítico do legalismo, a forma como quase sempre “vira de pernas para o ar” o status quo. Por outro lado, Jesus assume-se como Judeu que é, encarna no fio da história e entra na viagem do tempo e do espaço. A morte por amor, e morte de cruz, pode ser lida como a verdadeira revolução (ressurreição) na continuidade do que somos (morrentes). A cada um de nós, por inspiração cristã, cabe discernir onde quebramos e onde continuamos, para dar sentido à nossa vida a à vida do mundo. Os extremos, quer personologicamente, quer socio-politicamente, serão tipicamente menos cristãos e humanos. A radicalidade que importa é outra coisa: é a radicalidade desse mesmo discernimento amoroso…
NOTA: Este texto é repetido/ajustado a partir de evento já publicado neste blog anteriormente.
DOMINGO VI DO TEMPO COMUM
L 1 Sir 15, 16-21 (15-20); Sl 118 (119), 1-2. 4-5. 17-18. 33-34
L 2 1Cor 2, 6-10
Ev Mt 5, 17-37 ou Mt 5, 20-22a. 27-28. 33-34a. 37
A biologia, como tal, é criada praticamente no séc XIX. Nascida, em certo sentido, como refém da física (e, portanto, altamente teorizada) transforma-se numa atividade muito prática, numa engenharia biológica, afastando-se cada vez mais da teorização…
Há quem aponte três «descentramentos» ao longo da história da ciência, mais ou menos baseados num certo narcisismo do homem (antropológico):
1) A Terra deixa de ser o centro do universo. Esta revolução aconteceu com Galileu que, com grande rasgo e intuição, recusando as ideias aristotélicas do seu tempo (teoria geocêntrica), fez observações e concluiu que a Terra não era o centro do universo (teoria heliocêntrica). As suas incursões científicas valeram-lhe sérios problemas com a Inquisição.
2) A espécie humana deixa de ser o centro. Esta revolução dá-se com Darwin. A sua teoria evolucionista coloca a nossa espécie como um elo de uma cadeia complexa de evolução, onde outras espécies de ontem e de hoje se entrelaçam. Em todo o caso, o sinal é claro: a espécie humana, tal qual a conhecemos, não foi criada como primeira espécie viva na Terra.
3) A consciência deixa de ser o centro. Esta revolução deve-se principalmente aos trabalhos de Freud e à sua psicanálise, mas poderíamos associar-lhe outros autores da psicologia e até das neurociências. A valorização da área inconsciente da nossa mente impede-nos um certo domínio de nós próprios e coloca em causa, em certo sentido, a noção de liberdade interior e pessoal.
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Cor 2, 1–5
«apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor»
É curioso reparar na explicitação de Paulo em relação aos seus sentimentos e emoções enquanto protagonista da atividade apostólica. Ele não se reconheceria como o ‘herói de Cristo’, sem mácula e sem dúvidas, mas o ser frágil que se faz forte pela esperança e não pela impecabilidade. “Não me apresentei com sublimidade de linguagem ou sabedoria”, diz Paulo, como que dizendo que para se ser apóstolo não é preciso dons extraordinários mas antes humildade e confiança, fé num Deus que é amor e que se quer revelar a todos, por via de cada um de nós. A experiência de seguimento cristão poderá tornar-nos, em certo sentido, ‘maiores do que nós mesmos’. Mas o ponto de partida desse crescimento é, precisamente, a consciência de fraqueza e de fragilidade. Partimos da nossa carência e isso nos tornará humildes (ligados à terra e à verdade) e fraternos (abertos aos outros – todos – carentes como nós…)
NOTA: Este texto é repetido/ajustado a partir de evento já publicado neste blog anteriormente.
DOMINGO V DO TEMPO COMUM
L 1 Is 58, 7-10; Sl 111 (112), 4-5. 6-7. 8a e 9
L 2 1Cor 2, 1-5
Ev Mt 5, 13-16
A experiência dos primeiros cristãos está contida no Novo Testamento e não é uma narração jornalística da vida de Jesus, mas uma profissão de fé n’Ele. Jesus não deixou nenhum escrito, e talvez ainda bem. Não precisamos de escritos abstractamente inspirados, «caídos do céu», mas de escritos que nos falem de Deus a partir da experiência de vida dos primeiros cristãos, do seu testemunho vivencial e credível.
O amor à liberdade dos homens é de tal forma que nem a beleza se nos impõe: antes se propõe como sinal dum caminho único de reconhecimento…
O exercício docente prende-se muito com uma procura constante de equilíbrio. Diante de olhares e práticas pedagógicas muitas vezes radicados no 8 ou no 80, o caminho pode ser 45… O discernimento do professor, radicado no precioso livre arbítrio de escolher, é sempre uma capacidade em evolução.