o que colhemos
De cada dia colhemos o tudo e o nada, a chave e a porta, mas principalmente a abertura.
De cada dia colhemos o tudo e o nada, a chave e a porta, mas principalmente a abertura.
Tenho insistido comigo mesmo, incluindo neste blog e em algures lugares públicos, sobre a importância da dúvida na fé esclarecida e positivamente nua. Digo por vezes, com alguma consciência de que estico linguagem para polarizar uma mensagem (a do valor da dúvida na crença…) que ‘tenho dúvidas da existência de Deus, embora menos dúvidas da experiência de Deus’. Com alguma dificuldade semântica, talvez possa dizer, melhor, que a minha dúvida é mais sobre mim mesmo, sobre como me (des)entender enquanto humano face à existência de Deus. Qualquer coisa do tipo que, em certo lugar escatológico, fosse eu encostado para atirar uma única seta de dúvida, a dirigiria a mim como alvo e não a Deus.
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Pd 2, 4-9
«Prontos sempre a responder, a quem quer que seja, sobre a razão da vossa esperança»
Em tempo de Santíssima Trindade, mistério da complexidade simples de um amor crucial circulante, Pedro, seguidor de Cristo, convida-nos a oferecer as razões da nossa esperança. O trabalho dinâmico de construção pessoal e comunitária das razões da nossa fé é essencial. Sendo a fé vivida uma adesão, passe-se o pleonasmo, de fé e de vida, não são irrelevantes as razões da nossa esperança. O curioso nesta referência da epístola de São Pedro é a nuance de estarmos sempre ‘prontos a responder’. Isso implica que o gesto para com os outros pode ser mais escutante, mais levantador das perguntas do que do lado do forçamento de afirmações categóricas e militantes. Para os cristãos, Jesus é a resposta. Mas percebe-se algo muito importante e nada óbvio, bem apontado por Tomás Halík: qual é a pergunta?…
Este texto repete em parte ou no todo palavras já escritas neste blog, noutro contexto
L 1 At 6, 1-7; Sl 33 (34), 1-2. 4-5. 18-19
L 2 1Pd 2, 4-9
Ev Jo 14, 1-12
Da natureza ao espanto da criação humana, das enormes coisas à beleza do insignificante, tudo pode ser deslumbramento impactante e agradecido. Esta beleza que esmaga, a da natureza e a da vida, ajudam-nos e inventar esperança e a fazermos do mundo um lugar onde muitos mais outros possam fruir da beleza.
Suponhamos um qualquer desejo. Uma das condições que nos coloca na livre indiferença em relação a esse desejo é elaborar assim, em quase-contra-natura: “se estou pronto para, diante desse desejo realizado, ficar igualmente plano e inteiro, aconteça o que acontecer, então estou ‘espiritualmente pronto’ para o receber”. É nesta linha que se percebe a radical importância de trabalhar o receber na vida espiritual. Esticando a corda, face ao desejo da vida, pode ser caminho morrer, já, por amor. Assim preparado para morte, se recebe em plenitude a vida que vem.
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Jo 20, 19-23
«a paz esteja convosco»
Em tempo de Pentecostes os cristãos celebram o Espírito Santo. É a transcendência amorosa que sopra no tempo e no espaço. Seria (quaisi) panteísta identificar o Espírito Santo com a realidade, mas, por outro lado, vemos muitas vezes entendimentos etéreos de desproporção mística e (auto) engano, que fomentam uma esquizofrenia entre o corpo e o espírito, entre o transcendente e o imanente. Ora o que liberta e confere a Paz que Jesus quer dar é a integração amorosa das coisas e das essências, do Espírito que flui e que se torna vida real e concreta em nós. A Paz é desejo e Espírito mas vale se for real. Ela – a paz – está por construir e as nossas mãos são necessárias.
Este texto é adaptado em parte ou na totalidade de palavras anteriores já publicadas.
L 1 At 2, 1-11; Sl 103 (104), 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34
L 2 1Cor 12, 3b-7. 12-13 ou (própria do Ano B): Gl 5, 16-25
Ev Jo 20, 19-23 ou (própria do Ano B): Jo 15, 26-27; 16, 12-15
Diz bem Javier Melloni quando sintetiza: “A palavra Deus não é Deus”. Esta indizibilidade de Deus dá força à mística que importa e fragiliza – positivamente- a instrumentação das religiões.
O tempo partilhado abriu-nos portas e abrir é sempre o que importa.
O tempo partilhado trouxe-nos como somos, cada um e com raízes no mundo.
O tempo partilhado mostrou-nos também frágeis e com limites, o que desde logo nos salva da heteroidolatria e da ‘guru-mania’…
O tempo partilhado apontou-nos novas formulações mas uma rendição clara, hoje e amanhã, à salvação do esvaziamento na ‘não palavra’.
O tempo partilhado deu-nos vida, que apenas agradecemos e devolvemos ao cosmos com a transparência que podermos ser!
Sugiro a mim mesmo, enquanto crente, não me preocupar com a evolução da fé no sentido analítico do termo, mas, tão só, com fruir o amor que paira…
Às vezes sinto-me convocado a rever a minha própria “excitabilidade” face a certos desafios. Para que se reoriente não para o simples fazer, mas antes para o “fazer bem” e o “fazer com amor”…