As razões da minha fé

 As razões da minha 

Às vezes penso que só creio porque não sei não crer.
De facto, para começar esta reflexão sobre “as razões da minha “,
devo assumir as minhas fragilidades e a minha carência. Daqui nasceu
(e nasce) uma procura inacabada.

Ter , acreditar, é apoiar-me num Deus que acolhe e dá sentido maior
à minha vida. Mas que Deus é este? Deus é também o indizível e há
limitações semânticas para o alcançar com palavras. As “razões da
minha ” (aspas deliberadas, porque são mais do que razões),
encontram-se na história e na minha história, no tempo que passa e no
futuro que saboreio por acreditar. Este futuro com sentido dá luz
maior ao meu presente. Viver acreditando, usando linguagem de uma
geração à frente da minha, é curtido à brava.

Acho que consigo mergulhar no passado e no meu passado, vasculhando
algumas das raízes do meu acreditar. Se a  e a vida se jogam no
tabuleiro da cabeça, do coração e das mãos, metáfora para as dimensões
racional, afectiva e de acção, no meu caso, foram as mãos que
“salvaram”. Por volta dos meus dezassete anos entrei em grande crise
existencial, com perguntas complexas sobre mim, sobre o mundo e sobre
as minhas relações com os outros e com o cosmos. Conversei com muitos,
comigo próprio, escrevi e procurei. Não alcancei pensando. Tive luz
particular quando um dia de manhã, meio desesperado na procura, decidi
aproximar-me de alguém excluído, dando-lhe a minha compreensão, o meu
tempo, as minhas mãos. Fixo esta experiência com a aproximação
possível a uma “definição” de Deus: Alguém que se revela no amor, na
relação. Deus é amor. Eu precisei de outros para saborear o sentido de
acreditar. Certo é que comecei a viver como se o amor fosse o filão de
tudo, o antes, o durante e o depois da minha história e da humanidade.
E a minha vida ganhou sabor, intensidade e coerência.

As referências inspiradoras para esta mudança foram-me dadas pela
Igreja, que me “falou” de Alguém que vivera cerca de dois mil anos a
esta parte, nascera numa manjedoura e marcara a história (com as suas
mãos), vivendo e propondo um estilo de vida simples, polarizado num
incondicional amor a um Deus-amor, que se manifesta paradoxalmente
numa vitória da vida sobre o sofrimento e a morte. Jesus Cristo teve
amigos que foram seus discípulos e depois apóstolos de uma Igreja que
tomou raízes no tempo e chegou pelo tempo até mim. Devo dizer que nem
sempre a Igreja me apresentou (ou eu não vi) uma imagem de Deus
positiva, coerente e possível. Mas no essencial fui conseguindo
apoiar-me nos aspectos mais urgentes da mensagem, redescobrindo
novidades e aproximando-me dos estilos e linguagens mais sintonizados
com a minha procura. Sem perder o sentido crítico, fui aderindo e
comprometendo-me com a Igreja de Jesus Cristo, neste tempo e neste
contexto cultural que sou. Acabava por ir sendo, vestido com os meus
limites, um vivente, um discípulo e um apóstolo de Jesus.  O
compromisso libertara-me. Mas há um jogo de risco no acreditar, que se
repete todos os dias. Digo a mim próprio, muitas vezes, que inventei e
invento um Deus que não consigo “agarrar”, vivo como se Ele existisse
e descubro, com as mãos, que o que eu invento, afinal, existe e sempre
lá esteve, pacientemente à espera, de “graça”…

Não se tendo alcançado a  pela razão, não significa isso, de forma
alguma, que a  seja irracional. A edificação do meu acreditar
centrou-se na vida e numa entrega essencialmente afectiva onde a
racionalidade, sempre presente, se deixou colocar ao serviço da causa
maior, apriorística e essencial do amor. Aí posso admitir uma
limitação em relação a outros amigos não crentes que, numa primeira
análise, poderão ter uma maior “liberdade” de pensamento (dou de
barato que, para alguns, estou viciado à partida): por necessidade,
por limitação, por carência, por experiência de sentido, deixei-me
embriagar pela convicção, pelo risco, pela ideia de existir um Deus de
amor que está antes, durante e depois de tudo. Viver assim é bom e eu
rendi-me!

Utilizo a razão e a inteligência para lubrificar as minhas buscas e
relações. Com todos os pensamentos “embrulho” sistemicamente o meu
coração e as minhas mãos no tempo que passa. Este Deus (de amor, como
preciso de insistir) é de gerúndio: vai-se revelando, sem nunca se
poder possuir. Há uma dinâmica de mistério, de incompletude. Deus é
“já” mas sempre “ainda não”. Mas este futuro por descobrir dá um sabor
interessante à minha liberdade.

Dilemas como a teodiceia (a equação de Espinosa e de tantos outros)
são desafios constantes à minha razão. Como entender um Deus
omnipotente e associado a amor, que, podendo poupar os homens, permite
o sofrimento e a morte, aparentemente errática e sem sentido. Talvez
não seja para entender mas para ir entendendo, ou talvez para ir
vivendo. Talvez Deus seja “omni-impotente”, expondo-se frágil e não
impondo-se poderoso. Talvez este dilema encerre como um tesouro o
melhor formato da nossa liberdade. Talvez outras coisas que posso
descobrir…

A Igreja, que sou eu e os outros e não só nem essencialmente uma
instituição, tem um potencial para ser fonte de Deus. Nem sempre o
foi, nem sempre o é. Mas Deus, convém dizê-lo em explicitação
ecuménica, é maior do que a Igreja. Tenho para mim muito claro, que na
suposição imagética da barca de Gil Vicente para entrar no paraíso,
ninguém me perguntará, para escolher o meu lugar na vida eterna, “a
quantas missinhas fui”. O Evangelho, aliás, já estabeleceu “as
perguntas”: tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de
beber… (Mt 25, 34-36). Esta pergunta, claro está, é para responder com
a vida do agora e do aqui. Os aperitivos do paraíso jogam-se desde já
e o “prémio” (como o nosso “inferno”) são deste tempo, naturalmente. O
que vem depois é a consequência natural das escolhas e das apostas do
nosso tempo presente…e sobre isso a misericórdia de Deus pode ter
universais e desconcertantes surpresas. Eu vou à missa porque acredito
e experimento que essa celebração da paixão de Jesus alimenta, em mim
e nos outros com quem comungo a , a “loucura” de viver o Evangelho.

O sonho de Deus é uma festa. Uma festa que se vai fazendo mas que está
por universalizar. Sinto (diz-se ser uma graça – dada gratuitamente)
que eu, como cada homem, somos feitos à imagem e semelhança de Deus.
Podemos tomar como nosso o Seu sonho de festa. A nossa missão é
encontrar sentido em ser pedras de uma construção comum, um mundo
melhor. Nunca ninguém fez boa festa sozinho. Por isto Deus não tem
mãos e as minhas, as tuas e as de todos, são as Suas mãos. É esta a
“razão” da minha !

Porto, Março’ 2010

JP in Espiritualidade Textos 14 Agosto, 2020

A Igreja dos pobres que (ainda não) sou

J. C. Paiva, A Igreja dos pobres que (ainda não) sou

Site PontoSJ (que se recomenda…). 27 de maio de 2020.

Disponível na íntegra abaixo:

A Igreja dos pobres sempre me fascinou. O início da Igreja é feito de pouca coisa, qual pobreza. Nas suas inquietudes e escapatórias, sem querer ser historicamente minimalista, são sobretudo os desvios dessa pobreza que descaraterizam a seiva da Igreja. Também nos nossos tempos, os legítimos olhares mais duvidosos sobre a Igreja fitam as suas riquezas. E eu próprio, quando me olho mais criticamente, como cristão, vejo falta de pobreza.

1- O que será a pobreza?

A palavra ‘pobreza’ está quase gasta, entrecruzada erraticamente nas suas dimensões pessoal, espiritual, cultural, social e política. Há várias pobrezas, dentro e fora de nós. A falta das necessidades mais básicas, como aquela de comer, é um rosto de pobreza que não podemos escamotear. Neste mundo, agora mais pequeno e ligado, continua a ser aviltante haver um qualquer habitante do planeta que não tenha o que comer. Enquanto isso acontecer, nenhum de nós pode estar descansado. Comer é necessário mas não suficiente para se ser livre. No seu poema cantado “liberdade”, Sérgio Godinho diz bem: “Só há liberdade a sério quando houver: a paz, o pão, habitação, saúde, educação”. Neste sentido, a promoção concreta das condições de vida de todas as pessoas, nestas diferentes áreas, são o nosso combate à pobreza. Há uma dimensão de pobreza mais profunda, que ultrapassa o pão mas que só é conquistável por quem tenha um mínimo de pão: chamamos-lhe pobreza espiritual. É uma bem-aventurança de abertura em crer para nada querer. Percebe-se bem naquele conto oriental segundo o qual um mendigo pediu a uma pessoa de posses que lhe desse algo. Essa pessoa deu-lhe tudo o que tinha. No dia seguinte, o pobre voltou e retorquiu: “ensina-me a ser como tu. Dá-me a riqueza de que eu preciso, que é a capacidade de dar tudo o que tenho, como fizeste ontem comigo”. Compreendemos bem que haja gente (e as duas gentes dentro de cada um de nós…) que seja rica-pobre e pobre-rica…

2- A pobreza nos evangelhos

Há extensa bibliografia sobre este assunto mas talvez se consiga uma síntese consensual sobre a forma acolhedora, provocante e libertadora como Jesus se dirigia às pessoas. Todas elas carentes, frágeis, desejosas de algo mais. Todas elas, pobres, como nós. Os pobres do Evangelho são, pois, a mulher adúltera, o amigo traidor, o cobrador de impostos, o cego e a sua família, os convivas das bodas de Caná, o coxo e o paralítico, a mulher viúva e a samaritana com sede, a multidão com fome. O desfecho com os famintos pode inspirar-nos na resposta à pobreza, como Igreja: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc 6, 37).

3- Uma pobreza que esmaga

Face à pobreza e à injustiça, ao que falta de amor no mundo, sinto-me tremendamente esmagado. Esta pressão tem dois sentidos, que apertam ambos o meu coração: a compaixão evidente por aquele que sofre e a minha própria dor pelo pouco que dou. Para estas entaladelas, ajudará a paciência, a perseverança da fé e a consequente ação. Não há outra resposta à chaga que não seja tocar-lhe. A insuficiência da minha doação aos pobres tem, aliás, algo parecido com a epistemologia da ciência e não só: quanto mais descobrimos, mais ignorantes nos encontramos, como se tentássemos alcançar uma linha do horizonte, que sempre se desloca adiante… Com a caridade, palavra desgastada mas que vale como sinónimo de amor, e particularmente amor aos mais pobres, acontece algo de parecido: quanto mais se dá mais se constata o que falta dar… Há pois um equilíbrio dinâmico a empreender, importante mas difícil, entre: a) assumir o que falta como luta face à pobreza, realizando concretamente a partilha (de bens, de tempo, de presença, de nós mesmos…); b) constatar a nossa insuficiência senão mesmo certa mediocridade neste combate; c) resistir sempre a ficar no sofá, excessivamente adaptado à complexidade do problema e às limitações próprias da ação. Há um certo conforto, também ele evangélico, que podemos valorizar a partir do pouco que fazemos; faz-se muito do pequeno: do grão de mostarda, da migalha, da moeda modesta, do cesto do pão…

4- Não perder de vista que a austeridade escolhida é uma burguesia

Aprecio e tento praticar a chamada economia da frugalidade, que nos aponta Serge Latouche. Mas há que registar que nós, deste lado do mundo, com comidinha à mesa e banho quente, podemos melhor fazer este caminho. Não posso pedir a um menino que vive de colheita de plástico em lixeiras da Indonésia que seja frugal, nem a um habitante de uma favela brasileira que não deseje fortemente ter um carro bom. Posso ser mais pessoal nisto: fui conquistando certa austeridade escolhida, mas tenho um salário garantido. Abrandei radicalmente o turismo longínquo, também a pensar no ambiente… mas já conheci muitas cidades em quase todas as latitudes; não tenho no meu horizonte trocar de veículo de transporte, mas já me fartei de andar em dunas com uma mota de boa cilindrada Honda Transalp; evito ir a restaurantes… mas já fui muitas vezes comer fora, etc, etc. Por isto mesmo, não me escandalizo com as pessoas que, tendo rendimento mínimo garantido, tomam o pequeno almoço fora… Claro, para elas é excepcionalmente bom, o que para nós seria criticamente ordinário… A sua pobreza pode não ser nem só nem principalmente de pão… mas é pobreza e pede a nossa entrega e a nossa criatividade. Compreendem-se bem os padres da teologia da libertação que, apesar dos conhecidos exageros de tal movimento, tinham muita razão cristã quando invocavam uma máxima a ter em conta: ao oferecer o pão da eucaristia, tenho que oferecer também pão a quem não o tem para comer.

5- Creio na Igreja, vou à Igreja, estou na Igreja ou sou a Igreja?

Quando rezo o credo, na esperança de não estar em heresia (…), faço uma auto-atualização que me confere mais sentido. Digo que creio em Deus, em Jesus, no Espírito Santo e que… creio em Igreja. Uso deliberadamente este ‘em’ (em vez de ‘na’), para sublinhar que a Igreja é o lugar onde me situo para viver as crenças vitais na trindade. Esta pertença assim dita não me desmobiliza e penso poder até evitar a idolatria institucional acrítica ou o “picar o ponto” num dinamismo desresponsabilizante. Pelo contrário, diria, pelo menos em desejo, quero trazer à minha relação com a Igreja certa ontologia e, por isso, ser Igreja, encoraja-me neste dom de ser um ordinário batizado. E se a Igreja é o lugar onde creio, se vivo em Igreja, esta é a Igreja de todos os que nela caminham e, por isso, é a Igreja dos pobres, que vivem em comunidade e celebram a alegria de se quererem partilhar, partir, comungar, ser pão para os outros… A Igreja será também o lugar onde a caridade aos mais pobres se exerce coletiva e comunitariamente. Se a salvação espiritual não é um caminho solitário, é o povo de Deus que reza “Pai nosso” e não “Pai meu” que dá pleno sentido à Igreja e, portanto, ser Igreja é co-laborar em conjunto no alívio dos mais necessitados. Somos ainda, tipicamente, “fraquinhos” cristãos de hospital de campanha, comparados com a mobilização celebrativa e outros apelos e manifestações…

A constatação de que eu próprio sou um medíocre e tensional praticante da caridade, leva-me ao desejo de uma relação mais humilde (mais verdadeira) e mais obediente (capaz de escutar outras sensibilidades) com esta Igreja que sou. Com efeito, querendo manter a lucidez crítica, não posso deixar de ser moderado e misericordioso no olhar que estendo aquilo que falta à Igreja (…que sou, repito). A este nível da encarnação da pobreza a que somos chamados, somos também todos… pobres. Desejo evitar certo tom de protesto obsessivo pelo caminho que falta e dar eu próprio os passos possíveis, denunciar construtivamente, dar sugestões alavancadoras, fazer provocações que mobilizem…

6- Opção preferencial pelos pobres: uma escatologia

Não haverá outro devir mais livre e pleno, para cada um de nós, do que aquele de ser pobre e de preferir os pobres. No seu sentido mais amplo, ser pobre é ser de mãos vazias. Ser pobre é ser livre e livre para a doação. Há que equilibrar a aspiração à pobreza espiritual mais profunda (que só se consegue, me parece, com recolhimento e oração) com a atenção concreta e quotidiana aos francamente mais próximos.

Há pobres mais distantes, face aos quais algo podemos fazer mas cuja pobreza envolve complexidades enormes. Muitas vezes matam à fome as malhas políticas, militares, tribais, diplomáticas, etc. Por isto, estudar e depois exercer eticamente artes como o direito, a ciência, a economia, a medicina, a arte, as humanidades, a educação, a prática política, etc., podem e devem ser feitas com vista a minimizar a pobreza dos homens.

Estar sempre do lado dos pobres é o sítio da Igreja e, por isso, de cada um de nós. A opção preferencial pelos pobres tem de ser concreta. Tanto pode ser ir para um país distante em missão como comprar preferencialmente marcas de produtos com selos de garantia de não exploração, mesmo que mais caros. Pode ser preferir desenvolver um projeto de investigação científica que otimiza medicamentos anti-maláricos em vez de apostar na ciência que crie novos produtos tecnológicos que só sirvam para alimentar superficialidades do ocidente.

Vale a pena ser Igreja para ser pobre porque só o pobre pode partilhar. A sensibilidade à pobreza e a solidariedade são mandatos humanistas e universais. As metodologias são diferentes e o nosso distintivo, apesar de alguma luta, é o primado da aceitação da vida como um dom. Estar em missão para alimentar a prontidão de acolher a riqueza do tempo, do espaço e do outro é um privilégio. É o que nos espera, esta disposição para coisa nenhuma e, assim, para tudo. A pobreza é para erradicar. Tocaremos amanhã esta plenitude que, agora, aperitivamos: já… mas ainda não!

JP in Textos 28 Maio, 2020

A saudade da missa é estruturalmente insuficiente

J. C. Paiva, A saudade da missa é estruturalmente insuficiente. Site PontoSJ (que se recomenda…). 10 de maio de 2020.

Disponível na íntegra aqui

Uma declaração de interesses prévia que, mais do que me colocar em ângulo menos suspeito, previna eventuais retiradas de frases ou ideias fora de contexto, que pervertam a mensagem que gostava de passar: como cristão, faz-me falta celebrar a eucaristia em comunidade; reconheço na celebração da missa uma oportunidade notável de congregação de fé; não entendo, nesta linha, que esta “quarentena missal” deva implicar qualquer desvalorização da eucaristia (pelo contrário…). Porém, algumas perguntas se me colocam…

1- Desejar e agradecer o regresso à missa com que horizontes?

Posso estar a exagerar mas, nem sei bem porquê, imaginei uma festa de alguns em agradecimento a Deus pelo regresso da missa, como os antigos dançavam, aplacando a ira dos deuses tiranos e mandatórios, em festa pela vinda da chuva… Em todo este processo de confinamento, como de resto já era na nossa vida, há desafios notáveis para resignificar constantemente as nossas imagens de Deus. Não sei se levamos a sério o risco de Deus em nós, na nossa liberdade e no pulsar do mundo, o Seu mistério amoroso de omnitransformação, que recusa caprichosamente marionetar o tempo e o espaço. Até admito a mim próprio agradecer a Deus o regresso da missa, quando chegar o tempo oportuno, em segurança sanitária e na mais elementar alteridade humana… e por isso também cristã. Mas, no meu caso, sinto um apelo a agradecer-Lhe este tempo que estou a viver, de desafio para um crescimento, pessoal e comunitário, numa Igreja em caminho. O que teve, tem e terá a dizer-nos esta experiência de não poder celebrar a partilha de um pão tão especial?

2- A ausência da missa é crucifixão?

Temo certa visão e vivência destas privações sacramentais como cruzes flagelantes a suportar. Não serão antes oportunidades de re-velar um sempre novo Cristo que espreita? De rever a nossa posição mais ou menos rotineira face às potencialidades dos sacramentos, que importa serem sempre novos? O Evangelho é Boa Nova e este Espírito novo que sopra não meteu férias com medo do vírus. Está aí, a soprar e a inspirar, a provocar e a co-mover. Voltar ao que era é sempre curto, recuar apenas não é o estilo de Jesus. Não será a privação sacramental, mais do que uma crucifixão, uma Páscoa que se adivinha para um novo renascimento? Não será claro o convite, mais do que a saudade pela saudade, a saber estar numa Igreja vazia (como o Papa bem mostrou)?

3- Haverá espaço para a diversidade celebrativa e para a Igreja doméstica?

O que nos tem trazido este tempo, enquanto crentes Católicos Romanos, é um desafio concentrado de provocação nascida há seis décadas de dentro da nossa Igreja, fruto de um fecundo discernimento eclesial de síntese de toda a tradição: sermos Povo de Deus em caminho. Os convites a certa desclericalização estão aí para quem os quiser ver e viver. Nasceram em cada casa, como cogumelos, verdadeiras igrejas domésticas, capazes de viver e celebrar Cristo no seu seio. Reinventaram-se rituais plenos de significado e de sentidos entre os mais próximos de cada habitação. A Alegria do Evangelho pode verter-se no cuidado da Casa Comum, em cada lar, precisamente através do tesouro que é a Família (e varro uma tríada de importantes escritos de Francisco…). Temos ainda algum caminho para andar mas estão a ser muitas as sementes colocadas na terra para gerarem, finalmente, batizados que, por o serem, são sacerdotes por Cristo, com Cristo e em Cristo…

4- Será de rever os ‘mandamentos da Igreja’?

A expressão ‘mandamentos da Igreja’ nunca foi da minha simpatia. Entendo melhor os mandamentos de Deus mas, mesmo esses, potenciados pela mediação eclesial, são tateamentos comunitários e pessoais muito complexos. Sempre preferi propostas a imposições. E é aqui que pode colocar-se em cima da mesa uma nova pedagogia eclesial: mais centrada na proposta a batizados responsáveis do que na deliberação dirigista. A exigência cristã é evidente mas ela há-de ser subida (ou descida?…) sempre e apenas se, for andaimada pela consciência pessoal exigente e interiorizada. Nos rituais como na moral, a fasquia não pode rastejar, mas pode se proposta em vez de imposta, porque assim fazia Cristo. Poderão dizer-me que sem regras e normativos entra a balda e a excessiva personalização. Não nego esse risco mas prefiro corrê-lo em detrimento do seguidismo cego e forçado. Queremos, será que queremos, que alguém vá à missa porque tem que ir? Não merece aquele altar da radical partilha do pão gente mais automotivada?

Há uma tensão evidente entre a riqueza da interioridade e a banalização da exterioridade, onde se podem inserir certos rituais, também religiosos. Este tempo de privação sacramental é uma clara purga de exterioridades, um convite à interioridade com Cristo, na nossa profundidade pessoal e coletiva, brotando da nossa sede e da interfragildade, que já existia, mas que o covid19 enalteceu. Todos sabemos do perigo da exterioridade das cerimónias e, portanto, da sua possível esterilidade. Ir à missa e ficar na mesma, sem crescimento interior, é o que não queremos nem cremos, como crentes em caminho.

5- Só uma Igreja que caminha com os mais pobres nos pode galvanizar

Só a Igreja dos pobres nos pode interessar. O Papa Francisco, a começar pelo nome que se deu, anda a semear. Tudo o que esta pandemia enalteceu foi o grito dos mais frágeis, que convocou universalmente todos os homens de boa vontade no planeta inteiro. Se somos todos frágeis, se somos todos buscadores, se somos todos pobres, pois a Igreja é dos pobres. Enquanto houver gente a sofrer, sem pão e sem amor, será tal a nossa inquietação aguda, a nossa mobilização central. A missa, é para nos fazer sair da missa em missão com os mais pobres, onde nos incluímos. Esta pandemia trouxe para a ribalta a atenção aos últimos, aos mais velhos, aos dos países mais vulneráveis, aos que clamam. O pão que se parte e reparte na missa é a fragmentação que nos parte o coração mas que, ao mesmo tempo, nos fascina pela agudeza da dádiva radical. É a celebração que nos impele a acudir aos mais necessitados. Essa, é, sem dúvida, a saudade do futuro que nos falta!

JP in Espiritualidade Textos 12 Maio, 2020

Teletrabalho em pós-pandemia: uma verdadeira oportunidade para o b-work

Artigo saído no Público a 28 de abril de 2020

Leitura direta em:

https://www.publico.pt/2020/04/28/opiniao/opiniao/teletrabalho-pospandemia-verdadeira-oportunidade-bwork-1914066

Há um conceito no jargão educativo que nos poderá ajudar a situar: blended learning (b-learning). A palavra blended (mistura) tem origem na junção de líquidos em sede de fabricação de whisky. Do ponto de vista do ensino-aprendizagem, há muito que se reflete e vai praticando a salutar mistura entre dinâmicas presenciais e atividades mediadas digitalmente. Esta pandemia forçou práticas (ou aproximações) de e-learning “puro”, que poderão vir a constituir rotinas de boas e equilibradas misturas, adiante, nas nossas escolas e universidades.

Do ponto de vista laboral, a circunstância atual precipitou dinâmicas de teletrabalho, que surpreenderam muitos trabalhadores, patrões e organizações.

A retoma gradual das condições sociais e laborais trará excelentes oportunidades de blended-work (b-work), mistura de trabalho em casa, mediado teledigitalmente, com trabalho presencial, num local de congregação organizacional. Face a estes desafios, convém ter em conta:

1. Sem autonomia responsabilizante não há bom teletrabalho…

É preciso que se abandonem as lideranças infantilizantes, que não confiam nos colaboradores e insistem nas práticas de gestão focadas na monitorização instrumental, senão mesmo em certo policiamento. Há que delegar, confiar e avaliar, pedindo responsabilidade e medindo produtividades.

Donos de empresas e líderes de organizações podem e devem ampliar as suas práticas e corrigir alguns vícios, gerando mais confiança e menos controlo, no sentido estrito do tempo. Todos nós nos apercebemos de pessoas que se deram muito bem com as práticas de teletrabalho nesta crise, mantendo os níveis de produtividade e, em muitos casos, ampliando-os.

2. Cada trabalhador é um caso…

O pior que poderia acontecer a um processo de abertura a b-work era industrializá-lo. Na verdade, cada caso é um caso. Haverá perfis que se não dão com o teletrabalho: conheço casos, principalmente no feminino, que preferem separar as águas e viver no regime ‘trabalho é trabalho, casa é casa’. No outro extremo, existem pessoas que se dão maravilhosamente com o trabalho a partir de casa: são gente normalmente muito metódica e organizada que concilia e alterna com tranquilidade os planos laboral, familiar, doméstico e quotidiano. Depois há situações híbridas, que preferem precisamente a mistura e se dariam muito bem com esquemas mistos um, dois ou três dias em casa e o resto na organização, fisicamente. Poder-se-ia ainda colocar a questão dos trabalhadores, funcionários públicos e não só, a quem se não vê perfil de autonomia, com tendência para o ser esguio e irresponsável, do tipo quanto menos melhor. A questão é complexa mas poderemos especular que um encostado será sempre um encostado, presencialmente ou virtualmente. E pode haver surpresas de produtividade, se não no curto prazo, no médio ou longo, ao ensaiar confiança a quem aparentemente não a merece.

3. A ocasião gerou competências novas

Não há qualquer dúvida que o confinamento gerou competências que pareciam adormecidas. As questões técnicas facilitaram-se: troca de ficheiros e manipulação digital, plataformas de reuniões como o Skype ou o Zoom, autoaprendizagem de procedimentos processuais e buscas em ambiente virtual, etc. Advinha-se melhor ainda com possíveis benfeitorias técnicas (largura de banda, sistemas áudio e vídeo, etc.). Por outro lado, houve também uma autopromoção da gestão dos tempos e de muitos procedimentos de autodisciplina de cada um dos cidadãos retidos em casa (turnos para gestão doméstica e de tomar conta dos filhos, necessidade endógena de rotinas, etc.).

4. É preciso portas abertas, do lado da legislação e dos políticos

Nada será possível sem um quadro legal (também ele mais aberto a dinamismos de confiança nas relações laborais) e sem incentivos políticos a estas oportunidades. No funcionalismo público, em particular, as chefias precisarão de lastro legal para ampliarem as suas delegações, como, de resto, aconteceu, no sentido amplo, durante esta pandemia. Também os sindicatos poderão participar nesta abertura, quer pela via de colocarem o assunto na agenda, quer também se compreenderem que o b-work, não implica uma total desregulação e terá de manter claros, a par dos direitos, os deveres dos trabalhadores, agora em formatos mais flexíveis.

5. Oportunidade de alívio na pressão urbana

Há consequências óbvias de alívio de alguma pressão urbana. Desde logo no trânsito (imagine-se Lisboa ou Porto sem um terço do tráfego ordinário…). A ponderar, também, a diminuição de emissão carbónica, de acidentes, de tensões no quotidiano social. Poderia haver condições para habitar zonas mais rurais, ou nas cinturas urbanas mais distantes das grandes cidades ou mesmo em regiões absolutamente interiores, se a componente laboral digital assumida fosse em grandes proporções. Oportunidades de regresso à Terra, no melhor dos sentidos.Trabalhadores mais felizes e emocionalmente equilibrados produzirão mais e melhor, deprimirão menos e ampliarão os potenciais de identidade e corporeidade das organizações. A sociedade será melhor e mais justa…

6. A vida pessoal e as dinâmicas familiares podem agradecer

Todas estas circunstâncias possibilitam igualmente uma revisão e uma requalificação de muitas relações (do eu com o eu, do eu com o tu e do eu com os outros). Como bastantes pessoas foram ensaiando nesta quarentena (porventura não desse logo, no início, mas gradualmente), o teletrabalho tem um potencial de otimizar momentos e encontros vários…

Por isto mesmo a produtividade tem de ser vista num nível mais profundo, que contemple mas ultrapasse a mera métrica contabilística do número de objetos produzidos. Trabalhadores mais felizes e emocionalmente equilibrados produzirão mais e melhor, deprimirão menos e ampliarão os potenciais de identidade e corporeidade das organizações. A sociedade será melhor e mais justa…

Está nas nossas mãos, enquanto sociedade, aproveitar para inovar estilos de vida e de trabalho. Há que concretizar a máxima, muito badalada mas nem por isso banal: fazer de uma crise uma oportunidade.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

JP in Textos 30 Abril, 2020

Coronavírus, disciplina e liberdade

J. C. Paiva, Coronavírus, disciplina e liberdade. Site PontoSJ (que se recomenda…). 02 de abril de 2020.

Disponível aqui

Neste retiro forçado a que estamos sendo sujeitos, pode inspirar-nos quem, voluntariamente, escolheu viver em clausura. Penso nas ordens conventuais e permito-me, por analogia realista, estabelecer algumas pontes. Face ao momento que vivemos não deixamos de ser procurantes radicais de liberdade, principalmente daquela liberdade interior que francamente liberta. A disciplina, bem vivida, estrutura a nossa liberdade.

1- Escolher o que a realidade impõe

Há uma máxima que sempre me seduziu e que serve como uma luva nos tempos que atravessamos: “é melhor querer o que faço do que fazer o que quero”. Neste sentido, acolhendo o recolhimento, por imperativos éticos e cívicos elementares, estamos a ensaiar liberdade. É verdade que o fazemos como milhões de cidadãos no mundo, mas escolher aceitar é desde logo uma resignificação e um subsídio de liberdade. Nos conventos, em particular, se perceberá internamente que a obediência é uma expressão de liberdade. Mas, fora do dinamismo monástico, podemos também entender e viver que obedecer (à realidade, como ela é) se confunde com a nossa própria liberdade interior.

2- As rotinas como escolas de vida

Dentro de um convento as regras são uma pauta fundamental. A nossa vida já se alimentaria de rotinas e regras mas, agora que estamos mais tempo e mais juntos em casa, esse pulsar é ainda mais vital. Algumas sugestões, em tempo de recolhimento intenso:

a) Marcar horas no dia e tentar (melhor, fazer por) cumprir para: acordar, deitar, refeições, exposição a notícias, leitura, estudo, permanência em redes sociais, filmes, acesso a telemóvel e computador, exercício físico, oração, tempo (francamente) livre, etc.

b) Fazer algum planeamento semanal de coisas como menus das refeições, visualização de filmes, arrumações, trabalho, alimentação espiritual (meditação, missas on line, leituras dirigidas), etc.

c) Respeitar o outro na sua liberdade, incluindo na sua fragilidade face a algumas regras e dificuldades. Mais ainda, quando, por feitios divergentes ou outras incompatibilidades interpessoais, não for possível partilhar as mesmas rotinas, criar alternativas e variantes de algumas regras, sem nunca perder de vista a importância de um tempo comum.

3- A atenção como virtude maior

Mais do que uma regra inspiradora, a atitude contemplativa é um estilo de vida nos conventos. Contemplar, numa aproximação mística, pode apontar para ver um tapete não tanto do seu avesso, com os nós e reticulações estruturais, mas antes do lado da harmonia e da beleza do resultado. Uma certa mística da atenção pode ser muito favorecida nestes tempos com mais tempo. Notar o cheiro do limão, valorizar a textura dos alimentos que se preparam, reforçar o sabor do que se come, olhar atentamente as ofertas da natureza. O treino desta atenção, reconfortante, por si só, pode constituir-se numa disciplina.

4- O recreio obrigatório

Não confundir disciplina com produtividade e, pelo contrário, valorizar o ‘inútil’. Por isto mesmo, mais do que em época normal, significar e não abdicar de momentos largos de sentido lúdico, como dançar, ouvir música, jogar, conversar. Como nos conventos, o recreio não é facultativo…

5- A meditação como possibilidade

Mesmo para quem não tem prática religiosa, a meditação tem vindo a apresentar-se como uma ginástica espiritual muito útil. Há técnicas e inspirações mas um ingrediente fundamental, também ele muito sagrado nos conventos, é o silêncio. Procurar espaço e tempo de silêncio pode ser uma rotina com muitos benefícios. Nesta fase da nossa vida podemos aprender melhor a encontrarmo-nos connosco mesmos e com uma Presença crucial. Podemos, também, aprender a saber estar sem fazer nada…

6- Avaliar com a grelha tensional disciplina/liberdade

Há que fazer um esforço por ir avaliando a nossa disciplina face à disciplina… Aferir, precisamente, a forma concreta como cumprimos ou não o que estabelecemos e, principalmente, se esse cumprimento foi realizado em liberdade interior e se nos levou à liberdade… O exame de consciência, prática ritual em algumas espiritualidades, que não dispensa o registo do que se acertou, pode ser um bom caminho.

Ao mesmo tempo, quase que paradoxalmente, ter rotinas, agendamentos e planeamento, é compatível com a mais radical abertura a imprevistos. Também por isto se diz que “as regras são para quebrar”, ainda que tal deva acontecer não tanto por fraqueza de persistência e vontade pessoais mas por “convite” dos acontecimentos e da própria liberdade dos outros.

7- A complexa metáfora educativa

Daria uma outra reflexão, e longa (…) o dilema de jogar a tensão disciplina/liberdade no processo educativo. A criatividade, a persistência e principalmente a paciência são pedidas em escala intensa diante de filhos em dinamismo educativo, seja qual for a sua idade. Valerá a pena um esforço grande em propor em vez de impor. Reservar a dose menor possível de imposição será um bom caminho, ainda que, em muitos casos, quando se belisca a liberdade de terceiros ou a própria segurança pessoal das crianças, tenha mesmo que ser… Há que envolver todos os membros da família no estabelecimento e ajuste de horários e regras para que a disciplina, tendo sido participada, possa ser escolhida, vivida e avaliada como uma alavanca de crescimento para todos.

Às crianças e jovens, em particular, podem ser proporcionadas novas jornadas alternativas, que conjugam novidade com rotina e aprendizagem de competências domésticas: cozinhar, limpar, passar a ferro, etc.

Uma referência, ainda, às enormes potencialidades do treino da meditação infantil e do ensaio da quietude corporal, tão preciosos e tão difíceis de praticar no reboliço ordinário, com as agendas das crianças, tipicamente, preenchidas de mais…

Por mais racional e até apetitoso que seja este trilho, disciplinar não é fácil. Melhor, a disciplina, como a vida, é difícil. Mas quem disse que o difícil é impossível? Onde está escrito que o difícil não gera frutos? A fé, terreno oferecido que nos quer como agricultores, é um caminho em movimento. A disciplina, como nos aponta a tradição e a experiência quotidiana, é um dos meios para viver fecundamente todas as fases da nossa história.

PS: Estou consciente que nesta crise há pelo menos três tipos de pessoas: 1) as que trabalham na frente de batalha, principalmente na área da saúde; 2) as que estão em sofrimento particular, ou por estarem doentes, ou por estarem a ser espetadoras do sofrimento de pessoas próximas, ou por se encontrarem em grande situação de contingência emocional, social, económica, laboral, etc; 3) os outros todos, onde me incluo. Esta reflexão é para este último grupo. Para os dois primeiros, além da minha disponibilidade frágil mas criativa, devolvo e ofereço a graça de praticar um silêncio em que os invoco…

JP in Textos 6 Abril, 2020

A ingratidão

J. C. Paiva, A ingratidão. Site PontoSJ (que se recomenda…). 16 de fevereiro de 2020.

Disponível aqui

A ingratidão

Sempre tive certas cócegas com a palavra, a ideia e o contexto psicossocial da ingratidão. Tudo se tem vindo a agudizar dentro de mim, a ponto de entender que este assunto merece uma reflexão escrita que, em tese, é a reprovação da ingratidão.

Vejamos algumas áreas de ingratidão onde tenho vindo a ser ora ator ora espetador, sempre cada vez mais (auto) crítico:

1. A ingratidão na família

Uma boa imagem deste contexto é uma simples frase que quase todos nós já ouvimos, já dissemos ou, pelo menos, já pensámos: “tanta coisa que eu fiz por este filho (ou outro familiar qualquer) e agora ele faz-me isto… que ingratidão”. Desmontemos a ideia. Num nível mais abaixo desta expressão e, principalmente, deste sentir ou modo de estar, mora o problema da expectativa e, em última análise, da não gratuitidade. A pergunta de ricochete é mesmo esta: “fizeste pelo teu filho mesmo?”. Se sim, então é gratuito, não espera retorno e, principalmente, não se cobra!

Tenho dito, a este propósito, que o problema de muitos de nós, sempre e de uma forma ou outra com o papel de educadores, é uma doença perigosa de ingratidão encapuçada, a que poderíamos chamar ‘expetativite aguda’. A bactéria-anzol ataca o próprio e os outros, abafa, gera culpabilidade, oprime e chantageia. É uma infeção que esmaga. Faz adoecer a liberdade e tende a proliferar em iminente contágio.  Para esta doença só conheço o antibiótico da gratidão!

Em dinamismo educativo, convém não confundir, há que estimular a gratidão e, nesse sentido, apenas nesse, importa promover a não ingratidão. Admito até algum treino de condicionamento primário de certa não ingratidão exterior (para começar, mas nunca como um fim). Há que favorecer ou mesmo forçar, principalmente em idades mais baixas, a não ingratidão. Dizer ‘muito obrigado’, por exemplo, é não só muito bonito como vale muito a pena. Pode ser um bom veículo (nem sempre bastante…) para a gratidão profunda, apropriada e essencial, de dar sem esperar receber.

2. A ingratidão no trabalho

Muitas frustrações laborais residem no tempo interior gasto com a ingratidão. “Dei tanto a este escritório, a esta escola, a este hospital…”. Não me cabe julgar os (sempre legítimos e validáveis) sentimentos e emoções de quem não se sente reconhecido. Mas é também mais fundo, precisamente na questão do reconhecimento, que está o âmago da questão. A procura de reconhecimento é estrutural e, de alguma forma, é nosso ADN existencial. Contudo, é capaz de espreitar liberdade naquilo a que poderíamos chamar a ‘consequencialidade do reconhecimento’, em oposição aos gestos e colocações apriorísticas da ‘causalidade do reconhecimento’. Isto é, em meio laboral e não só, talvez haja caminho para que o reconhecimento seja uma consequência (não uma causa) daquilo que faço e daquilo que sou. Se assim for, se me centrar na consequência, claramente se reduz espaço à ingratidão. No trabalho e não só convém insistir na auto-pergunta mestra: “para onde corro e o que me faz correr?”. As colocações que enfatizem o serviço e uma realização por essa via reduzem os terrenos da tentação da ingratidão…

3. A ingratidão na religião

A ingratidão no terreno religioso e particularmente em sede de missão e de trabalho apostólico tem contornos semelhantes aos da família ou do trabalho mas, em certo sentido, é redobradamente injustificada. Aqui não há lugar para a procura de si próprio mas antes para um serviço, ainda por cima um serviço que se coaduna com o nós, muito mais do que com o eu.

Impressiona-me imenso, em cenário religioso, a invocação da ingratidão, seja em que sentido for. Pode ser do tipo “dei tanto a esta casa/causa e agora fazem-me isto” ou “tantas missas e doações, tanta benfeitoria e agora não tenho direito a nada”. Lá no fundo, normalmente muito embrulhado em emocionalidade difusa e ofuscante, está uma compreensível mas rechaçável procura autocentrada de reconhecimento.

Tenho uma visão muito otimista, devo dizê-lo sem ironia, das tensões do tipo eclesial que levam pessoas a aborrecer-se e a saírem tristes e magoadas de certas empreitadas apostólicas, precisamente afetadas pelo que chamarão, elas próprias, de ingratidão. Trata-se de uma revelação positiva para o sistema. É que isso resulta numa purga de gratuitidade e, no serviço de uma causa, religiosa ou outra, não temos muito a ganhar com a participação de pessoas que, fundamentalmente, se procuram apenas a si mesmas.

Poderíamos ainda escamotear a ingratidão na própria oração. De forma sintética, as ingratidões face à transcendência espelham imagens de Deus porventura desfocadas mas, acima de tudo, a projeção pessoal de alguém cheio de si.

4. A ingratidão do outro

Uma última nota sobre o incómodo que nos causa, tipicamente, a ingratidão do outro. Este sentimento pode até ser empático e não autocentrado e é muito frequente nos educadores. Se o meu filho não for agradecido, tenho de reconhecer, até meramente no plano social, que isso me incomoda. Aqui temos de puxar de uma arma cuja a expressão pode ser cruel mas que ajuda: “se o outro é ingrato, problema dele”. Isto é, eu posso propor mais gratidão, como proposta pedagógica de crescimento. Mas não será do meu crescimento interior forçar o crescimento dos outros. Antes importa o que está na minha mão, que é proporcionar o meu crescimento face ao que julgo não ser o crescimento do outro… Há uma redundância deliberada da palavra crescimento, mas isto daria outro artigo…

A ingratidão, contas feitas, lá no fundo, tem uma âncora que nos autorreferencia. É nessa estrada, a da ingratidão, que caminham as pegadas perigosas daquilo que poderíamos chamar uma teologia de mérito, autorreferenciada e sombreadora da teologia que liberta, precisamente a teologia da Graça.

Estava capaz de generalizar (sempre perigoso…) e recomendar a mim próprio uma radical desconfiança da ingratidão. Quase sempre, talvez sempre, soa a ‘mau espírito’…

Arriscaria dizer que, num sentido que deverá ser entendido em contexto, a genuína gratuitidade radica numa questão que atravessa esta reflexão: “o que me devem aqueles a quem eu (me) dou? A resposta libertadora, que demora uma vida a construir é esta e é muito simples: nada!

Qual é o avesso da ingratidão? É, precisamente, a gratidão. Que é, por sua vez, o tutano da fé. Acreditar é apoiar-se na ideia vivível de um Deus que só sabe amar e criar e que resulta numa enorme dádiva. É, portanto, ser gratidão. Isso basta…

PS: Estas ideias seriam mal entendidas, também no plano sociopolítico, se se confundisse o convite à gratidão com a apologia de um qualquer posicionamento passivo, sem espaço para a revindicação e para a denúncia e para a procura da justiça. “Sê grato e amocha”, não é o lema subjacente.

JP in Espiritualidade Textos 20 Fevereiro, 2020

Uma dúzia de notas sobre discernimento apostólico

J. C. Paiva, Ciência e religião: Uma dúzia de notas sobre discernimento apostólico. Site PontoSJ (que se recomenda…). 27 de dezembro de 2019.

Disponível aqui

Esta reflexão resulta, sobretudo, de um processo autocrítico e de alguns ensaios apostólicos relativamente mal sucedidos. Soma-se, claro está, um olhar mais ou menos atento ao que se vai passando à minha volta em certas dinâmicas eclesiais.

Convém, antes de tudo, situarmo-nos em relação ao que é apostólico. Tocados pelo fascínio e sentido de seguir o estilo de vida de Cristo, os Cristãos tornam-se, por assim dizer, Seus amigos, isto é, Seus discípulos. A alegria que gera esta Boa-Nova-vivida é, em si própria, contagiante e não se consegue conter. Talvez seja consensual que ser apóstolo é uma sequência (sobre)natural de ser discípulo. É próprio de ser cristão, portanto, um certo mandato apostólico.

A questão de fundo no dinamismo apostólico é, sobretudo, pedagógica. O dilema apostólico transforma-se, sobretudo, num desafio pedagógico. Em vários movimentos da história, sem excluir alguma perturbação  pendular, assistimos, a par de grandes virtudes, a empreitadas cristãs forçadoras, impositoras, amedrontadoras, conteúdescas, moralistas, etc.  É consensual que importa, nos nossos dias, em coerência com o que os evangelhos nos dizem do próprio Jesus, propor em vez de impor, dialogar em vez de apresentar categoricamente, ser pergunta aberta em vez de resposta fechada.

Nesta linha, autorecomendo-me e partilho com simplicidade, face ao dilema apostólico, o seguinte:

1- Evitar a militância... Falo das bandeiras muito içadas, que dão mais evidência à exterioridade da pertença do que à essência e ao futuro do ser. Entre um Deus que se quer revelar e o espaço livre de cada ser há um terreno sagrado que nenhum apostolado realiza. Não somos convidados nem a sermos a revelação, nem a fazermos o caminho de quem pode receber. A nossa missão é, tão só, desobstaculizar. No máximo, poderemos ser discretamente transparentes a certa luz que nos atravesse. Tirar algumas pedras do caminho não é isento de criatividade, esforço, inteligência, eficácia e entrega, mas é, (in)significantemente, apenas remover barreiras, apenas isso…

2- Ser mais pergunta! Sim, temos convicções e podemos afirmá-las. Mas de pouco vale afirmar o que não é perguntado. Só será fecundo o que deseja ser recebido. Muita água a quem não tem sede não sacia, encharca.  Neste sentido, nem sempre e talvez quase nunca com palavras, o apostolado mais eficaz é o que gera uma pergunta… Acresce ainda que na boa linha de ventos pedagógicos modernos, no melhor dos sentidos, as perguntas são muito vitais. O pensamento filosófico, a empresa científica, a própria curiosidade existencial alimentam-se de perguntas. Uma das consequências desta consciência é o estímulo das perguntas em dinamismos catequéticos e afins. Compreende-se que haja alguma doutrina básica mas o grosso do caminho da Palavra anunciada há-de tecer-se sobre as perguntas de quem vai receber, muito mais do que nos planos (rígidos) de quem engendra ofertas… Não será Deus uma pergunta?…

3- Evitar a redundância. Se há excelentes materiais de pontos de oração para a Quaresma, por exemplo, nas mais variadas formas e feitios, ponderar bem antes de elaborar mais. Se já se testou um mecanismo, atividade ou estilo de apostolado, porque não replicar de forma contextualizada. Se há materiais, recursos e ideias noutras línguas, porque não traduzir e implementar? Há que contextualizar personalizadamente mas sempre evitando a redundância…

4- Fugir dos personalismos. Cada um de nós é único e carismático. O movimento apostólico não há-de ser neutro mas antes seiva do contributo original de cada um que, em comunidade, cria força maior que a soma das partes. Há sempre uma margem de personalização em todos os empreendimentos e assim também no apostólico. Mas, tendencialmente, seria interessante concorrer para criar, alavancar, ajudar, sustentar… mas depois ‘desmamar’ e ir saindo, para que a obra continue para além de quem a começou a esculpir.

5- Uma boa (ou mesmo excelente) ideia é insuficiente. Ideias cheias de potencial apostólico e aparente oportunidade têm ser ratificadas pela realidade (o Espírito Santo que sobra…) e, em particular há que ter em conta se, de facto, no tempo, espaço e condição contextual, a realidade (as pessoas) pedem, têm sede, solicitam, vão aderir, ao que se pensa empreender…

6- Evitar a estatística. Apesar do item anterior, na vida apostólica, não há-de ser o quanto (quantas pessoas aderem, por exemplo) mas a qualidade… a qualidade dos frutos que conta.

7- Criar diversidade. Sempre que possível, propor na lógica de menu: várias opções, escolhíveis de acordo com os perfis e as necessidades, porque unidade não é uniformidade.

8- Evitar agrupamentos ingénuos e muito voluntaristas. É verdade que em Igreja se constrói com os diferentes e todos os mesmismos são de evitar. Mas, temos de convir, há feitios incompatíveis, visões divergentes, ambientes grupais insuportáveis. Vou mais longe: quando possível, em vez de nomear pessoas diversas para um grupo de trabalho, parece-me quase sempre melhor delegar em alguém a escolha/convite dos elementos para determinado grupo ou projeto apostólico. Depois, deixar trabalhar bem as boas lideranças…

9- Não estar agarrado a coisa nenhuma apostólica, isto é, garantir a gratidão. Tudo o que é apostólico é dádiva gratuita e desinteressada. Evitar as paixões possessivas e não valorizar em absoluto as birras por entrelançamento afetivo e falta de lucidez. Em dinamismo apostólico, qualquer cristão está pronto a largar… e sem remorsos, birras ou amuos…

10- Agradecemos aos senhores padres mas fazemos-lhes o favor, a eles e ao mundo, de não dependermos deles para idealizar, gerar e manter atividades. Não é só o imperativo do Concílio Vaticano II a apontar-nos a Igreja circular. São os recursos humanos escassos destes ministros especiais e cruciais que nos convidam a colocá-los numa posição mais estratégica do que executiva, mais monitorizadora do que controladora.

11- Avaliar sempre e sistematicamente e fazer a cheklist acima, podendo usar como grelha de observação filtros éticos e muito cristãos para ponderar o que fazemos, como: os meios estão adequados? estão a tornar-se fins? as finalidades estão claras?… Nesta avaliação, importa apontar para a sustentabilidade. Não é só um termo moderno, é um imperativo. Há que contar armas e perguntar sempre: isto tem pernas para andar, para se suster frutiferamente? Para ir um pouco além das pessoas e do tempo?…

12- Não esquecer que o principal é a inteireza. Acima escrevi que a tensão apostólica é fortemente pedagógica. Um entendimento mais ingénuo de tais envolvências pedagógicas poderia apontar para posturas marcadamente estratégicas ou, pior ainda, magistrais. Acontece que a melhor pedagogia é sempre tonificada pela autenticidade do ser, mais do que pelo engendrar, pelo dizer ou mesmo pelo fazer. Para ser apóstolo, portanto, basta ser…

JP in Espiritualidade Textos 30 Dezembro, 2019

150 anos da Tabela Periódica: um marco na história e na nossa vida

O estímulo intelectual que a Tabela Periódica induziu e provoca e as aplicações tecnológicas que esta arrumação dos elementos químicos permite e permitirá merecem ser festejados.

J. C. Paiva, 150 anos da Tabela Periódica: um marco na história e na nossa vida. Site PontoSJ. 1 de novembro de 2019. Disponível em

https://.pt/opiniao/150-anos-da-tabela-perodica-um-marco-na-historia-e-na-nossa-vida/

A ONU proclamou 2019 como o Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos. Esta organização reconhece a forma como a ciência química se tem vindo a manifestar relevante para a vida na Terra, nomeadamente por via das aplicações práticas em áreas como a saúde humana, a produção de novos materiais, a sustentabilidade, etc. Convergirão iniciativas celebrativas de organizações como  a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), a IUPAC (União Internacional de Química Pura e Aplicada), as sociedades científicas, incluindo a Sociedade Portuguesa de Química, universidades, escolas secundárias, e outras instituições públicas e privadas que quererão comemorar a importância da Tabela Periódica e as suas variadíssimas aplicações.

As tentativas de sistematização dos elementos químicos (mesmo antes de se ter a própria ideia de elemento químico) são tão antigas quanto a própria ciência. O nome Mendeleev, porém, é central nesta história. Nos finais do século XIX, Dmitri Mendeleev começa a esboçar uma forma revolucionária de classificar e “arrumar” os elementos. Este russo, o mais novo de mais de uma dúzia de irmãos, intuíra que se poderia numa mesma estrutura organizativa dispor os elementos de acordo com o seu peso atómico e, também, de acordo com as semelhanças das propriedades atómicas das respetivas substâncias. Uma ideia congénere (a famosa lei das oitavas, de analogia musical) havia sido tentada pelo químico britânico Newlands, mas, em bom rigor, não foi muito levada a sério (nestas coisas da ciência, como em tudo na vida, não basta o génio: há que estar na hora certa e no local certo…). Mendeleev juntou elementos em grupos de sete, dispondo-os em linhas, notando que, com certa periodicidade, as propriedades se repetiam. Por isto mesmo esta genial organização foi batizada de Tabela Periódica. As linhas horizontais, a que se chamam períodos, e as colunas, a que se chama grupos.  Sabemos hoje, melhor do que na altura de Mendeleev, que as linhas horizontais têm os elementos ordenados segundo o seu número atómico (isto é , o número de protões, que, em bom rigor, define um elemento químico). No primeiro período, por exemplo, temos o hidrogénio com número atómico um e o hélio, com número atómico dois. As colunas da Tabela Periódica, por ser turno, definem elementos cujas substâncias têm propriedades semelhantes. Cobre, prata e ouro, por exemplo, são metais do grupo 11.

A genialidade de Mendeleev foi ter deixado ‘buracos’ na sua tabela com vista a poder incluir  elementos que não se conheciam ainda mas que tinham um lugar reservado para ulteriores descobertas. Impressionante, também, para não dizer belo, foi a forma como os novos conhecimentos químicos se ajustaram a recompreender sucessivamente a estrutura da Tabela. A mecânica quântica trouxe a possibilidade de estabelecer o conceito de orbital, como uma zona do espaço onde há eletrões.  Às orbitais mais externas dos átomos chamamos orbitais de valência e, como numa sinfonia, os elementos do mesmo grupo apresentam todos o mesmo número de eletrões de valência.

A Tabela Periódica contempla cerca de 120 elementos distintos: destes, 92 são naturais e os restantes são sintetizados artificialmente, sendo que a maioria destes, pela sua instabilidade, apresentam tempos de vida ínfimos. O corpo humano, grosso modo, tem 63% de hidrogénio (por isso somos tão explosivos…), 26% de oxigénio, a maioria do qual formando água com o hidrogénio (por isto metemos tanta água…) e 9% de carbono (por isto somos orgânicos…). O resto são pequenas quantidades de material: enxofre nos cabelos, cálcio nos ossos e dentes, cobalto na vitamina B12, ferro na hemoglobina, potássio na rede neuronal (em quantidade variável…), zinco para oxidar o álcool (que às vezes entra de mais no nosso corpo…), etc. Se houvesse dúvidas, eis que, definitivamente, nós somos química! Todos estes elementos têm o seu lugar na Tabela Periódica…

Para muitos cientistas e agentes culturais, admito que para os químicos, suspeitamente, mais ainda…, a Tabela Periódica constitui um ex libris da ciência. É o cartão de visita da química e do conhecimento da matéria e é notável o que esta higiene classificativa trouxe ao mundo, de conhecimento e progresso. Mais ainda, o que esta organização promete ainda…

A Tabela Periódica encerra algumas provocações metafísicas, de gradientes variados. Especulemos sobre duas dessas extrapolações, em polos opostos: 1) a Tabela Periódica é a última palavra sobre o que somos, material e literalmente. Somos átomos de cerca de uma centena de espécies e, connosco, todo o universo é apenas e só matéria. Este radical-naturalismo, de pendor materialista e positivista, não deixando espaço a ‘outras realidades’ é uma possibilidade e representa uma crença muito comum nos nossos dias; 2) a Tabela Periódica, como outros construtos da ciência sobre a natureza, sublinha de tal maneira a harmonia e a ordem no mundo material que, de forma inequívoca, é a prova científica da existência de um criador. É verdade que num plano existencial e até poético podemos vislumbrar o dedo da criação na beleza e na harmonia da natureza plasmadas na construção científica em objetos como a Tabela Periódica. Mas a ciência e os seus modelos são sempre dinâmicos e as metodologias da ciência não se aplicam a perguntas da ordem do ‘porquê’ mas sim do ‘como’. A fé num criador carece de risco e não é provada pela via da ciência.

Por ocasião deste centenário celebremos a ciência e os seus progressos. O estímulo intelectual que a Tabela Periódica induziu e provoca e as aplicações tecnológicas que esta arrumação dos elementos químicos permite e permitirá merecem ser festejados. Sabemos que nem todas as aplicações da ciência beneficiam o homem e por isso a ética se impõe em qualquer reflexão desta natureza. A ciência trilha, juntamente com outros olhares, um tatear da beleza e do potencial da humanidade. Com fé, podem entrever-se véus mais ou menos discretos de um Criador amoroso.

JP in Ciência Química Sem categoria Textos 6 Novembro, 2019

Verdade, Ciência e Religião

A Ciência e a Religião partilham pelo menos uma abordagem ao (complexo) conceito de Verdade: ambas se alimentam do mistério que envolve essa mesma Verdade e sabem-na, intrinsecamente, inalcançável.

J. C. Paiva, Verdade, Ciência e Religião. Site PontoSJ (que se recomenda…). 2 de março de 2018.

https://pontosj.pt/opiniao/verdade-ciencia-religiao/

 

Verdade, Ciência e Religião

Sempre que falamos de ciência e religião teremos de ter em conta que as pontes a lançar não deverão violar a consciência de que, uma e outra, possuem diferentes metodologias. Será interessante colocar em diálogo o que é diferente e atender a uma certa artificialidade compartimentalista, que está subjacente à criação humana das várias disciplinas. Mas nunca pisando o risco de chamar igual ao que se distingue e muito menos usar a mesma malha metodológica para “pescar peixe” diferente. Por isto mesmo, a palavra-chave entre ciência e religião nunca é inferência. A palavra inferência, no seu sentido lógico, remete-nos para afirmações de verdade deduzidas a partir de outras proposições consideradas verdadeiras. Ora, é este o terreno pantanoso da relação entre ciência e religião, observável, por exemplo, na conhecida teoria do “design Inteligente”, que, a partir de algumas evidências científico-biológicas induz afirmações de caráter religioso e vice-versa.

Ao contrário das inferências, podemos, isso sim, com eventual vantagem pedagógica, usar algumas analogias. As analogias são fundamentais na comunicação e na compreensão de muitos processos e conceitos. Usamo-las, inúmeras vezes, sem nos apercebermos. O dinamismo das analogias pressupõe um conceito alvo (onde se quer chegar) e um conceito análogo (de onde se parte). Estabelecem-se então pontes e relações que podem ajudar a clarificar alguns assuntos. Convém referir que as analogias são sempre não perfeitas e, sem exceção, apresentam pontos frágeis.

A procura da Verdade (neste texto deliberadamente escrita em maiúscula) é um assunto mobilizador em toda a nossa história cultural e mantém-se como ponto de interesse na atualidade.

A grande maioria dos cientistas reconhecerá que, em certo sentido, procura a Verdade. Muitos pensadores dedicam-se a tentar conhecer melhor como se processa o próprio conhecimento científico. Para Karl Popper, por exemplo, será preferível dizer que o que procuramos ao fazer ciência é afastar-nos do erro, sendo que, quanto mais esse caminho é trilhado, mais assuntos existem por conhecer.

A Ciência e a Religião partilham, pelo menos, uma abordagem ao (complexo) conceito de Verdade: ambas se alimentam do mistério que envolve essa mesma Verdade e sabem-na, intrinsecamente, inalcançável.

O confronto com o conceito de Verdade leva-nos à encíclica de Bento XVI, Caritas in Veritate. Ali, podemos assumir, confunde-se a própria Verdade com o amor (versão porventura mais “fresca” da palavra caridade). Acontece, porém, que o amor é, ele próprio, indizível, porquanto é identificável com a transcendência, mais do que um seu atributo. Um apontamento para o amor seria tomá-lo como a fonte de uma explicitação radical: “tu podes ser tu diante de mim”. Este primado de aceitação do outro, sinalizado (encarnado?) na relação de Deus com os homens e, assim, entre eles mesmos, tem alguma analogia com a forma como a ciência lida, aceita e tenta desvendar a realidade natural.

Um apontamento de Verdade para os católicos seria a própria tradição. Também aqui há alguma analogia com a ciência, que se faz com “gigantes aos ombros de gigantes”. Estas são palavras de Newton. Com efeito, um cientista acrescenta à ciência sempre a partir do que outros disseram e descobriram e não empreende qualquer investigação sem a respetiva revisão de literatura. Neste sentido, a ciência também se funda na tradição. Há um conjunto de regras de comunicação e ações que são respeitadas pela comunidade científica e que permitem consensos e progressos notáveis. Dir-se-á que a ciência está, ao contrário da religião, sacudida de dogmas de partida. Mas essa colocação é duvidosa… Há pressupostos essenciais na empresa científica, sempre latentes ao longo da sua própria génese e história. Nomeadamente, há ciência porque: 1) entendemos que a realidade existe; 2) entendemos que é possível conhecer a realidade e 3) entendemos que é bom conhecer a realidade. Dogma maior, qual crença, seria o de que existe unicamente o que é materializado e que apenas os óculos da ciência conseguem ver lucidamente o mundo.

A tradição da Igreja, porém, não é um fim em si própria, nem, tão pouco, se lhe pode subtrair o dinamismo de linguagem e atualização. A tradição vale na medida exata em que não é defendida como um projeto enterrado mas antes como um tesouro vivo, redito e religado com a realidade…

Poderemos ainda envolver a questão das emoções e dos sentimentos, cruzada cada vez mais com as nossas próprias virtudes e limitações biológicas. O nosso cérebro tem, à partida, tantas potencialidades quanto constrangimentos: face a um objeto, capta certa realidade (tateia?) mas, imediatamente, fica aquém de um certo sentido de totalidade, que é próprio da Verdade.

A Verdade, isso parece inequívoco, não será monopólio da ciência (cientificismo) nem de ninguém. Andará em espaços de uma tensão incontornável do próprio sentido da vida humana, algures entre a imanência das coisas (realidade) e as entrelinhas do mistério (transcendência).

A Química da vida e a vida da química

O mundo à escala do muito pequeno é fascinante. Devolve-nos beleza, lógica e mistério, como quase tudo na vida, se afinarmos os olhos…

 

J. C. Paiva,A Química da vida e a vida da química. Site PontoSJ (que se recomenda…). 17 de agosto de 2018.

 

https://pontosj.pt/opiniao/a-quimica-da-vida-e-a-vida-da-quimica/

 

A Química da vida e a vida da química

Os químicos, além de tentarem compreender como são feitas “as coisas”, ocupam-se do dinamismo de como se transformam umas substâncias noutras. Vemos e tentamos tatear humildemente o mundo vivo e o mundo inanimado, aqui na Terra e por todo o cosmos (astroquímica). Parece haver uma maior densidade atómico-molecular mais perto de nós do que no rarefeito espaço sideral: estima-se que, ali, bem longe de nós, um centímetro cúbico de espaço não contenha mais do que um átomo que, assim sendo, só colide com outro, em média, de dez mil em dez mil milhões de anos (química lenta, de facto…).  À química interessam muito os humanos, quanto mais não seja porque, na realidade, se somos vida, somos constante transformação.

Química deriva da alquimia, prática antiga, pré-científica, que buscava a pedra filosofal, capaz de transformar metais vis, como ferro, em metais nobres, como ouro. Esta arte-magia tinha o seu quê de transcendente pois o elixir em procura, uma vez ingerido por humanos, transmutá-los-ia a eles mesmos para a eternidade. Hoje soa-nos a estranho mas ontem moveu muitos, incluindo notáveis cientistas como Newton. Da alquimia herdamos, entre outras preciosidades, as manipulações laboratoriais que ainda hoje praticamos nos espaços químicos. Notar que a expressão quimia quer dizer, precisamente, verter. Não fosse a química a ciência das misturas…

Uma das maravilhas da química é a aproximação à ideia de que toda a realidade, complexa e diversa, nas suas cores, formas, estruturas e demais propriedades, se faz à custa, apenas, de uma centena de unidades estruturais (elementos químicos). Estes diferentes tipos de átomos estão organizados numa tabela magnífica, que dá pelo nome de Tabela Periódica dos Elementos e que, de alguma forma, é a coleção dos bilhetes de identidade de cada um dos átomos que dá cor e vida e todo o cosmos.

A bem dizer, para o que anda à nossa volta, a começar por nós mesmos, basta até pensar numa vintena de tipos de átomos: com partículas do elemento hidrogénio, oxigénio, carbono, ferro, magnésio, cálcio, sódio e uns tantos mais, mapeamos o nosso organismo. É como as letras do alfabeto: assim como com vinte e seis letras apenas, organizadas coerentemente, se organizam palavras, frases textos e livros, também com cerca de vinte elementos diferentes, arrumados e congregados coerentemente, se constrói toda a diversidade de matéria que nos circunda… e nós mesmos…

São interessantes as analogias que podemos fazer entre a química e as nossas vidas. Com alguma imaginação, podemos fazer pontes curiosas entre o que somos, como nos relacionamos e o mundo dos átomos e das moléculas. Se nos concentrarmos nos átomos, constatamos que os materiais apresentam as suas propriedades em função da forma como as suas  partículas constituintes se ligam: ligações mais fortes podem determinar materiais porventura mais duros ou rígidos, porventura sólidos à temperatura ambiente. Já átomos ou moléculas (conjuntos de átomos) mais fracamente ligados e com maior mobilidade, podem ser constituintes de um gás que, em todo o caso, se for sujeito a baixíssimas temperaturas, pode passar ao estado liquido ou mesmo sólido. Pensemos no vapor de água que pode liquefazer ou mesmo ficar gelo, à medida que a temperatura baixa e as moléculas de “H2O” diminuem a sua agitação e a sua mobilidade. Facilmente entendemos como a expressão popular ou a literatura se podem apropriar destes conceitos: relações humanas sólidas e fortes… ou gente fugidia, gasosa e fracamente ligada.

As pessoas em relação procuram uma distância crítica ótima, que nem sempre se consegue: há um perigo claro de ligações “fortes de mais”, sem mobilidade e, portanto, de posse e até de coisificação. E importa a “temperatura das relações”. Esta, tanto pode ser alta de mais, a ponto de, na sua emotividade, destruir as ligações e fazer de tudo um fluido sem vigor, como pode, por outro lado, ser de tal forma uma temperatura baixa, que a rigidez impera e a reatividade baixa de tal forma que nada acontece e tudo fica na mesma.

Muitas das ligações entre partículas estabelecem-se por partilha de algumas entidades (eletrões) e pelo equilíbrio de forças que atraem e repelem partículas de carga elétrica positiva ou negativa. É belo este sinal da natureza nanoscópica: muitas das ligações fortes, como as que se estabelecem entre os átomos de carbono no reluzente diamante, acontecem por partilha (de eletrões) que, em certo sentido, deixam de ser do átomo x ou y e passam a (co)valer para o conjunto todo, bem ao jeito da proposta explícita no Evangelho para os primeiros cristãos. Se ninguém ‘chamava a nada seu’, era essa mesma marca da partilha que ligava e dava unidade, estrutura e sentido. Afinal, a partilha, será, porventura, o elixir da eternidade.

O mundo à escala do muito pequeno é fascinante. Devolve-nos beleza, lógica e mistério, como quase tudo na vida, se afinarmos os olhos…