ureia, química e vida

De todas as sínteses químicas há uma que merece especial atenção: a síntese da ureia. Em 1828 consegue-se o primeiro ensaio de produção artificial daquilo que sabemos hoje ser dinitrometanal. Como componente do mundo vivo, e dos fluidos humanos, em particular, a química, já aprendiz de criadora dos objetos que estuda, passa o rubicão da síntese da natureza. De lá para cá, a par das ciências biológicas e físicas, tem sido um processo e uma aventura fascinantes. Não sem melindres e perigos. Este ‘mexer na vida’ tem tanto de ousado e belo quanto de titubeante. A mim, enquanto pequeno e insignificante protagonista da química, apesar dos limites que implica, liberta-me a metafísica de um certo sentido sagrado da vida… Por isso, tudo que a química fizer, será para promover e dignificar a vida, nunca o seu contrário…

JP in Ciência Química 18 Outubro, 2022

dose certa

Na dose certa

 

Procuro a

minha dose.

Quanto dou?

Que espaço ocupo?

Que tempo tomo?

Às vezes, estou demais,

quase veneno.

Encho com excessivas

palavras.

Melhor fora ser

silencioso solvente.

Outras vezes

devia ser mais presente.

Mais soluto.

Mais concentrado.

Sou micro-escala

quando deveria

gritar ao mundo

uma qualquer injustiça.

Meu sonho?

Ser tónico, não tóxico.

Procuro a

minha dose,

a dose certa…

2011

JP in Poemas Química 22 Setembro, 2022

plásticos…

Há contas por fazer sobre o balanço relativo do uso (e abuso) do plástico e do papel. Custa-me a elaborar que o papel é mais inócuo para o ambiente do que o plástico. O problema essencial, penso, não está em ser plástico ou papel. Está no sentido ético que determina comportamentos. É doloroso ver estômagos de animais marinhos cheios de plásticos ou vestígios nas bordas dos rios de uma espécie de sedimentos plásticos. Mas o problema não está no plástico, está em quem não o reciclou…

JP in Ciência Química 16 Setembro, 2022

gás e espírito…

A palavra gás pode ter origem em ‘geest’ que, em holandês significa espírito. Terá sido Van Helmont que batizou esse ‘espírito’ como ‘gás silvestre’, afinal o que se liberta quando uma substância natural perde a forma por combustão. Seria o nosso atual dióxido de carbono. Estas histórias são curiosas e o que acho simplista e metodologicamente uma grande salgalhada é deduzir coisas como: agora que, graças à ciência, sabemos que é dióxido de carbono, então não há espírito…

JP in Ciência Espiritualidade Química 16 Agosto, 2022

Espectro

Espetro

 

O espetro

é esperto

pois diz

o que é

a sua raiz.

A luz,

acertada,

dança

com matéria,

na esperança

de ir perto.

O que sai

dessa dança

é coisa

bem séria:

dançam

os átomos,

com a radiação,

o espetro

te dá

a informação.

Transporta

consigo

o que é,

donde vem,

e dados

escondidos

que vão

mais além.

O teu espetro,

óh humano,

o outro

é que sente,

não é improviso.

Sincero, a metro

teu espetro

de gente

será

um sorriso…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

JP in Ciência Poemas Química 22 Fevereiro, 2022

energia livre

A capacidade preditiva em ciência é um dos seus grandes trunfos. Há critérios de tendência para energia mínima e de tendência para entropia (grau de desordem, grosso modo) máxima. Determina crucialmente a ocorrência ou não de um processo saber qual a “energia livre” posta em jogo…

JP in Ciência Química 30 Dezembro, 2021

Sal da terra

Sal de terra

 

Gostava de ser

cloreto de sódio!

Sal da terra

assim dizia Vieira.

Dar sabor,

metido,

ser solução.

Sem sal,

corrupção,

sem sal,

não há paladar.

Gostava de ser

cloreto de sódio.

Ião sódio,

ião cloreto.

Assim, sal,

me meto

no mundo.

Dissolvo-me,

confundo

mas não

vou ao fundo…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

JP in Ciência Poemas Química 22 Novembro, 2021

Reacção

Reação

 

Sou química.

O meu desejo maior

é o de me

transformar.

Planta

que morre

cresce.

Assim acontece

se me deixo

transformar.

Sou química…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

JP in Ciência Poemas Química 16 Setembro, 2021

declaração de amor radical-naturalista

Com alguma ironia e assumindo aqui um tom caricatural (quase nunca favorável ao diálogo), imagino assim a declaração amorosa de um radical-naturalista, para quem tudo se reduz, em última análise, aos átomos e moléculas que somos: “Teu cabelo tem enxofre que dava para curar umas pipas de vinho, teu cálcio dos ossos e dos dentes vale como uma pedra da calçada, teu ferro da hemoglobina, dava para fazer um prego, o cloro dos teus sais, desinfetava uma piscina. Teu hidrogénio, oxigénio e carbono, davam um belo sabonete. Por essa utilidade te amo…”

Hidrogénio

Hidrogénio

 

O hidrogénio

é leve, leve.

Anda

por todo lado.

Sozinho,

melhor,

aos pares,

é bastante

utilizado.

Nesse caso,

atenção,

pois pode

dar explosão,

sendo isso

quase certo

se houver

oxigénio

por perto.

É perigoso

se provocado

(quem não é…)

como nós,

uma qualquer

ignição…

pode gerar

confusão…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

JP in Ciência Poemas Química 30 Junho, 2021