Ciência para a frente e religião para trás…

Há um equívoco segundo o qual à medida que a ciência avança a religião recua. Tem razão de ser, embora como equívoco… Com o Renascimento e o desenvolvimento rápido das ciências físicas e matemáticas e de muitos instrumentos de observação, especialmente o telescópio, o conhecimento empírico ganhou crescente autonomia em relação à filosofia e à teologia. Galileu não teve apenas problemas com os teólogos, mas também com os filósofos. Os problemas que a filosofia aristotélica enfrentava com a nova scientia estão bem ilustrados na obra de Galileu “Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo”. Dada a estreita relação que se tinha estabelecido entre a filosofia aristotélica e a mundivisão cristã, era natural que os problemas da primeira arrastassem na sua queda a segunda. Foi a partir daqui que se estabeleceu o equívoco do recuo da religião com o avanço da ciência…

Ora, o que aconteceu desde o Renascimento não tem sido o recuo da religião provocado pelo avanço da ciência, mas sim um progressivo esclarecimento, que ainda hoje continua, da natureza da religião e da natureza da ciência. A religião não tem que ser para os crentes a fonte do conhecimento dos fenómenos naturais, do modo como funcionam as leis da natureza. Tal tarefa pertence à ciência. Por outro lado, a ideia de uma ciência que prometia um conhecimento objectivo e definitivo do universo e da vida deu lugar a uma concepção de ciência em que muito do que parecia definitivo se revela provisório. Apesar das pontes, possíveis e desejáveis, a autonomia de cada uma das áreas só pode ser benéfica, tanto para a ciência como para a religião, no sentido de levar a que se esclareça cada vez mais a natureza de cada uma delas.

JP in Espiritualidade Frases 10 Junho, 2022

o mito da Igreja e da Idade Média como os ‘maus da fita’ da ciência…

Mesmo se o nascimento do método científico se consubstanciou com Francis Bacon, já no século XVII, até lá alguns progressos de natureza científica e tecnológica realizaram-se a par da filosofia e da religião.

Naquele tempo, as ideias de Aristóteles eram o cenário de todo o conhecimento e um certo fundamentalismo do seu pensamento terá impedido o progresso. Mas grande parte do conhecimento na Idade Média deu-se, de alguma forma, no seio de um ambiente religioso. Sobretudo na Astronomia e na Matemática, mas também na Medicina e noutras áreas, o progresso era associado a instituições religiosas, sendo protagonizado essencialmente por monges. Este facto, aliás, terá marcado a cultura ocidental, em comparação com a China ou o mundo árabe, por exemplo. Foi crucial todo o trabalho desenvolvido no seio da Igreja Católica na Idade Média para se darem os maiores passos na ciência. Foi a Europa Ocidental e a sua cultura que constituíram o palco dos grandes eventos científicos. É o caso da Física, por exemplo: Galileu na Itália, Newton em Inglaterra e Einstein (Alemanha e Estados Unidos). Foi a Idade Média (e no seu seio uma forte presença católica), o terreno histórico que, a montante, suportou estes três gigantes…

JP in Frases 10 Maio, 2022

A Bíblia e as metáforas…

A Bíblia é um conjunto de textos ou «livros» escritos em diversas épocas. Embora se baseie na história do povo Judeu, muitos dos seus textos devem ser interpretados não literal mas metaforicamente. A Bíblia tem um carácter não apenas histórico mas também sapiencial, contendo uma sabedoria de vida mais do que um saber sobre factos. Nos nossos dias, é absolutamente claro que a Bíblia não é um texto científico, não devendo, por isso, ser lido como tal. A linguagem bíblica, muito rica e crucial para os crentes, é muitas vezes simbólica e, à semelhança de todas as expressões artísticas e literárias, alimenta-se de metáforas e parábolas das quais importa retirar a mensagem principal. Assim como o poeta Camões escreveu que «o amor é um fogo que arde sem se ver» e ninguém apaixonado imagina que dentro de si se inicia uma combustão viva e invisível, também a descrição simbólica de Adão e Eva, por exemplo, não deve merecer uma leitura literal e descontextualizada do texto bíblico…

JP in Espiritualidade Frases 10 Novembro, 2021

ciência para a frente e religião para trás…

Muitos não-crentes, sobretudo alguns que trabalham e pensam na área da ciência, estão convencidos de que a religião continuará a recuar à medida que a ciência avança. Um dia, elaboram, tudo o que há a explicar estará explicado pela ciência e a religião desaparecerá completamente. Apontam muitas vezes o exemplo dos países nórdicos, altamente desenvolvidos, e onde a religião parece estar quase em vias de extinção. Ora, o que os estudos científicos sobre a evolução dos valores europeus vão mostrando é que o declínio da religião se dá ao nível da frequência das igrejas, mas não ao nível das preocupações individuais sobre o sentido da existência. É que mesmo nos países nórdicos europeus, e em outros países desenvolvidos noutros continentes, as pessoas continuam a interrogar-se sobre o sentido da existência. E, como afirmou L. Wittgenstein, os «problemas da vida» permanecem sem resposta, por maior que seja o progresso científico.

JP in Espiritualidade Frases 10 Setembro, 2021

teologia e ciência

Os cristãos em geral sabem pouco de ciência e do modo como as suas crenças e práticas religiosas se articulam com as teorias científicas. Mesmo da parte das elites cristãs, como são os teólogos, não é fácil encontrar pessoas que não só estejam informadas sobre os dados científicos, mas que também compreendam, sem ansiedades desnecessárias, as implicações que esses dados poderão ter para a própria teologia. A teologia do futuro (ou do presente?) terá de incorporar mais eficazmente o conhecimento científico.

JP in Espiritualidade Frases 10 Agosto, 2021

declaração de amor radical-naturalista

Com alguma ironia e assumindo aqui um tom caricatural (quase nunca favorável ao diálogo), imagino assim a declaração amorosa de um radical-naturalista, para quem tudo se reduz, em última análise, aos átomos e moléculas que somos: “Teu cabelo tem enxofre que dava para curar umas pipas de vinho, teu cálcio dos ossos e dos dentes vale como uma pedra da calçada, teu ferro da hemoglobina, dava para fazer um prego, o cloro dos teus sais, desinfetava uma piscina. Teu hidrogénio, oxigénio e carbono, davam um belo sabonete. Por essa utilidade te amo…”

ciência e Europa

Há quem entenda que a ciência nasce na europa judaico-cristã, não por acaso. O monoteísmo cristão ajustava-se, então, aos objetivos da construção dos chamados três pilares de que a empresa científica necessitou para se edificar: o ontológico (a realidade existe), o espistemológico (é possível conhecer a realidade) e o ético (é bom conhecer a realidade).

JP in Ciência Educação Frases 18 Maio, 2021

ciência e religião complementam-se

Seria desejável, para crentes e não-crentes, que questões e saberes se cruzassem numa malha de ciência e religião. À religião importa ajudar a Humanidade a saber viver, enquanto à ciência importa saber explicar os fenómenos da natureza. Neste sentido, religião e ciência não competem, antes se complementam. Talvez possam ambas cooperar no objectivo maior de compreender o mundo e o sentido da existência humana.

JP in Ciência Espiritualidade Frases 12 Novembro, 2020

ciência, religião e caricaturas…

Muitas críticas à Igreja Católica, de ontem e de hoje, são lúcidas, fundamentadas e úteis. Mas há que denunciar algum olhar viciado que muitos lançam sobre a Igreja, apenas sublinhando os aspectos negativos e, por vezes, anedóticos. O mundo está cheio de aspectos anedóticos, em todos os domínios. Para provar a inconsistência de uma realidade não chega enfatizar esses aspectos. Aliás, a própria ciência poderia ser alvo desse mesmo olhar (injusto): bastaria citar os muitos artigos publicados em revistas científicas e galardoados todos os anos com o Prémio Ignobel, que coloca a nu a inconsistência, por vezes mesmo fraude e desonestidade intelectual, que vão acontecendo no domínio científico. Caricaturar pessoas e eventos da ciência, assim como da religião, não invalida o seu sentido…

JP in Ciência Espiritualidade 10 Setembro, 2020

ciências cognitivas e teologia

As ciências cognitivas lançam novos desafios à compreensão do ser humano e da sua experiência religiosa, com base no estudo do cérebro e da mente. A teologia só tem a ganhar se levar a sério os novos dados que lhe vêm da ciência. Os teólogos não se poderão limitar a achar interessantes as teorias científicas, como se não tivessem de as estudar e levar a sério enquanto teólogos. A teologia deve retirar das teorias científicas fundamentadas as implicações que introduzam modificações no próprio discurso teológico e na compreensão que o cristianismo tem de si mesmo. De outra forma, os teólogos poderão estar a fazer um discurso cada vez mais irrelevante e a criar conflitos desnecessários com a ciência em particular e com a cultura, em geral. Depois, convém sempre sublinhar, teologia não é Fé. A tudo falta uma pitada de vivibilidade…

JP in Ciência Espiritualidade 10 Março, 2020