a palavra Deus não é Deus
Diz bem Javier Melloni quando sintetiza: “A palavra Deus não é Deus”. Esta indizibilidade de Deus dá força à mística que importa e fragiliza – positivamente- a instrumentação das religiões.
Diz bem Javier Melloni quando sintetiza: “A palavra Deus não é Deus”. Esta indizibilidade de Deus dá força à mística que importa e fragiliza – positivamente- a instrumentação das religiões.
Não sei se alguma fé mais míope não rezaria o Pai Nosso, em vez, com a expressão “seja feita a Vossa vontadinha…”, contemplando certo capricho divino. Ora é um outro, este “faça-se” de Deus, que espreita em tudo o que acontece e, particularmente, na natureza abundante….
Não são muito promissoras as abordagens que focam no milagre um Deus que se acrescenta à realidade. Pelo contrário, Deus age e ‘trabalha’, na realidade, a partir da realidade e com a realidade.
Tenho simpatia pelo Iluminismo, retirando-se-lhe os respetivos exageros, ainda hoje “em pagamento”… O iluminismo não ‘proíbe’ o mistério, antes desencoraja o autoritarismo aleatório de Deus, pedindo mais à teologia contemporânea. A explicação científica (com as suas inspirações iluministas), por simetria, não subtrai ao milagre mas desencoraja o milagreirismo…
Um grande equívoco teológico é associar a não explicabilidade ao “dedo de Deus” (o famoso “deus-tapa-buracos”). Da mesma forma, há quem insista no mundo religioso em associar as coincidências ao “dedo de Deus”. Por exemplo:” coincidências naquele instante – o comboio a partir e apanhei-o in extremis: foi Deus”. Ok, até dou de barato que “foi Deus”, mas a fé parece-me estar num cenário mais amplo: se o comboio tivesse sido perdido e eu não apanhasse… também era Deus… se eu colocasse abertura a crescer com o acontecimento… Deus só É se for em todo o tempo e em toda a parte…
Fica bem! Fica com Deus, que está sempre…
Karl Rahner, um dos mais brilhantes teólogos do século XX, arriscou um intervalo numérico percentual quando disse, com alguma ironia: “o que 60% a 80% dos homens entendem e dizem sobre Deus, não existe, graças a Deus” (louvo esta nota de otimismo final “graças a Deus…”). A este propósito, recordo, também com ironia, algumas homilias a que assisti…
O credo cristão católico romano tem, logo no seu início, um potencial ecuménico e inter-religioso, que costuma passar despercebido. “Creio em um só Deus”, levado a sério, é uma profecia radicalmente inclusiva, também religiosamente.
A não literalidade bíblica é uma conquista na catolicidade que não é absolutamente nova (tem muitos séculos de caminho). Tal não literalidade não está ainda defenitivamente entranhada na vida dos crentes. Embora podendo chocar um pouco, talvez se possa afirmar: “a Bíblia não é a palavra de Deus”. Pode dizer-se, melhor: “a Bíblia contém a palavra de Deus… que dela se pode extrair, dinamicamente e com fé…”
Podemos ter uma boa sistematização da narrativa cristã se a entendermos nas suas três grandes dimensões, a programática, a performativa e a interpretativa. Seria assim, na fé: Deus precede a história, Deus intervém no rumo da história e Deus revela o sentido da história.