Silêncio

SILÊNCIO

O silêncio

traz o vento.

O silêncio

traz o fundo

traz o meu

pequeno mundo

para além.

O silêncio

traz novidade

traz Deus.

…in Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse, Coimbra.

acessível aqui

 

JP in Espiritualidade Poemas 30 Setembro, 2020

Cobre

Cobre

 

Com sulfato

emparelhado,

em pedra

ou solução,

é belo de

azul

metal,

descrição.

Condutor

abraçado

isolante,

corrente

aqui

aparece

adiante.

Maleável,

valioso,

industrial,

abundante.

Ancestral

precioso

em moedas,

vibrante,

polido,

brilhante.

Não sei quem

é mais duro,

se sou eu

ou se és tu.

Gosto mais

do meu nome

pois teu

é feio

…é Cu…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

JP in Ciência Poemas Química 26 Agosto, 2020

autoilusão consentida

Autoilusão consentida

 

 

 

Assumo esta

autoilusão

…consentida

até desesperada.

Daqui, da sede

calada que grita,

invento Alguém.

Corro

…como se fosse

real

esta mesma criação.

Vivo

…como se fosse

vida

a minha imaginação.

Avanço

…e num vazio pleno

sinto, experimento

e confirmo

que Alguém me abraça!

Quem diria:

o que inventei existia

… e era Graça!

 

 

 

Fornos, 20 de dezembro de 2017

JP in Espiritualidade Poemas 22 Julho, 2020

há ou não há?

Há ou não há?

 

Há ou não há

um vestígio de

eternidade no mar?

Há ou não há

Uns laivos de

Esperança na dor?

Há ou não há

Um pequeno

Cato verde no deserto?

Há ou não há

Um subtil

Milagre quando

Alguém nasce?

Há ou não há

Azul vindouro

No céu cinzento?

Há ou não há

Um sentido positivo

Para as misérias

Da história?

Há ou não há

Um traço de mistério

Nos bastidores da ciência.

Há ou não há

Um coração

Que bombeia

A mente não linear?

Há ou não há

Um caminho estreito

Na minha escuridão?

Há ou não há?…

 

Coimbra, 12 de Abril 2004

JP in Poemas 16 Julho, 2020

Liberdade

Liberdade

 

Rubicão da liberdade

é sacudir a circunstância.

Intrincar-se na ponte

entre a soledade

(que mora dentro de mim)

e a jornada que vivo.

Uma e outra,

a essência interior

e a realidade oferecida,

são dádivas garantidas.

2018

 

JP in Espiritualidade Poemas 22 Junho, 2020

tempo

O tempo

 

O tempo é também

quase capicua

que avança e recua…

Mas passa, o tempo.

E não há maior segredo

do que o agarrar

vivendo bem

cada momento

mesmo de dificuldade

sofrimento ou morte.

Porque sopra um

paradoxal vento

de instante e eternidade.

O tempo é lento

e saboroso,

mas corre…

 

14-03-2012

JP in Poemas 22 Maio, 2020

fazendo-me

Fazendo-me…

Sou um Homem

a fazer-se,

uma bilha em enchimento.

Sou um processo

em aberto,

ventoinha em movimento.

sou um livro

que se abre.

Sou escutante

de um recado.

Sou errante

procurante,

quando páro,

sou buscado.

Sou vivente

agradecido.

Sou morrente

renascido.

JP in Poemas 6 Maio, 2020

vergo-me

Vergo-me

 

Vergo-me

em silêncio

face

ao espectáculo

da dor.

Tiro sandálias

engulo sílabas

verto lágrimas

… e páro!

Fico,

em silêncio,

cravado

onde estou.

Todo inteiro,

agarrado.

Abraço

aquele tempo,

tão instante

quanto eterno

… e permaneço,

vergado,

… em silêncio!

 

28 de Janeiro de 2011

JP in Espiritualidade Poemas 22 Abril, 2020

Terra assumida

Terra assumida

O Céu que quer

desabrochar em nós

exige Terra assumida:

árida e fecunda,

ampla e de grãos,

livre e pisada.

É a Terra que somos…

JP in Poemas 22 Março, 2020

moribundisse

Moribundisse

 

Na moribundisse

desse instante

…longo instante…

se radicaliza

a angústia,

a esperança,

a dúvida e

a certeza.

Ali se joga

em escala

intensa,

em alto grau,

em câmara lenta

rápida

o que a vida

teceu

no tempo.

…Desde o útero

desde o ventre

do cosmos.

Fornos, 4 de dezembro de 2017

JP in Espiritualidade Poemas 6 Março, 2020