morrer

Morrer

 

Não quero

Senão morrer!

ser trigo,

ser nada,

ser tudo.

Quero ser

somente (semente?),

vazio,

cheio

de mundo.

Eu quero

ser silêncio,

dar nada (que sou),

morrer.

Quero parar,

deitar-me,

passivo,

em paixão,

ao lado

dos homens,

sem respirar.

Inspirando,

inspirado

pelo amor.

 

JP in Espiritualidade Poemas 22 Fevereiro, 2023

o amor move…

O AMOR MOVE…

O Amor faz mover

passos gigantes.

Move rios

move mares

move as gaivotas nos ares.

O Amor constrói cidades

move o Sol

e as tempestades

move castelos no ar.

Ai o que move o amor!

Move até uma flor

quieta no seu lugar.

 

in Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse, Coimbra.

acessível aqui

JP in Poemas 22 Dezembro, 2022

Esmagado pelo pó.

Garganta entupida

do pó que sou.

Pó de amanhã…

Ser pó, ser pouco

me empurra

para um sentido novo

de formas mais sólidas.

Gostava, nesta manhã

de caminhar

sem medo,

nem do meu pó

…de hoje,

nem do meu pó

…de amanhã.

2010

JP in Poemas 22 Novembro, 2022

os Pais dos meus amigos

Os Pais dos meus amigos

Vejo tombar

aos meus amigos

seus Pais.

Ontem baptizados e casamentos,

hoje funerais.

Ontem conheci-os,

anteontem geraram,

hoje funerais.

Seus filhos,

meus amigos,

não os verão jamais.

Hoje funerais.

Meus amigos:

uns com fé,

outros sem coisas que tais,

hoje funerais.

Meus amigos,

que abraço,

choram seus pais,

hoje funerais.

Ontem história,

hoje tempo

Amanhã eterno e mais.

Hoje, funerais.

2010

JP in Espiritualidade Poemas 2 Novembro, 2022

poesia

Quando não sei o que dizer e como dizer uso a poesia (ou a poesia me usa). É uma inútil e proveitosa dança de palavras, pensamentos e emoções…

JP in Frases Poemas 26 Outubro, 2022

dose certa

Na dose certa

 

Procuro a

minha dose.

Quanto dou?

Que espaço ocupo?

Que tempo tomo?

Às vezes, estou demais,

quase veneno.

Encho com excessivas

palavras.

Melhor fora ser

silencioso solvente.

Outras vezes

devia ser mais presente.

Mais soluto.

Mais concentrado.

Sou micro-escala

quando deveria

gritar ao mundo

uma qualquer injustiça.

Meu sonho?

Ser tónico, não tóxico.

Procuro a

minha dose,

a dose certa…

2011

JP in Poemas Química 22 Setembro, 2022

sonho de Deus

Sonho de Deus

Não se trata

de descartar o meu sonho,

de deixar de ser.

É centrar o meu sonho

no sonho de Deus.

Parece óbvio:

o sonho de Deus,

tecido em vida,

será o meu sonho.

É talvez perder…

É talvez ganhar…

É salvar-se…

É ser-se salvo!

2018

JP in Espiritualidade Poemas 22 Julho, 2022

milagre

Milagre

Não tanto

o estranho.

Mais o espanto…

Dimensão de

velha novidade.

Sinal.

Imensidão.

Abundancialidade.

Vulgar

…e banal.

Tácito e

especial.

Cúmplice do tempo.

Vibrante.

Constante…

De admirar:

agora e aqui,

não só no altar…

JP in Poemas 22 Junho, 2022

O (não) silêncio de Deus

O (não) silêncio de Deus

Não é o que 

se não explica

que implica

o dedo certo

do criador.

Deus grita

no ordinário

e assim palpita

o necessário:

o traço belo

do seu amor.

JP in Poemas 22 Abril, 2022

Espectro

Espetro

 

O espetro

é esperto

pois diz

o que é

a sua raiz.

A luz,

acertada,

dança

com matéria,

na esperança

de ir perto.

O que sai

dessa dança

é coisa

bem séria:

dançam

os átomos,

com a radiação,

o espetro

te dá

a informação.

Transporta

consigo

o que é,

donde vem,

e dados

escondidos

que vão

mais além.

O teu espetro,

óh humano,

o outro

é que sente,

não é improviso.

Sincero, a metro

teu espetro

de gente

será

um sorriso…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

JP in Ciência Poemas Química 22 Fevereiro, 2022