moribundisse

Moribundisse

 

Na moribundisse

desse instante

…longo instante…

se radicaliza

a angústia,

a esperança,

a dúvida e

a certeza.

Ali se joga

em escala

intensa,

em alto grau,

em câmara lenta

rápida

o que a vida

teceu

no tempo.

…Desde o útero

desde o ventre

do cosmos.

Fornos, 4 de dezembro de 2017

JP in Espiritualidade Poemas 6 Março, 2020

último segredo

Último segredo

 

Meu último segredo

é este deserto

este trabalho

este suor

de procura.

Disfarço

convicções fortes

mas são ténues

as formas

de um duro

esculpir.

Só vagamente

uma nesga de Sol

aquece

mares duvidosos.

Mas saboreio

uma laranja

na sombra da árvore

depois da horta

amanhada.

Esse gomo

me salva!

 

Fornos, 2019

JP in Poemas 24 Fevereiro, 2020

homenagens

Homenagens

 

 

Prescindo

hoje e amanhã

(mesmo em cinzas)

de uma qual-quer(?)

homenagem.

Prefiro a memória

Simples e discreta

De um qual-quer(?)

Rasto de amor.

Custa-me ver a fila

(a logística, a mobilização)

para saudar uma honra.

Use-se tal energia

Para abraçar alguém,

Para amparar

Uma qual-quer(?)

pessoa frágil.

Acresce ainda

Que nada mereço.

E a haver uma honra

Seja endereçada

À graça de Deus

Que, por graça também,

Me usou (quando eu deixei)

para se espelhar.

 

2018

JP in Poemas 14 Fevereiro, 2020

Ciência ou poesia

Ciência ou poesia?

 

Entre focos de prazer:

ciência ou poesia,

pergunto, o que fazia

se tivesse de escolher.

Ciência e poesia…

acho que me apetecia

fazer desta maneira:

as duas na algibeira!

A ciência escolheria

Se quisesse mais rigor,

com saber eu saberia

como cresce uma flor.

E olhando essa flor

a colhesse com alegria

e oferecesse em amor,

embrulhava em poesia…

Se em vez de perceber

eu quisesse antes dizer

o que a fórmula não diria,

escolheria então a poesia…

Não vou escolher, mas juntar

Trago ciência e poesia.

Ciência é luz a brilhar,

poesia é luz no meu dia.

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

JP in Ciência Poemas 30 Janeiro, 2020

adiar um poema

Adiar um poema

 

Não vou

adiar

este poema.

Haja o que houver,

serei poema.

Rindo ou

chorando,

teço versos.

Todo o poema,

mesmo o da esperança,

se escreve

agora e aqui.

não vou

adiar este poema.

 

2011

JP in Poemas 20 Janeiro, 2020

Pai nosso alternativo

Pai Nosso alternativo

 

 

 

Pai nosso

Que estás no Universo

Especial é o Teu Ser.

Abra-me à

Relação conTigo.

Se realize,

Por mim e

Com todos,

O Teu sonho.

Agradecemos-te

Todos os dons

Da vida.

Agradecemos-Te

O amor maior

Do perdão

E pedimos a graça

De também nós

Amarmos assim

Todos os nossos

Irmãos.

Dá-nos a graça

De crescer

Na tentação

E salva-nos

…apesar do mal.

 

 

 

Soutelo, 11 de dezembro de 2016

JP in Espiritualidade Poemas 16 Janeiro, 2020

pontaria…

Pontaria

A paternidade tateia o cuidado.

O direito tateia a justiça.

O professor tateia a educação.

O matemático tateia o rigor.

O pedreiro tateia a construção.

A engenharia tateia a tecnologia.

A ciência tateia uma verdade.

O discernimento tateia a pontaria…

 

JP in Espiritualidade Poemas 8 Janeiro, 2020

prosa sobre o sonho

Prosa relevante sobre o sonho

 

Há um primeiro e fundo instinto: o de viver, ou sobreviver, quanto mais tempo e em qualidade melhor.

Um segundo sonho me auto-transcende, me contém e me sustenta: o de dar a vida, quanto mais tempo e em qualidade melhor.

Não deixo de ser o primeiro mas a liberdade é do segundo.

A sobrevivência existencial do primeiro sonho é rasteira e choca no absurdo das mortes e incompletudes.

O Segundo sonho faz daquilo que falta ao mundo e que me falta a mim, a matéria prima da própria escultura que a transcendência esculpirá em mim e por mim.

Por isto, de manhã, acordo e agradeço. E procuro oferecer ao tempo e ao espaço que tenho essa essência, que nunca agarro mas que tateio em cada gesto amoroso.

 

06 de fevereiro de 2016

JP in Espiritualidade Poemas 20 Dezembro, 2019

Laboratório químico

Laboratório químico

 

Uma pipeta

pipeta a

bureta.

Outra

bureta

torneira

na mão.

Pego no

copo

faço solução,

mexo

com a

vareta

em rotação.

Aqueço

no disco

ou no

bico a gás

dissolvo

e verto

para uma

matráz.

Agito assim,

diluir solução

metendo

com água

para um

simples balão.

É lindo

ver e pensar

mas sempre

seguro,

com muita

atenção.

A química

andando

com muita

emoção…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

JP in Ciência Poemas Química 28 Novembro, 2019

Gratidão

GRATIDÃO

Não sei se hei-de parar

ou escrever um poema.

O poema

do hino da gratidão

da vida e da harmonia.

A alegria

de pensar

ter apenas para dizer:

GRATIDÃO!

n Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse, Coimbra.

acessível aqui

JP in Poemas 22 Novembro, 2019