Laboratório químico

Laboratório químico

 

Uma pipeta

pipeta a

bureta.

Outra

bureta

torneira

na mão.

Pego no

copo

faço solução,

mexo

com a

vareta

em rotação.

Aqueço

no disco

ou no

bico a gás

dissolvo

e verto

para uma

matráz.

Agito assim,

diluir solução

metendo

com água

para um

simples balão.

É lindo

ver e pensar

mas sempre

seguro,

com muita

atenção.

A química

andando

com muita

emoção…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

JP in Ciência Poemas Química 28 Novembro, 2019

Tabela Periódica

Tabela Periódica

 

Que Tabela!

Quem pintou

esta tela?

Quem a criou?

Que tabela!

Quem sou,

no meio dela?

Onde estou?

Basta uma vintena

de teus elementos

para compor a cena

dos meus pensamentos.

Carbono e outros que tais

cálcio, ossos, dentes…

elementos iguais

combinações diferentes…

Que tabela

engraçada

o russo

inventou.

Deixou

-lhe

buracos

que a ciência

ocupou.

Há colunas

e linhas

sem ser

linear.

E o mundo

criado,

contando comigo,

tem lá seu lugar

tem lá seu abrigo…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

JP in Ciência Poemas Química 12 Novembro, 2019

150 anos da Tabela Periódica: um marco na história e na nossa vida

O estímulo intelectual que a Tabela Periódica induziu e provoca e as aplicações tecnológicas que esta arrumação dos elementos químicos permite e permitirá merecem ser festejados.

J. C. Paiva, 150 anos da Tabela Periódica: um marco na história e na nossa vida. Site PontoSJ. 1 de novembro de 2019. Disponível em

https://.pt/opiniao/150-anos-da-tabela-perodica-um-marco-na-historia-e-na-nossa-vida/

A ONU proclamou 2019 como o Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos. Esta organização reconhece a forma como a ciência química se tem vindo a manifestar relevante para a vida na Terra, nomeadamente por via das aplicações práticas em áreas como a saúde humana, a produção de novos materiais, a sustentabilidade, etc. Convergirão iniciativas celebrativas de organizações como  a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), a IUPAC (União Internacional de Química Pura e Aplicada), as sociedades científicas, incluindo a Sociedade Portuguesa de Química, universidades, escolas secundárias, e outras instituições públicas e privadas que quererão comemorar a importância da Tabela Periódica e as suas variadíssimas aplicações.

As tentativas de sistematização dos elementos químicos (mesmo antes de se ter a própria ideia de elemento químico) são tão antigas quanto a própria ciência. O nome Mendeleev, porém, é central nesta história. Nos finais do século XIX, Dmitri Mendeleev começa a esboçar uma forma revolucionária de classificar e “arrumar” os elementos. Este russo, o mais novo de mais de uma dúzia de irmãos, intuíra que se poderia numa mesma estrutura organizativa dispor os elementos de acordo com o seu peso atómico e, também, de acordo com as semelhanças das propriedades atómicas das respetivas substâncias. Uma ideia congénere (a famosa lei das oitavas, de analogia musical) havia sido tentada pelo químico britânico Newlands, mas, em bom rigor, não foi muito levada a sério (nestas coisas da ciência, como em tudo na vida, não basta o génio: há que estar na hora certa e no local certo…). Mendeleev juntou elementos em grupos de sete, dispondo-os em linhas, notando que, com certa periodicidade, as propriedades se repetiam. Por isto mesmo esta genial organização foi batizada de Tabela Periódica. As linhas horizontais, a que se chamam períodos, e as colunas, a que se chama grupos.  Sabemos hoje, melhor do que na altura de Mendeleev, que as linhas horizontais têm os elementos ordenados segundo o seu número atómico (isto é , o número de protões, que, em bom rigor, define um elemento químico). No primeiro período, por exemplo, temos o hidrogénio com número atómico um e o hélio, com número atómico dois. As colunas da Tabela Periódica, por ser turno, definem elementos cujas substâncias têm propriedades semelhantes. Cobre, prata e ouro, por exemplo, são metais do grupo 11.

A genialidade de Mendeleev foi ter deixado ‘buracos’ na sua tabela com vista a poder incluir  elementos que não se conheciam ainda mas que tinham um lugar reservado para ulteriores descobertas. Impressionante, também, para não dizer belo, foi a forma como os novos conhecimentos químicos se ajustaram a recompreender sucessivamente a estrutura da Tabela. A mecânica quântica trouxe a possibilidade de estabelecer o conceito de orbital, como uma zona do espaço onde há eletrões.  Às orbitais mais externas dos átomos chamamos orbitais de valência e, como numa sinfonia, os elementos do mesmo grupo apresentam todos o mesmo número de eletrões de valência.

A Tabela Periódica contempla cerca de 120 elementos distintos: destes, 92 são naturais e os restantes são sintetizados artificialmente, sendo que a maioria destes, pela sua instabilidade, apresentam tempos de vida ínfimos. O corpo humano, grosso modo, tem 63% de hidrogénio (por isso somos tão explosivos…), 26% de oxigénio, a maioria do qual formando água com o hidrogénio (por isto metemos tanta água…) e 9% de carbono (por isto somos orgânicos…). O resto são pequenas quantidades de material: enxofre nos cabelos, cálcio nos ossos e dentes, cobalto na vitamina B12, ferro na hemoglobina, potássio na rede neuronal (em quantidade variável…), zinco para oxidar o álcool (que às vezes entra de mais no nosso corpo…), etc. Se houvesse dúvidas, eis que, definitivamente, nós somos química! Todos estes elementos têm o seu lugar na Tabela Periódica…

Para muitos cientistas e agentes culturais, admito que para os químicos, suspeitamente, mais ainda…, a Tabela Periódica constitui um ex libris da ciência. É o cartão de visita da química e do conhecimento da matéria e é notável o que esta higiene classificativa trouxe ao mundo, de conhecimento e progresso. Mais ainda, o que esta organização promete ainda…

A Tabela Periódica encerra algumas provocações metafísicas, de gradientes variados. Especulemos sobre duas dessas extrapolações, em polos opostos: 1) a Tabela Periódica é a última palavra sobre o que somos, material e literalmente. Somos átomos de cerca de uma centena de espécies e, connosco, todo o universo é apenas e só matéria. Este radical-naturalismo, de pendor materialista e positivista, não deixando espaço a ‘outras realidades’ é uma possibilidade e representa uma crença muito comum nos nossos dias; 2) a Tabela Periódica, como outros construtos da ciência sobre a natureza, sublinha de tal maneira a harmonia e a ordem no mundo material que, de forma inequívoca, é a prova científica da existência de um criador. É verdade que num plano existencial e até poético podemos vislumbrar o dedo da criação na beleza e na harmonia da natureza plasmadas na construção científica em objetos como a Tabela Periódica. Mas a ciência e os seus modelos são sempre dinâmicos e as metodologias da ciência não se aplicam a perguntas da ordem do ‘porquê’ mas sim do ‘como’. A fé num criador carece de risco e não é provada pela via da ciência.

Por ocasião deste centenário celebremos a ciência e os seus progressos. O estímulo intelectual que a Tabela Periódica induziu e provoca e as aplicações tecnológicas que esta arrumação dos elementos químicos permite e permitirá merecem ser festejados. Sabemos que nem todas as aplicações da ciência beneficiam o homem e por isso a ética se impõe em qualquer reflexão desta natureza. A ciência trilha, juntamente com outros olhares, um tatear da beleza e do potencial da humanidade. Com fé, podem entrever-se véus mais ou menos discretos de um Criador amoroso.

JP in Ciência Química Sem categoria Textos 6 Novembro, 2019

tabela periódica e exceções em ciência

Muitos dos princípios e tendências usados pelos químicos apresentam exceções. A Tabela Periódica, na sua sequência natural de aumento sucessivo de massas dos elementos, é contradita pelas massas atómicas do árgon e do potássio, por exemplo. A natureza, no seio das suas regularidades, apresenta os seus caprichos. Em química, a exceção não implica refutação mas ajuste… Será uma boa lição de vida?…

JP in Ciência Frases Química 30 Outubro, 2019

respiração…

O movimento associado à respiração (tão fundante nas práticas meditativas) é cósmico, energético e fraterno. E nada mais corroborante do que a interpretação química: 1) as moléculas de oxigénio que inalamos (ou parte delas) já estiveram noutras estrelas e espaços cósmicos; 2) é devido ao rompimento das ligações entre átomos de oxigénio e à concomitante formação de outras ligações químicas fortes que, por causa da respiração, amparamos as nossas reservas energéticas; 3) as moléculas de oxigénio que inspiramos já estiveram nos pulmões de milhares e milhares de outros seres humanos, nossos irmãos respirantes…

JP in Educação Espiritualidade Química 24 Outubro, 2019

Hino à química

Hino à química

 

Quão

Útil

Incrivelmente

Mágica

Interrogante

Curiosa

Abrangente…

 

Quão

Universal

Imprevisível

Monumental

Impressionante

Concorrida

Ampla…

 

Quão

Utópica

Inatingível

Mito

Invenção

Colorida

Alquimia…

 

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

JP in Ciência Poemas Química 22 Outubro, 2019

Galileu e a Igreja…

Galileu foi obrigado pela Inquisição a negar o que, na senda das suas observações e num ambiente de emergência da metodologia experimental, descobrira. Até Galileu imperava a teoria geocêntrica. A Terra como centro do mundo era muito mais do que uma noção de conhecimento sobre o mundo: tinha implicações culturais, sociais, filosóficas e religiosas.

Galileu deu enquadramento científico às ideias lançadas pelo monge Nicolau Copérnico, muitos anos antes, defendendo a teoria heliocêntrica.

Retirar à Terra o estatuto de centro do universo seria também profanar a «casa» da Humanidade e, em certo sentido, tirar alicerces à ideia da criação do universo por Deus. As ideias cosmológicas de Aristóteles, apresentando a Terra no centro, eram mais confortáveis para as mentalidades da época e para o respetivo encaixe nas escrituras.

A Inquisição, instituição «fiscalizadora» da Igreja à sombra da qual se cometeram os actos mais anticristãos, limitou, naturalmente, o genial pensador. Conta-se que Galileu, depois do julgamento no qual foi condenado, terá dito, convicto das suas ideias, a frase «Eppur si muove!», isto é, «porém, ela move-se», referindo-se à Terra. Há quem aponte, com razão, que Galileu é o pai da ciência moderna.

O papa Urbano VIII e alguns jesuítas terão «blindado» piores consequências para este visionário, mas a mentalidade da época e o eclodir do protestantismo, que provocou na Igreja Católica uma atitude defensiva, não evitaram a sua condenação.

Seria, porém, simplificar demasiado a questão reduzi-la a uma simples cegueira da Igreja Católica. Alguns contemporâneos de Galileu, como, por exemplo, o dinamarquês Tycho Brahe, que utilizava um dos melhores observatórios astronómicos do tempo, defendiam um sistema geocêntrico modificado, que era muito popular entre os astrónomos. Além disso, há que ter em conta que uma das provas decisivas do heliocentrismo, a paralaxe das estrelas, não pôde ser apresentada por Galileu, dado que os instrumentos de observação astronómica de que dispunha não tinham qualidade suficiente para a verificar. Embora houvesse muitas evidências empíricas em favor da teoria heliocêntrica, Galileu não dispunha de uma prova conclusiva, que confirmasse definitivamente esta teoria.

A Igreja Católica, em várias ocasiões e de várias formas, já pediu desculpas públicas pelas injustiças que protagonizou em nome de Deus, na altura da Inquisição e, concretamente, no caso Galileu. Hoje, felizmente, o diálogo da religião com a ciência é diferente. Porém, para alguns, apanham-se ainda os «cacos» desta autêntica revolução. A teologia, focada na centralidade da Terra e do Homem, teve e tem ainda de se ajustar às evidências galilaicas e da cosmologia contemporânea, segundo as quais a Humanidade se encontra num universo diferentemente organizado e de proporções muito maiores do que se pensava.

JP in Ciência Espiritualidade Frases 10 Outubro, 2019

transhumanismo

Nas chamadas tendências  GRIN (Genetics, Robotics, Information Technology, Nanotechnology) espreitam dinâmicas de transhumanismo. “Complementos” tecnológicos já expandem e podem ampliar ainda mais as potencialidades humanas. Há aplicações indiscutivelmente interessantes, principalmente como próteses compensadoras de danos irreversíveis em acidentes. Mais discutíveis do ponto de vista ético são certas manipulações que “fintam” o envelhecimento, e onde a crucial pergunta “humaniza-nos?”, grita em fortes brados…

JP in Ciência Frases 30 Setembro, 2019

tempo e espaço

Mais do que estarmos no tempo e no espaço, somos tempo e espaço. Ontologia relevante, que tem as suas consequências: porque “sou” tempo e espaço, não me adianta sair, nem do tempo, nem do espaço… mesmo para tatear transcendências…

JP in Ciência Espiritualidade Frases 24 Setembro, 2019

eu e a química

Eu e a química

 

Interessa-nos

a coisa própria,

a matéria

ou a transformação?

E se ser,

a ontogenia

fosse

só um estado

estacionário

do nosso

interesse

dinâmico?

O que importa

é o que se move,

o que transforma,

e se transforma.

Eu, como tu

sou mais

do que

propriedades.

Somos mudança!

Parados no tempo…

nada valemos.

Sem crescer

nem somos ser…

Portanto,

eu e a química

temos identidade

pelo que criamos:

no universo

no mundo

à nossa volta

em nós

…dentro de nós…

 

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

JP in Poemas Química 20 Setembro, 2019