pedra angular

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 117 (118)

A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se pedra angular

 Jesus como pedra rejeitada… e pedra angular, é a profecia cristã entre-aberta no salmo 117. O fracasso da cruz ressuscitado pelo rasgar da desmedida misericórdia marca o centro da Páscoa cristã. Muitos ventos das mais variadas correntes psicológicas lançam o reconhecimento do trauma como um autêntico potencial de revolução pessoal. Todos nós somos tecidos de traumas marcantes, dentro da família, na escola, na sociedade. Reconhecer essas ‘mortes amorosas’ é fundamental. Uma vez reconhecidos e abraçados, amados e alavancados tais desamores, nós mesmos, pedras vivas de uma construção maior, tal qual somos, com as nossas fraturas, podemos ser não pedras (auto) rejeitadas… mas pedras angulares… como Jesus.

Este texto é adaptado em parte ou na totalidade de palavras anteriores já publicadas.

DOMINGO II DA PÁSCOA ou da Divina Misericórdia


LL 1 At 5, 12-16; Sl 117 (118), 2-4. 22-24. 25-27a
L 2 Ap 1, 9-11a. 12-13. 17-19
Ev Jo 20, 19-31

JP in Sem categoria 12 Abril, 2026

big bang e mistério

Sobre o que existiria antes da grande explosão a que chamamos Big Bang, a ciência e a religião têm uma «resposta» semelhante: “não se sabe”. A ciência afirma que, com os dados disponíveis, nada se pode dizer sobre o «antes» do Big Bang. A religião dirá algo de parecido: não sabemos o que existiria antes dessa megaexplosão. À religião importa mais, a este propósito, sublinhar que fomos e estamos a ser criados por algo que nos transcende, a que chamamos Deus. A questão do «antes» do Big Bang coloca a nu, de alguma forma, os limites da própria ciência. Os fundamentalistas da racionalidade prescindem de outros olhares e de outras possibilidades, não exclusivamente racionais, na forma de abraçar o mistério da existência do cosmos.

JP in Sem categoria 10 Abril, 2026

amortalidade

Paiva, J. C. (2026). Amortalidade. Site Ponto SJ, 06-04-2026. Disponível aqui

A nossa vida é uma vida de vida, não uma vida de morte. Como tal, qualquer vida que queira viver há de ser vida para a vida e não vida para morte. Mas a morte, como avesso da vida, para que seja uma morte de vida, pode ser encarada, falada, abraçada e amada. A vida e a morte dançam e a música que toca é o amor. Não é por acaso que, ancestralmente e ainda hoje, grande parte da pujança artística, das artes plásticas à literatura, passando pelo teatro, pela poesia ou pela música, triangulam, de alguma forma, a vida, a morte e o amor.

Há algum tempo realizei a minha Diretiva Antecipada de Vontade (DAV). Esse gesto fez-me refletir sobre alguns assuntos relacionados com a iminência da morte.

Recentemente tem-me vindo à memória o conceito de ‘amortalidade’ e, com ele, desafios éticos, tão profundos quanto práticos e urgentes. Talvez possamos atribuir a cunhagem do conceito de amortalidade a Catherine Mayer, uma jornalista americana nascida na Grã-Bretanha que, em 2011, lançou um livro com o título “Amortalidade: os prazeres e os perigos de viver sem idade”. Na sua escrita abordam-se os prós e os contras de viver mais tempo. Importa-me para a discussão em causa uma atualização tecnológica do conceito, mas mantendo a sua coerência interna: graças a todo um arsenal tecnológico interessante, contando com a bionanorobótica, agora ainda mais (hiper)potenciada pela inteligência artificial, a breve trecho poderemos (pelo menos teoricamente) viver centenas de anos. Está claro que seremos mais biónicos, numa fronteira indefinida entre a humanidade e a máquina, lato sensu. As próteses poderão ser robóticas e mecânicas, de escala média, como já existem, mas atuarão de forma muito mais sofisticada. Não é descabido imaginar, também, próteses mais capazes de agir à escala celular e bioquímica. Se um órgão começa a falhar, pois haverá maneira de o substituir por um órgão biónico e viver por mais uns tempos. Ressalve-se que a amortalidade não é imortalidade porque, mais tarde ou mais cedo, se morrerá. Mais ainda, em certos acidentes com esmagamentos físicos, poderá não haver próteses biónicas que nos valham.

A questão da amortalidade não é nova, impressionando apenas pela extensão que pode vir a evidenciar-se, colocando os mais variados dilemas éticos à humanidade. Querer viver mais um pedaço (ou para sempre, como procuravam desde sempre os alquimistas com o seu elixir) é humano e natural. Mas valerá a pena viver a qualquer custo?

Abaixo elenco alguns pontos de reflexão que me merecem ponderação pessoal e que poderão dar lugar a discernimentos coletivos importantes. Nem tudo o que podemos fazer devemos fazer e nunca é tarde para equacionar dilemas e ir esboçando caminhos éticos de viver e morrer melhor.

1 – Se nada de extraordinário acontecer neste grão de pó que habitamos, como a descoberta de possibilidades de vida noutros exoplanetas (parecidos com a Terra, mas muito longe daqui), por exemplo, a amortalidade estendida sem fim, trará uma impossibilidade real, pois não caberemos todos na superfície da Terra.

2 – Compreende-se a vontade de viver mais, mas os limites a esse desejo são um imperativo também humano, principalmente na assunção coletiva da existência. A morte como ‘dar lugar a que outros vivam’ torna-se uma evidência ontológica.

3 – Não viveremos já certos aspetos de amortalidade discutível? Por exemplo, as atuais máquinas farmacológicas (medicamentos cada vez mais sofisticados) não estarão, em muitas circunstâncias, a adiar mais do que o humanamente razoável a própria vida?

4 – Apesar da cada vez mais generalizada boa prática médica do não encarniçamento terapêutico, não haverá ainda muitas pressões, afetivas, jurídicas, bioéticas, que levam pessoal de saúde e famílias a estender, para além do humanamente equilibrado, a vida de muitas pessoas?

– Fixemo-nos em duas frases muito típicas ouvidas pelo pessoal médico da parte dos acompanhantes de doentes na iminência da morte, quando se aportam aos hospitais:

  • “Sr. Dr., faça-o(a) viver” (não importa como nem o que sofre tal doente, digo eu);
  • “Não estamos preparados para a morte desta pessoa” (temos de admitir que a morte é um tabu e tal é também verdade nas famílias cristãs).

Estas duas afirmações espelham bem o dilema pessoal, afetivo, relacional e social que acompanha as questões da morte. Por omissão, o que acaba por se praticar muitas vezes é a opção (compreensível, mas porventura a mais negativamente fácil) de prolongar a vida a qualquer custo.

6 – Seria de estimular a Diretiva Antecipada de Vontade, antes de mais em termos pessoais, mas igualmente aplicável a situações de tutoria de pessoas a todos os títulos mais frágeis? Ao prescindir deste direito e desta ‘conversa’ não estaremos, tão só, a anuir silenciosamente uma amortalidade irresponsável?

7 – Não seria de trazer à tona o que poderíamos chamar um certo ‘valor da morte’? Precisamente por causa da vida, da boa vida, muitas vezes, não viver e morrer por amor pode ter o mais amplo, humano e profundo sentido. Ao não forçar medicamente uma vida com sinais óbvios de finalização, estamos a amplificar o próprio sentido da vida, dando mais lugar de vida para mais e melhores vidas. É a fraternidade, também na hora da morte, assim não egoisticamente adiada.

8 – A amortalidade – alguma amortalidade, digamos assim – só deveria ter lugar ético na medida exata da solidariedade fraterna: termos à escala mundial níveis equivalentes de acesso a cuidados de saúde. Sonho grande e difícil de alcançar, mas que convém colocar no horizonte: “amortalidade: apenas se para todos”.

9 – Há um paralelismo muito interessante, registe-se, entre a amortalidade e a luta excessiva face ao envelhecimento, nomeadamente por via de cirurgia plástica e de outros procedimentos. A aceitação do envelhecimento (sem esquecer o seu custo), assim como da morte, tomada como uma bênção…

10 – O meu lugar pessoal, faço questão de esclarecer, não é matar. É deixar que a morte natural aconteça quando há sinais para tal, e que então se desenrole em paz, minimamente preparada e com o máximo alívio da dor possível.

No lugar crístico há uma síntese favorável: em chão de amor, a vida fez-se vida para sempre tornando a morte uma sempre penúltima palavra. Na esperança da ressurreição vivida cabe com fulgor, desde já e para sempre, morrer por amor. Eis a eternidade rasgada, tomada em aperitivo, desde já, por toda a humanidade. Tudo isto é relativamente fácil de teorizar, mas difícil de viver. Para ter um bom viver é preciso saber morrer, também…

JP in Sem categoria 8 Abril, 2026

não está aqui

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 28, 1-10

Não está aqui: ressuscitou

A Páscoa, mais confinada numa intimidade familiar ou mais pública, em comunidades maiores, é sempre a afirmação vivida de que a morte não vence. Nenhum contratempo, nenhum vírus, nenhuma contenção, nenhuma indefinição, serão a última palavra. O Evangelho poderia ter escrito, sobre a ida ao túmulo por parte das mulheres: “a morte não está aqui, ressuscitou…”

Páscoa é ponte, passagem. Da morte à vida. É a ponte do serviço, que só o é se for muito concreto. Em tempos, tentei ser concreto com sugestões para crianças, que fossem exemplos possíveis de ‘pontes de serviço’.  Hoje reconheço que podem fazer sentido, também para mim:
1-      Eu tinha o poder de me armar que tive boa nota no teste mas posso servir ajudando os colegas com mais dificuldades.
2-      Eu tinha (e tenho) o poder de andar de carro porque os meus pais têm carros mas posso servir a natureza e andar mais a pé.
3-      Eu tenho poder de gritar e dizer disparates e até ofender mas posso servir, escutando mais e dizendo coisas agradáveis aos outros…
4   Eu tenho o poder de gerir as minhas coisas e ficar com elas só para mim mas posso servir e emprestar ao irmão, ao vizinho, à amiga.
5-      Etc.

Este texto é adaptado em parte ou na totalidade de palavras anteriores já publicadas.

DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR

TEMPO PASCAL



L 1: Gn 1, 1 – 2, 2 ou Gn 1, 1. 26-31a
L 2: Gn 22, 1-18 ou Gn 22, 1-2. 9a. 10-13. 15-18
L 3: Ex 14, 15 – 15, 1
L 4: Is 54, 5-14
L 5: Is 55, 1-11
L 6: Br 3, 9-15. 32 – 4, 4
L 7: Ez 36, 16-17a. 18-28
L 8: Rm 6, 3-11
Ev: Mt 28, 1-10

JP in Sem categoria 4 Abril, 2026

mudança de época

O Papa Francisco afirmou que está não é uma época de mudanças mas uma mudança de época. Sente-se que assim é para a cultura, para a civilização e, obviamente, para a religião. Nesta mudança de época, será possível apenas permanecer no mesmo lugar?

JP in Sem categoria 2 Abril, 2026

Igreja-utopia

Para Halik não seria dramático entender a Igreja (sem fronteiras) como u-tópica (sem lugar na história). Mas tal utopia, nas suas palavras, é suficientemente sedutora e inspirativa para fazer caminho no tempo e no espaço. Recordo-me eu, a propósito, das palavras dos discípulos no Evangelho de João: “para onde iremos, Senhor, se só Tu tens palavras de vida eterna?”.

JP in Sem categoria 30 Março, 2026

confronto ateísta…

Não me interessa nada (já interessou…) o confronto com o ateísmo em sede apologética, tentando demonstrar a outros a razoabilidade da minha fé. Interessa-me mais, hoje, o confronto com o meu ateísmo interior. Nesse espaço me abro a crescer, resignifico a fé e me torno mais próximo dos meus irmãos que se reconhecem e se anunciam não crentes.

Presença

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 26, 14-27

Esta mesma noite, antes de o galo cantar, Me negarás três vezes

Em domingo de Ramos os Cristãos abrem portas de uma semana longa, intensa e fecunda. A liturgia faz um relato detalhado e longo da Paixão de Jesus. Entre vários momentos relevantes, destaca-se esta afirmação de Jesus para Pedro, que somos nós: ” Esta mesma noite, antes de o galo cantar, Me negarás três vezes”. Não se trata de uma adivinhação nem tão pouco de um agoiro ou pessimismo: é Jesus que sublinha a nossa contingência, o custo da nossa liberdade. Mas se aprofundarmos o contexto, o que Jesus enfatiza, em véspera de radical gesto amoroso, é a incondicionalidade da Sua presença. É a confiança de Deus em nós que transpira. É o amor que ama e está, independentemente do que fizermos, para além das nossas realizações, superando as nossas fragilidades. E que bom é dar sentido à vida assim, confiados e confiantes neste mesmo amor, o amor da Páscoa.

Este texto é adaptado em parte ou na totalidade de palavras anteriores já publicadas.

DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR


L 1 Is 50, 4-7; Sl 21 (22), 8-9. 17-18a. 19-20. 23-24
L 2 Flp 2, 6-11
Ev Mt 26, 14 – 27, 66 ou Mt 27, 11-54

JP in Sem categoria 28 Março, 2026

descansar

Descansa, que precisas, por todos os motivos: para cuidar de ti e para, cuidada pessoa, possas servir melhor.

JP in Sem categoria 26 Março, 2026