continuidades…

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 5, 17-37

«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar»

Uma das dicotomias mais evidentes do cristianismo é aquela entre continuidade e descontinuidade. Não é possível ver, ler e relacionar-se com Jesus sem este lastro tensional entre continuar e descontinuar. Pode dizer-se de outro modo: herdar e recriar, tradição e inovação… ou manter versus revolucionar. O judaico-cristianismo é o mar desta sinfonia. Se nos cruzarmos com os evangelhos não podemos ficar indiferentes ao sentido descontinuista de Jesus de Nazaré: as suas denúncias do que está mal, as suas constantes críticas religiosas, o sentido crítico do legalismo, a forma como quase sempre “vira de pernas para o ar” o status quo. Por outro lado, Jesus assume-se como Judeu que é, encarna no fio da história e entra na viagem do tempo e do espaço. A morte por amor, e morte de cruz, pode ser lida como a verdadeira revolução (ressurreição) na continuidade do que somos (morrentes). A cada um de nós, por inspiração cristã, cabe discernir onde quebramos e onde continuamos, para dar sentido à nossa vida a à vida do mundo. Os extremos, quer personologicamente, quer socio-politicamente, serão tipicamente menos cristãos e humanos. A radicalidade que importa é outra coisa: é a radicalidade desse mesmo discernimento amoroso…

NOTA: Este texto é repetido/ajustado a partir de evento já publicado neste blog anteriormente.

DOMINGO VI DO TEMPO COMUM

L 1 Sir 15, 16-21 (15-20); Sl 118 (119), 1-2. 4-5. 17-18. 33-34
L 2 1Cor 2, 6-10
Ev Mt 5, 17-37 ou Mt 5, 20-22a. 27-28. 33-34a. 37

JP in Sem categoria 14 Fevereiro, 2026

Biologia…tecnológica

A biologia, como tal, é criada praticamente no séc XIX. Nascida, em certo sentido, como refém da física (e, portanto, altamente teorizada) transforma-se numa atividade muito prática, numa engenharia biológica, afastando-se cada vez mais da teorização…

JP in Sem categoria 12 Fevereiro, 2026

descentramentos

Há quem aponte três «descentramentos» ao longo da história da ciência, mais ou menos baseados num certo narcisismo do homem (antropológico):

1) A Terra deixa de ser o centro do universo. Esta revolução aconteceu com Galileu que, com grande rasgo e intuição, recusando as ideias aristotélicas do seu tempo (teoria geocêntrica), fez observações e concluiu que a Terra não era o centro do universo (teoria heliocêntrica). As suas incursões científicas valeram-lhe sérios problemas com a Inquisição.

2) A espécie humana deixa de ser o centro. Esta revolução dá-se com Darwin. A sua teoria evolucionista coloca a nossa espécie como um elo de uma cadeia complexa de evolução, onde outras espécies de ontem e de hoje se entrelaçam. Em todo o caso, o sinal é claro: a espécie humana, tal qual a conhecemos, não foi criada como primeira espécie viva na Terra.

3) A consciência deixa de ser o centro. Esta revolução deve-se principalmente aos trabalhos de Freud e à sua psicanálise, mas poderíamos associar-lhe outros autores da psicologia e até das neurociências. A valorização da área inconsciente da nossa mente impede-nos um certo domínio de nós próprios e coloca em causa, em certo sentido, a noção de liberdade interior e pessoal.

JP in Sem categoria 10 Fevereiro, 2026

fraquezas…

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Cor 2, 15

«apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor»

É curioso reparar na explicitação de Paulo em relação aos seus sentimentos e emoções enquanto protagonista da atividade apostólica. Ele não se reconheceria como o ‘herói de Cristo’, sem mácula e sem dúvidas, mas o ser frágil que se faz forte pela esperança e não pela impecabilidade. “Não me apresentei com sublimidade de linguagem ou sabedoria”, diz Paulo, como que dizendo que para se ser apóstolo não é preciso dons extraordinários mas antes humildade e confiança, fé num Deus que é amor e que se quer revelar a todos, por via de cada um de nós. A experiência de seguimento cristão poderá tornar-nos, em certo sentido, ‘maiores do que nós mesmos’. Mas o ponto de partida desse crescimento é, precisamente, a consciência de fraqueza e de fragilidade. Partimos da nossa carência e isso nos tornará humildes (ligados à terra e à verdade) e fraternos (abertos aos outros – todos – carentes como nós…)

NOTA: Este texto é repetido/ajustado a partir de evento já publicado neste blog anteriormente.

DOMINGO V DO TEMPO COMUM

L 1 Is 58, 7-10; Sl 111 (112), 4-5. 6-7. 8a e 9
L 2 1Cor 2, 1-5
Ev Mt 5, 13-16

JP in Sem categoria 8 Fevereiro, 2026

Igreja em transformação

Podemos estar a assistir a uma certa transformação da Igreja, da religiosidade para a espiritualidade. Tal mudança, para mim, são portas que se abrem e raízes do Evangelho que se fortificam. Novos lugares espreitam, com uma mais clara noção de diálogo espiritual com outras linguagem e uma óbvia não apropriação das verdades da fé.

JP in Sem categoria 28 Janeiro, 2026

Nietzsche se vivesse hoje…

Friedrich Nietzsche acreditaria num Deus que dançasse. É também por isto, porque entendo que a cultura cristã de hoje pode bem dançar com Deus, que intuo que Nietzsche, se vivesse hoje, era bem capaz de ser cristão…

JP in Sem categoria 26 Janeiro, 2026

deixaram…

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 4, 1223

«eles deixaram logo as redes e seguiram-No»

A propósito desta descrição dos seguidores próximos de Jesus, fixemo-nos na prontidão da resposta ao apelo, que é sempre um convite tão mobilizador quanto libertador. A expressão “deixou logo as redes” pode ser inspiradora. Estar prontos para deixar o que pode ser deixado e atender os outros: deixar o ritmo de trabalho para atender melhor os filhos, deixar de ter algo, para partilhar, deixar um rancor para perdoar, deixar a televisão para conversar, e muitos mais auto-recados promissores, que esperam vida para se realizarem…

NOTA: Este texto é repetido/ajustado a partir de evento já publicado neste blog anteriormente.

DOMINGO III DO TEMPO COMUM

L 1 Is 8, 23b – 9, 3 (9, 1-4); Sl 26 (27), 1. 4. 13-14
L 2 1Cor 1, 10-13. 17
Ev Mt 4, 12-23 ou Mt 4, 12-17

JP in Sem categoria 24 Janeiro, 2026

o magis…

Às vezes também eu me pergunto, miserável crente, para quê meter Deus na equação. Mas a vida experimentada vai-me devolvendo que se amplia algo nos homens com a abertura espiritual…

JP in Sem categoria 20 Janeiro, 2026

cordeiro de Deus

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Jo 1, 29-34

«eis o Cordeiro de Deus»

A expressão “eis o cordeiro de Deus” é atribuída a João Batista, o dizente de Jesus. Os Judeus tinham o hábito de matar um cordeiro como expressão sacrificial a Deus. Jesus como cordeiro, convoca continuamente as raízes judaicas mas apresenta algumas descontinuidades relevantes: não precisamos mais de sacrifícios de animais para agradar a Deus (o próprio Cristo simboliza essa entrega) e o sacrifício que importa para Deus é o amor que a vida de Jesus testemunha. “Cordeiro de Deus” é uma frase frequente na eucaristia e aponta para celebrar a mais nobre e inspiradora entrega, aquela de morrer por amor. Sublinha-se esta essencialidade à volta da entrega de Cristo, que nos pode tornar precisamente seguidores de Cristo, precisamente cristãos…

NOTA: Este artigo é repetido/adaptado de um outro já publicado neste blog

DOMINGO II DO TEMPO COMUM


L 1: Is 49, 3. 5-6; Sl 39 (40), 2 e 4ab. 7-8a. 8b-9. 10-11ab
L 2: 1Cor 1, 1-3
Ev: Jo 1, 29-34

JP in Sem categoria 18 Janeiro, 2026

Ciência verde

Todos sabemos da importância das questões ambientais. A sustentabilidade do planeta está ameaçada supostamente também pelas múltiplas agressões continuadas da espécie humana. Uma das consequências mais evidentes é o aquecimento global, principalmente pela emissão de dióxido de carbono resultante de fábricas e transportes que suportam a actividade industrial e a vida dos nossos dias. A emissão de outros poluentes para a atmosfera, rios, solos e mares provoca danos adicionais. Esta circunstância determina a destruição da flora e da fauna, a falta de qualidade no ar que respiramos e na água que bebemos e, em síntese, a ameaça à biodiversidade e a perda da qualidade de vida.

JP in Sem categoria 16 Janeiro, 2026