a memória da morte pode fazer viver…
Alfredo Dinis foi(é) um amigo. Padre jesuita, com quem partilhei aventuras literárias, humanas e cristãs. Escrevi, no dia da sua morte:
Alfredo Dinis foi(é) um amigo. Padre jesuita, com quem partilhei aventuras literárias, humanas e cristãs. Escrevi, no dia da sua morte:
O Deus a quem os cristãos dão crédito é a explicação última do universo e da vida, mas respeita a autonomia e a liberdade do Universo e dos seres que criou e está a criar. Não faz tudo porque toma a sério a nossa liberdade. Criou um universo em evolução e respeita a autonomia das suas leis e processos. “Saberá” tudo? Não saberá senão o que se pode saber? Saberá como vou decidir viver a minha vida nos próximos tempos? Espera para ver e respeita as decisões que eu tomar? (apesar da Sua realidade superar a nossa limitação espaço-temporal) … um mistério de Fé!…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Ex 22, 20-26
Do livro do Êxodo temos a explicitação da nossa tradição hospitaleira face ao estrangeiro. Numa altura civilizacional em que as questões das migrações estão em cima da mesa, não tanto por serem novas mas porque circulam com rapidez e generalidade num mundo globalizado, resignificamos o gene do acolhimento que nos marca. Sempre fomos migrantes. Como é dito no Livro do Êxodo, nós mesmos já fomos estrangeiros. O mesmismo dos que se fecham e o medo da nossa clausura são a trincheira estéril que não gera nada. É na abertura, no acolhimento, nunca na opressão, que nos tornamos viajantes coerentes, crescentes e fecundos.
Não fomos feitos para não sofrer nem para não morrer, mas para dar a vida.
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 22, 15-21
As perguntas difíceis a Jesus, tipicamente engendradas em chave de cilada, são as perguntas difíceis da nossa vida. Tocam as zonas nevrálgicas da existência. No caso presente, a relação com a posse. Na cena apontada pelo Evangelho estamos diante da posse (e do poder que tal representa) do dinheiro. Mas a extrapolação para outras posses é muito possível: posse de mérito, posse de posições, posse dos outros, posse de estatutos. Dar a César o que é de César (e a Deus o que é de Deus) é relevar a contingência de ter, seja o que for. Talvez se perceba melhor, a partir daqui, que amar é abrir mão, que amar é largar…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 22, 1-14
Uma reflexão que podemos fazer, a partir desta parábola, é esta: “que convidado sou”? Certamente cada um de nós é um pouco dos dois estilos: ora ingrato, não aproveita os convites para o banquete, desperdiçando graça e aventura, ora, por outro lado, não sendo digno de convite, lança-se e aceita o convite do Senhor, desfrutando da abundância. Cientes de que somos convidados mais por graça de quem nos convida e nos pesca na encruzilhada da vida, do que pelos nossos méritos, vamos ao banquete do Senhor. O ambiente da festa é a abertura ao encontro e a fecundidade que brota… E não esqueçamos o traje nupcial, que é precisamente a caridade…
Não datará apenas da Reforma a tensão entre a Salvação, as obras e a Graça. Em tempos de reconciliação cristã podemos acordar numa tomada de conta que nos sacode do fito do mérito e nos abre à consciência humilde da Graça: salvamo-nos porque Deus é Bom!
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 79
“Mostrai-nos, Senhor, o Vosso rosto”, cantamos no refrão do Salmo. Conhecer o rosto de alguém é condição para uma relação, para uma entrega, para um compromisso de amor. O rosto de Deus é, para nós cristãos, o rosto de Jesus. A imagem de Jesus que nos é transportada pela História, pela tradição, pela arte, ou até pelos filmes que recriam a Sua vida pode não corresponder fielmente à realidade. Há traços, contudo, que convém ter presentes: o rosto da misericórdia, o rosto da tolerância, o rosto da paz, o rosto do incentivo para recomeçar, o rosto do abraço. O rosto que não impede o atrito na liberdade mas é promessa de companhia. Estes traços do rosto do nosso Deus deverão ser observados por nós e evitar visões faciais que Deus não tem, como a do medo, a da imposição ou a da austeridade inconsequente.
Há um poema de Khalil Gibran bastante conhecido, intitulado “pegadas na areia”. No remate da história, Deus leva-nos ao colo. Tenho algumas cócegas na areia… É que vejo e experimento mais Deus a acompanhar-me no deserto do que a levar-me ao colo…