Deus e a realidade…
Não são muito promissoras as abordagens que focam no milagre um Deus que se acrescenta à realidade. Pelo contrário, Deus age e ‘trabalha’, na realidade, a partir da realidade e com a realidade.
Não são muito promissoras as abordagens que focam no milagre um Deus que se acrescenta à realidade. Pelo contrário, Deus age e ‘trabalha’, na realidade, a partir da realidade e com a realidade.
Tenho simpatia pelo Iluminismo, retirando-se-lhe os respetivos exageros, ainda hoje “em pagamento”… O iluminismo não ‘proíbe’ o mistério, antes desencoraja o autoritarismo aleatório de Deus, pedindo mais à teologia contemporânea. A explicação científica (com as suas inspirações iluministas), por simetria, não subtrai ao milagre mas desencoraja o milagreirismo…
Às vezes falamos (ou gritamos?) como se não tivessemos noção dos limites da nossa voz. Onde terminará? Será sempre limitada? Inspiram-me os místicos em duas frentes sobre o sentido da voz: 1) convergir para que a nossa voz seja uma melodia da transcendência amorosa (já não a minha voz, apenas); 2) dar voz à grande força do silêncio…
É bonito e talvez seja Páscoa achar que nunca ninguém nos deve nada.
O pouco que se dá, a ser dado, é dado, não tem retorno.
Jesus fê-lo impecavelmente ao amar os homens até à cruz (na cruz importa sempre o amor e não a dor…) e vale a pena imitá-Lo nessa gratuitidade.
Por isso os Pais aos filhos, os filhos aos Pais, os padrinhos aos afilhados, os amigos aos amigos e Jesus aos homens, dão sem expetativa e sem esperar nada em troca, aceitando cada um como cada qual. Esta Páscoa te desejo!
O que Jesus faz na cruz, que é um pico de amor, mais ainda do que um pico de dor, é um grande sim à realidade, como ela é. É o primado da aceitação concentrado num único sonho que nos supera: o de sarar feridas com entregas!
A não literalidade bíblica é uma conquista na catolicidade que não é absolutamente nova (tem muitos séculos de caminho). Tal não literalidade não está ainda defenitivamente entranhada na vida dos crentes. Embora podendo chocar um pouco, talvez se possa afirmar: “a Bíblia não é a palavra de Deus”. Pode dizer-se, melhor: “a Bíblia contém a palavra de Deus… que dela se pode extrair, dinamicamente e com fé…”
O ritual e, nele, a repetição vivida como novidade, oferecem-nos em potência uma chave de luz: a sacralidade do ordinário. Ao mesmo tempo, o ritual precisa da nossa participação e abertura, para receber como novo o que se repete. O ritual só é sagrado se o triangularmos com as nossas mãos abertas e curiosas…
Natal 2020
Seja esta festa para todos e para cada um, a festa da ‘normalidade do espanto’.
O espanto do amor que tudo excede e a normalidade frágil e potente que somos nós.
O Belo fez-se versão humana para que o humano seja Belo.
O que falta fazer é o véu de mistério que nos permite antever, fazer e ser o desafio maior da nossa existência.
…E o resto da história está a fazer-se com as nossas vidas que, dando vida, realizam a Vida no mundo.
A paciência comigo e com Deus tendem a confundir-se. É esse o tutano da significância maior de que “Deus mora dentro de mim”…
Chardin sublinha assim a sua nobre missão existencial de puxar para o cristianismo a cumplicidade da fé com o tempo, o espaço, a natureza e a vida: “sermos filhos do Céu não nos impede de ser filhos da Terra”.