Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 2, 22-40

«Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor»

Dando cumprimento à Lei de Moisés, Maria e José levaram o Menino ao templo. O gesto central de Maria e de José, é o de oferecer o seu filho e, desta forma, estabelecer uma cumplicidade com a missão salvadora de Jesus e a sua doação a todos nós. Opõem-se ao gesto de oferecer, as atitudes de possuir, manipular, controlar, chantagear e construir expectativas formatadas. Quantas vezes, nas nossas relações (os pais em relação filhos mas não só), não teremos esta atitude de possuir, em vez de oferecer?…

JP in Espiritualidade Frases 2 Fevereiro, 2020

teologia negativa

Da indizibilidade de Deus facilmente chegamos ao estilo útil da teologia negativa: evidenciar o que Deus não é. Muitas vezes, na teologia, na argumentação do dia-a-dia, no trabalho apostólico, nos diálogos connosco próprios, a par do silêncio, podemos usar com vantagem este caminho…

JP in Espiritualidade Frases 28 Janeiro, 2020

eles deixaram logo as redes e seguiram-No

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 4, 12-23

«eles deixaram logo as redes e seguiram-No»

A propósito desta descrição dos seguidores próximos de Jesus, fixemo-nos na prontidão da resposta ao apelo, que é sempre um convite tão mobilizador quanto libertador. A expressão “deixou logo as redes” pode ser inspiradora. Estar prontos para deixar o que pode ser deixado e atender os outros: deixar o ritmo de trabalho para atender melhor os filhos, deixar de ter algo, para partilhar, deixar um rancor para perdoar, deixar a televisão para conversar, e muitos mais auto-recados promissores, que esperam vida para se realizarem…

JP in Espiritualidade Frases 26 Janeiro, 2020

de mãos vazias para a surpresa seguinte

Há uma ‘técnica’ relevante para viver ainda melhor as coisas boas que nos acontecem e que agarramos com ambas as mãos. Trata-se de a) saborear; b) agradecer; c) devolver (…) e d) ficar de novo com as mãos vazias, em abertura às próximas surpresas.

JP in Espiritualidade Frases 22 Janeiro, 2020

eis o Cordeiro de Deus

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Jo 1, 29-34

«eis o Cordeiro de Deus»

 

A expressão “eis o cordeiro de Deus” é atribuída a João Batista, o dizente de Jesus. Os Judeus tinham o hábito de matar um cordeiro como expressão sacrificial a Deus. Jesus como cordeiro, convoca continuamente as raízes judaicas mas apresenta algumas descontinuidades relevantes: não precisamos mais de sacrifícios de animais para agradar a Deus (o próprio Cristo simboliza essa entrega) e o sacrifício que importa para Deus é o amor que a vida de Jesus testemunha. “Cordeiro de Deus” é uma frase frequente na eucaristia e aponta para celebrar a mais nobre e inspiradora entrega, aquela de morrer por amor. Em semana de particular intensidade para a unidade dos Cristãos, une-nos esta essencialidade à volta da entrega de Cristo, que nos pode tornar precisamente seguidores de Cristo, precisamente cristãos…

JP in Espiritualidade Frases 18 Janeiro, 2020

Pai nosso alternativo

Pai Nosso alternativo

 

 

 

Pai nosso

Que estás no Universo

Especial é o Teu Ser.

Abra-me à

Relação conTigo.

Se realize,

Por mim e

Com todos,

O Teu sonho.

Agradecemos-te

Todos os dons

Da vida.

Agradecemos-Te

O amor maior

Do perdão

E pedimos a graça

De também nós

Amarmos assim

Todos os nossos

Irmãos.

Dá-nos a graça

De crescer

Na tentação

E salva-nos

…apesar do mal.

 

 

 

Soutelo, 11 de dezembro de 2016

JP in Espiritualidade Poemas 16 Janeiro, 2020

o Senhor abençoará o seu povo na paz

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 28

«O Senhor abençoará o seu povo na paz»

 

As afirmações bíblicas que apontam tempos verbais futuros situam-se muitas vezes no dinamismo da Promessa. “Ele nos abençoará”, diz o salmista, confirmando que, apesar da fragilidade humana e da contingência associada à possibilidade do mal, Deus está connosco. O modo como Deus nos abençoa tem um cunho específico, que é o cunho da paz. Poderemos sintetizar: “se vem de Deus, traz paz e consolação constantes”. Podemos entender esta paz em dois sentidos: a paz que é o próprio Deus e a paz em que devemos estar para O acolher. O fluxo da paz implica proatividade e tem um enorme potencial nas relações humanas, constituindo-se como um ideal vivível, de tal forma que os que estão mais próximos de nós nos podem experimentar como sinais de paz…

JP in Espiritualidade Frases 12 Janeiro, 2020

pontaria…

Pontaria

A paternidade tateia o cuidado.

O direito tateia a justiça.

O professor tateia a educação.

O matemático tateia o rigor.

O pedreiro tateia a construção.

A engenharia tateia a tecnologia.

A ciência tateia uma verdade.

O discernimento tateia a pontaria…

 

JP in Espiritualidade Poemas 8 Janeiro, 2020

ouro, incenso e mirra

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 2, 1-12

«ouro, incenso e mirra»

 

Os presentes dos reis magos a Jesus podem apresentar uma simbologia curiosa na epifania: o ouro era um apontamento dos reis, o incenso era usado para louvores a Deus e a mirra ajudava no embalsamento dos corpos. Esta tríada de rei-Deus-morte pode ser útil para uma aproximação cristã: em Jesus Cristo está, na nossa fé, um Rei especial que é filho de Deus e que é precisamente Rei, de forma original, por servir amorosamente até à morte (e, assim, libertando a morte e libertando da morte). Estes presentes dos magos são presentes a Jesus mas, igualmente, são presentes para nós…

JP in Espiritualidade Frases 4 Janeiro, 2020

Uma dúzia de notas sobre discernimento apostólico

J. C. Paiva, Ciência e religião: Uma dúzia de notas sobre discernimento apostólico. Site PontoSJ (que se recomenda…). 27 de dezembro de 2019.

Disponível aqui

Esta reflexão resulta, sobretudo, de um processo autocrítico e de alguns ensaios apostólicos relativamente mal sucedidos. Soma-se, claro está, um olhar mais ou menos atento ao que se vai passando à minha volta em certas dinâmicas eclesiais.

Convém, antes de tudo, situarmo-nos em relação ao que é apostólico. Tocados pelo fascínio e sentido de seguir o estilo de vida de Cristo, os Cristãos tornam-se, por assim dizer, Seus amigos, isto é, Seus discípulos. A alegria que gera esta Boa-Nova-vivida é, em si própria, contagiante e não se consegue conter. Talvez seja consensual que ser apóstolo é uma sequência (sobre)natural de ser discípulo. É próprio de ser cristão, portanto, um certo mandato apostólico.

A questão de fundo no dinamismo apostólico é, sobretudo, pedagógica. O dilema apostólico transforma-se, sobretudo, num desafio pedagógico. Em vários movimentos da história, sem excluir alguma perturbação  pendular, assistimos, a par de grandes virtudes, a empreitadas cristãs forçadoras, impositoras, amedrontadoras, conteúdescas, moralistas, etc.  É consensual que importa, nos nossos dias, em coerência com o que os evangelhos nos dizem do próprio Jesus, propor em vez de impor, dialogar em vez de apresentar categoricamente, ser pergunta aberta em vez de resposta fechada.

Nesta linha, autorecomendo-me e partilho com simplicidade, face ao dilema apostólico, o seguinte:

1- Evitar a militância... Falo das bandeiras muito içadas, que dão mais evidência à exterioridade da pertença do que à essência e ao futuro do ser. Entre um Deus que se quer revelar e o espaço livre de cada ser há um terreno sagrado que nenhum apostolado realiza. Não somos convidados nem a sermos a revelação, nem a fazermos o caminho de quem pode receber. A nossa missão é, tão só, desobstaculizar. No máximo, poderemos ser discretamente transparentes a certa luz que nos atravesse. Tirar algumas pedras do caminho não é isento de criatividade, esforço, inteligência, eficácia e entrega, mas é, (in)significantemente, apenas remover barreiras, apenas isso…

2- Ser mais pergunta! Sim, temos convicções e podemos afirmá-las. Mas de pouco vale afirmar o que não é perguntado. Só será fecundo o que deseja ser recebido. Muita água a quem não tem sede não sacia, encharca.  Neste sentido, nem sempre e talvez quase nunca com palavras, o apostolado mais eficaz é o que gera uma pergunta… Acresce ainda que na boa linha de ventos pedagógicos modernos, no melhor dos sentidos, as perguntas são muito vitais. O pensamento filosófico, a empresa científica, a própria curiosidade existencial alimentam-se de perguntas. Uma das consequências desta consciência é o estímulo das perguntas em dinamismos catequéticos e afins. Compreende-se que haja alguma doutrina básica mas o grosso do caminho da Palavra anunciada há-de tecer-se sobre as perguntas de quem vai receber, muito mais do que nos planos (rígidos) de quem engendra ofertas… Não será Deus uma pergunta?…

3- Evitar a redundância. Se há excelentes materiais de pontos de oração para a Quaresma, por exemplo, nas mais variadas formas e feitios, ponderar bem antes de elaborar mais. Se já se testou um mecanismo, atividade ou estilo de apostolado, porque não replicar de forma contextualizada. Se há materiais, recursos e ideias noutras línguas, porque não traduzir e implementar? Há que contextualizar personalizadamente mas sempre evitando a redundância…

4- Fugir dos personalismos. Cada um de nós é único e carismático. O movimento apostólico não há-de ser neutro mas antes seiva do contributo original de cada um que, em comunidade, cria força maior que a soma das partes. Há sempre uma margem de personalização em todos os empreendimentos e assim também no apostólico. Mas, tendencialmente, seria interessante concorrer para criar, alavancar, ajudar, sustentar… mas depois ‘desmamar’ e ir saindo, para que a obra continue para além de quem a começou a esculpir.

5- Uma boa (ou mesmo excelente) ideia é insuficiente. Ideias cheias de potencial apostólico e aparente oportunidade têm ser ratificadas pela realidade (o Espírito Santo que sobra…) e, em particular há que ter em conta se, de facto, no tempo, espaço e condição contextual, a realidade (as pessoas) pedem, têm sede, solicitam, vão aderir, ao que se pensa empreender…

6- Evitar a estatística. Apesar do item anterior, na vida apostólica, não há-de ser o quanto (quantas pessoas aderem, por exemplo) mas a qualidade… a qualidade dos frutos que conta.

7- Criar diversidade. Sempre que possível, propor na lógica de menu: várias opções, escolhíveis de acordo com os perfis e as necessidades, porque unidade não é uniformidade.

8- Evitar agrupamentos ingénuos e muito voluntaristas. É verdade que em Igreja se constrói com os diferentes e todos os mesmismos são de evitar. Mas, temos de convir, há feitios incompatíveis, visões divergentes, ambientes grupais insuportáveis. Vou mais longe: quando possível, em vez de nomear pessoas diversas para um grupo de trabalho, parece-me quase sempre melhor delegar em alguém a escolha/convite dos elementos para determinado grupo ou projeto apostólico. Depois, deixar trabalhar bem as boas lideranças…

9- Não estar agarrado a coisa nenhuma apostólica, isto é, garantir a gratidão. Tudo o que é apostólico é dádiva gratuita e desinteressada. Evitar as paixões possessivas e não valorizar em absoluto as birras por entrelançamento afetivo e falta de lucidez. Em dinamismo apostólico, qualquer cristão está pronto a largar… e sem remorsos, birras ou amuos…

10- Agradecemos aos senhores padres mas fazemos-lhes o favor, a eles e ao mundo, de não dependermos deles para idealizar, gerar e manter atividades. Não é só o imperativo do Concílio Vaticano II a apontar-nos a Igreja circular. São os recursos humanos escassos destes ministros especiais e cruciais que nos convidam a colocá-los numa posição mais estratégica do que executiva, mais monitorizadora do que controladora.

11- Avaliar sempre e sistematicamente e fazer a cheklist acima, podendo usar como grelha de observação filtros éticos e muito cristãos para ponderar o que fazemos, como: os meios estão adequados? estão a tornar-se fins? as finalidades estão claras?… Nesta avaliação, importa apontar para a sustentabilidade. Não é só um termo moderno, é um imperativo. Há que contar armas e perguntar sempre: isto tem pernas para andar, para se suster frutiferamente? Para ir um pouco além das pessoas e do tempo?…

12- Não esquecer que o principal é a inteireza. Acima escrevi que a tensão apostólica é fortemente pedagógica. Um entendimento mais ingénuo de tais envolvências pedagógicas poderia apontar para posturas marcadamente estratégicas ou, pior ainda, magistrais. Acontece que a melhor pedagogia é sempre tonificada pela autenticidade do ser, mais do que pelo engendrar, pelo dizer ou mesmo pelo fazer. Para ser apóstolo, portanto, basta ser…

JP in Espiritualidade Textos 30 Dezembro, 2019