teoria e prática na escola

Uma educação virada para as aplicações práticas pode ajudar a fomentar um conjunto de competências úteis aos alunos, nos mais variados níveis. É, muitas vezes, fazendo que se aprende. Por outro lado, não se deve desprezar a «ginástica mental», a conceptualização, a teoria, que podem, precisamente, sustentar mais e melhores práticas, usando o conhecimento. A prática representa um forte incentivo para a motivação, mas, pedagogicamente, é tão frágil pensar sem fazer, como fazer sem pensar…

JP in Educação Frases 8 Julho, 2019

humildade radical

De todas as urgências existênciais há um lugar especial para a radical humildade: constatar e estar atento e consciente face à autocegueira intrínseca, no que diz respeito ao conhecimento do mundo, à espiritualidade, às próprias virtudes…

JP in Educação Espiritualidade Frases 24 Junho, 2019

Verdade, Ciência e Religião

A Ciência e a Religião partilham pelo menos uma abordagem ao (complexo) conceito de Verdade: ambas se alimentam do mistério que envolve essa mesma Verdade e sabem-na, intrinsecamente, inalcançável.

J. C. Paiva, Verdade, Ciência e Religião. Site PontoSJ (que se recomenda…). 2 de março de 2018.

https://pontosj.pt/opiniao/verdade-ciencia-religiao/

 

Verdade, Ciência e Religião

Sempre que falamos de ciência e religião teremos de ter em conta que as pontes a lançar não deverão violar a consciência de que, uma e outra, possuem diferentes metodologias. Será interessante colocar em diálogo o que é diferente e atender a uma certa artificialidade compartimentalista, que está subjacente à criação humana das várias disciplinas. Mas nunca pisando o risco de chamar igual ao que se distingue e muito menos usar a mesma malha metodológica para “pescar peixe” diferente. Por isto mesmo, a palavra-chave entre ciência e religião nunca é inferência. A palavra inferência, no seu sentido lógico, remete-nos para afirmações de verdade deduzidas a partir de outras proposições consideradas verdadeiras. Ora, é este o terreno pantanoso da relação entre ciência e religião, observável, por exemplo, na conhecida teoria do “design Inteligente”, que, a partir de algumas evidências científico-biológicas induz afirmações de caráter religioso e vice-versa.

Ao contrário das inferências, podemos, isso sim, com eventual vantagem pedagógica, usar algumas analogias. As analogias são fundamentais na comunicação e na compreensão de muitos processos e conceitos. Usamo-las, inúmeras vezes, sem nos apercebermos. O dinamismo das analogias pressupõe um conceito alvo (onde se quer chegar) e um conceito análogo (de onde se parte). Estabelecem-se então pontes e relações que podem ajudar a clarificar alguns assuntos. Convém referir que as analogias são sempre não perfeitas e, sem exceção, apresentam pontos frágeis.

A procura da Verdade (neste texto deliberadamente escrita em maiúscula) é um assunto mobilizador em toda a nossa história cultural e mantém-se como ponto de interesse na atualidade.

A grande maioria dos cientistas reconhecerá que, em certo sentido, procura a Verdade. Muitos pensadores dedicam-se a tentar conhecer melhor como se processa o próprio conhecimento científico. Para Karl Popper, por exemplo, será preferível dizer que o que procuramos ao fazer ciência é afastar-nos do erro, sendo que, quanto mais esse caminho é trilhado, mais assuntos existem por conhecer.

A Ciência e a Religião partilham, pelo menos, uma abordagem ao (complexo) conceito de Verdade: ambas se alimentam do mistério que envolve essa mesma Verdade e sabem-na, intrinsecamente, inalcançável.

O confronto com o conceito de Verdade leva-nos à encíclica de Bento XVI, Caritas in Veritate. Ali, podemos assumir, confunde-se a própria Verdade com o amor (versão porventura mais “fresca” da palavra caridade). Acontece, porém, que o amor é, ele próprio, indizível, porquanto é identificável com a transcendência, mais do que um seu atributo. Um apontamento para o amor seria tomá-lo como a fonte de uma explicitação radical: “tu podes ser tu diante de mim”. Este primado de aceitação do outro, sinalizado (encarnado?) na relação de Deus com os homens e, assim, entre eles mesmos, tem alguma analogia com a forma como a ciência lida, aceita e tenta desvendar a realidade natural.

Um apontamento de Verdade para os católicos seria a própria tradição. Também aqui há alguma analogia com a ciência, que se faz com “gigantes aos ombros de gigantes”. Estas são palavras de Newton. Com efeito, um cientista acrescenta à ciência sempre a partir do que outros disseram e descobriram e não empreende qualquer investigação sem a respetiva revisão de literatura. Neste sentido, a ciência também se funda na tradição. Há um conjunto de regras de comunicação e ações que são respeitadas pela comunidade científica e que permitem consensos e progressos notáveis. Dir-se-á que a ciência está, ao contrário da religião, sacudida de dogmas de partida. Mas essa colocação é duvidosa… Há pressupostos essenciais na empresa científica, sempre latentes ao longo da sua própria génese e história. Nomeadamente, há ciência porque: 1) entendemos que a realidade existe; 2) entendemos que é possível conhecer a realidade e 3) entendemos que é bom conhecer a realidade. Dogma maior, qual crença, seria o de que existe unicamente o que é materializado e que apenas os óculos da ciência conseguem ver lucidamente o mundo.

A tradição da Igreja, porém, não é um fim em si própria, nem, tão pouco, se lhe pode subtrair o dinamismo de linguagem e atualização. A tradição vale na medida exata em que não é defendida como um projeto enterrado mas antes como um tesouro vivo, redito e religado com a realidade…

Poderemos ainda envolver a questão das emoções e dos sentimentos, cruzada cada vez mais com as nossas próprias virtudes e limitações biológicas. O nosso cérebro tem, à partida, tantas potencialidades quanto constrangimentos: face a um objeto, capta certa realidade (tateia?) mas, imediatamente, fica aquém de um certo sentido de totalidade, que é próprio da Verdade.

A Verdade, isso parece inequívoco, não será monopólio da ciência (cientificismo) nem de ninguém. Andará em espaços de uma tensão incontornável do próprio sentido da vida humana, algures entre a imanência das coisas (realidade) e as entrelinhas do mistério (transcendência).

o simples e o complexo em educação…

Há uma tensão constante entre aprofundar uma ideia e aligeirá-la. Por um lado, é missão do professor, precisamente, simplificar, mas, por outro lado, há simplificações que são simplistas e comprometem a verdadeira percepção da realidade, que é tipicamente complexa…

A procura docente bem se poderia resumir no equilibrio dinâmico destes dois pólos: o simples e o complexo…

JP in Educação Frases 12 Junho, 2019

não somos os nossos pensamentos…

Nós somos também o que pensamos mas somos mais do que pensamos (como somos mais do que aquilo que fazemos…).

Uma leitura interessante a fazer face a muitas das nossas autoprisões é, precisamente, observarmos como nos tornamos reféns do que pensamos, como se fossemos o que pensamos…

Há depois pequenos ‘truques’ de gestão de pensamentos, como “aceitá-los como um hóspede”, “não julgar os pensamentos” ou “colocá-los numa novem… em standby“…

JP in Educação Espiritualidade Frases 6 Junho, 2019

a escola face ao esforço e o prazer

A tendência para fazer da escola um espaço agradável e propício à aprendizagem foi-se cimentando nas práticas educativas contemporâneas. O farol da motivação, dos recursos gráficos, das actividades lúdicas e das auto-aprendizagens foi aparecendo, cada vez mais, na mira dos educadores, abandonando-se aos poucos a aprendizagem enfadonha e de mero sacrifício. Mas será possível educar e ajudar a crescer sem esforço, sem sacrifício, sem «dor»? Será bom para um aprendiz não tolerar, em dose equilibrada, a frustração, o exercício repetitivo, a prática sistemática, a contenção de emoções e a “obediência”?…

JP in Educação Frases 4 Junho, 2019

o professor e as regras

As regras são importantes e a caricatura de uma escola sem regras fala por si. Considero, porém, que não se pode viver só de regras e, deliberadamente, o professor pode tentar quebrá-las no meio das aulas, mesmo com algum risco para a retoma de concentração. Pode valer a pena empreender algumas iniciativas mais lúdicas e afectivas, com mais ou menos ousadia e humor, mas tendencialmente fora do comum. Sabendo que as regras “são para quebrar” (…), quebre-as o professor de quando em vez, ordeiramente, para as retomar depois, com mais «autoridade afectiva»…

JP in Educação Frases 20 Maio, 2019

Dissonância cognitiva, razão e fé

A dissonância cognitiva é um excelente instrumento de confronto para a autenticidade religiosa. A procura desta coerência confunde-se com resignificar crítica e dinamicamente que a fé cristã é razoável.

 

J. C. Paiva, Dissonância cognitiva, razão e fé. Site PontoSJ.  10 de maio de 2019. Disponível em

https://pontosj.pt/opiniao/dissonancia-cognitiva-razao-e-fe

 

DISSONÂNCIA COGNITIVA

Dissonância cognitiva, razão e fé

Aprecio muito a ideia de “dissonância cognitiva”. O conceito foi inicialmente desenvolvido em meados do século XX pelo psicólogo americano Leon Festinger e entrou com alguma generalidade no léxico das ideias, do aprofundamento das relações humanas e das psicoterapias.

A dissonância cognitiva ocorre (muitas vezes, na vida de todos nós…) quando as nossas ideias, as nossas crenças e as nossas convicções não convergem com aquilo que a realidade, interior ou exterior a nós, nos devolve.  Face a esta ocorrência dissonante, há várias respostas e atitudes. O perigo maior é o autoengano, as autoexplicações e autojustificações que, não raras vezes, nos levam a perpetuar a própria dissonância cognitiva. Alguns exemplos:

1- Um “clássico” de dinamismo dissonante está patente na fábula da raposa e das uvas. Na impossibilidade real de comer as uvas e face a um desejo que não quer ser totalmente assumido, a raposa diz que elas são amargas e verdes. Não é difícil imaginarmos as “uvas verdes” que invocamos para múltiplos desejos que não alcançamos, materiais ou outros. Pode ser o carro da vizinho (que para assumirmos para nós próprios a impossibilidade de o ter, dizemos que afinal não presta), a roupa daquela conhecida que afinal até consideramos que é “pindérica” (que eu não posso ter) ou (in)sucesso do filho da minha colega de trabalho entre os seus pares (que contrasta com o fracasso social do meu filho).

2- Imaginemos alguém que frequenta uma medicina alternativa excêntrica ou mesmo uma bruxa e que, para o efeito, investe muito dinheiro. Se a realidade não oferecer objetivas melhoras de saúde, gera-se um quadro de dissonância cognitiva e uma das fugas mais frequentes é uma autojustificação, mesmo que desfasada da realidade. Já que investi muito nisto, e não podendo derrapar em dissonância, direi a mim próprio e aos outros que esta solução (onde apostei muito) é mesmo boa. Convenço-me disso e atenuo a dissonância…

3- Outro caso típico situa-se no plano amoroso: o investimento (e insistência) em relações amorosas com pouco futuro. Muitas vezes estes casos andam de mão dada com instintos salvadores. Contra tudo e contra todos, investi neste relacionamento… ele trata-me mal e consome drogas mas (porque investi muito e tipicamente avancei solitariamente e negando a realidade) justifica-se esta relação, que vai vingar (vou “acertar-lhe o passo”). Prefiro esta justificação para continuar o investimento e estabelecer assim a coerência interna daquilo que, na realidade, é uma disfunção.

O filósofo Nietzsche tem um termo central na sua obra que, de alguma forma, se relaciona com a dissonância cognitiva. Trata-se da transvaloração. De alguma forma, está em causa a passagem deste dinamismo de dissonância cognitiva para a própria história e que podemos ligar à famosa “morte de Deus”.

Dos confrontos interessantes e desafiadores que vou tendo com o mundo da não crença, destaco a invocação dos meus amigos ateus de que me encontro em dissonância cognitiva, no que diz respeito à religião. O argumento é este: inventei Deus, investi muito nessa ilusão; muito tempo, ideias, argumentos, energia, vida. Mesmo que a realidade me devolva a (óbvia, para eles) ausência de transcendência, irei autojustificar a minha crença, mesmo contra os factos. Ajuda muito nesta tese o próprio confronto com a ciência que, alimentando-se de factos positivos e objetivos, “prova”(…) que não há espaço para a fé. Deixo para outra ocasião a ideia de que o entendimento da ciência num quadro epistemológico correto, nos abre espaço a outras perguntas, que transcendem a própria ciência. Isto é, a ciência, bem entendida, exprime um construto humilde e consciente dos seus limites. Por agora gostaria de me concentrar no exercício autocrítico e aberto de confronto com esta ideia (que me é colocada bastantes vezes, por amigos ateus, num contexto que considero de genuína honestidade intelectual), de que nós, os crentes, inventamos um Deus que nos coloca em dissonância cognitiva mas que, para não perder o pé, justificamos a todo o custo. Alguns apontamentos:

a) mais do que a lógica de combate, importa, nesta discussão, desenvolver a empatia e sentido de diálogo. Este traço de leitura face à religião parece-me compreensível e com bastantes pontos fortes e (contra)testemunhos do lado católico.

b) mais ainda, trata-se de um argumento que muitas vezes nos surge a nós mesmos, enquanto pessoas de fé. A crença num Deus, mesmo que num Deus de amor, como se revela em Cristo, pressupõe constantemente risco e dúvida. O nosso tateamento de Deus é sempre entrelaçado num dinamismo de revelação, isto é, com entreposição de um véu, onde “se vê” translucidamente.

c) a resposta a esta argumentação tem uma frente bastante útil: a razão. Temos o dever de dar razão à nossa fé. A tradição da Igreja, desde os tempos da cristificação do logos grego e revitalizada por muitos seres brilhantes ao longo da história (Agostinho, Tomás de Aquino, Chardin, Ratzinger, para citar alguns) pode inspirar-nos. Além deste acompanhamento eclesial, cada ser singular na fé é convidado a reconstruir constantemente as razões da sua fé. Autoconfrontarmo-nos persistentemente com o claro perigo das falácias da dissonância cognitiva, é um excelente meio de desafio à abertura transcendente. Tantas vezes, com distâncias críticas curtas face ao nosso ser religioso, nos emaranhamos numa superficialidade existencial e religiosa, não raras vezes, longe do essencial? A Igreja e, na sua comunhão, cada um de nós, tem o dever de manter vivo e afirmativo o seu sentido autocrítico.

d) fator relevante no confronto crente face à dissonância cognitiva religiosa é a própria vida. Será, em última instância, uma vida cristã coerente que nos confere a coerência interna enquanto viventes de fé. A vida, ela própria, é a realidade por onde sopra o Espírito. Portanto, se há dissonância religiosa, em muitas ocasiões, não será melhor mudar a vida, em conformidade, do que ampliar o argumentário (tantas vezes moralista), como faz a raposa com as uvas?…

Ocorre-nos, como claro modelo neste cenário, o Papa Francisco: também com as palavras mas principalmente com os seus gestos e com a sua vida, com a sua autenticidade pedagógica, ele transforma a coerência interna numa ontologia, capaz de referenciar a vida dos homens.

A dissonância cognitiva é um excelente instrumento de confronto para a autenticidade religiosa. A procura desta coerência confunde-se com resignificar crítica e dinamicamente que a fé cristã é razoável. Depois é a coerência dos próprios atos, o trabalho  do processo e as portas que se abrem com cada gesto em cada tempo… A fé, diríamos em evitamento de dissonância, é salvaticamente vivível!

 

PS: Não esquecer que, ao jeito da linha psicoterapêutica, a nossa ajuda a pessoas em quadro de dissonância cognitiva não deverá ser o confronto direto nem o moralismo, mas o questionamento hábil, prudente e astuto, sempre misericordioso. Será sempre o próprio ser em dissonância, porventura ajudado, mas sempre ele mesmo, a mudar a agulha da autojustificação para a autodescoberta coerente…

JP in Educação Espiritualidade 14 Maio, 2019

Imagens ou palavras para educar?

Sejam imagens, sejam palavras, importa usar os meios mais adequados para os alunos perceberem do que se fala, compreenderem o que acontece, conquistarem o que os faz crescer. O professor fascinado vibra com o encanto da palavra, como vibra com a força da imagem e usa ambos os meios como escopro e martelo da obra de arte que é a educação.

JP in Educação Frases 2 Maio, 2019

novas inquisições

Sem retirar qualquer valor à ciência, de entre as novas inquisições contemporâneas, veja-se a de génese cientificista. É feita pelos inquisidores da classe científica fundamentalista, que censuram tudo o que não seja dito com a linguagem “própria” da ciência. Mais ainda, queimam o que não for metodologicamente científico e condenam na praça pública todos os que tangerem o politicamente incorreto de não se vergarem à “sacra verdade científica”…

JP in Ciência Educação Frases 16 Abril, 2019