ser eu
Há inspirações do existencialismos que me animam. Gosto muito e inspiro-me como dádiva face à máxima de Simone de Beauvoir: “aceito a grande aventura de ser eu…”
Há inspirações do existencialismos que me animam. Gosto muito e inspiro-me como dádiva face à máxima de Simone de Beauvoir: “aceito a grande aventura de ser eu…”
O conceito de vazio é sedutor, misterioso e complexo. O vazio temporal remete-nos para o seu avesso, para a eternidade, cheia de tempo. O vazio espacial leva-nos ao infinito cósmico. O vazio interior, por sua vez, é o passaporte do acolhimento do outro e da novidade que se nos abre…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Jo 18. 1-19
Inclinando a cabeça, entregou o espírito
São muitos os olhares pascais que se podem vislumbrar em sexta-feira Santa. A experiência é múltipla, íntima e rica. Podemos focar a entrega amorosa de Jesus na cruz nessa atitude interior de rendição, de abandono de si. Cada um de nós vai sendo convidado “a morrer assim”, inclinando a cabeça e entregando o espírito. Pode servir de metáfora inspiradora para a morte propriamente dita, que está já a acontecer nas nossas células e que se consumará biológica e sistemicamente, um dia. Mas inspira-nos igualmente para essas mortes banais do dia-a-dia que, na Fé, são sempre penúltimas experiências. Viver as pequenas e grandes mortes como penúltimas experiências é a esperança e a confiança do cerne daquilo em que acreditamos… e que somos convidados a viver…
O dinamismo da profissão de professor presta-se pouco a fechos e a sínteses, sendo mais coerente falar em portas e caminhos que se abrem. Esta é uma atividade gozosa, precisamente por ser um radical e constante livro aberto…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mc 14, 1-15, 47
ainda que todos te abandonem, eu não te abandonarei
A descrição da Paixão de Cristo, que meditamos em domingo de Ramos, é tão longa quanto profunda e repleta de sinais. Uma das formas de mergulhar neste texto é situarmo-nos nas diversas personagens e, em atitude criativa de composição do lugar, perguntar-se “quem sou eu neste cenário?” Pedro, que prometera não abandonar o Mestre, mas que o nega? Simão, o cireneu, que ajuda Jesus a levar a cruz? Um soldado? Um personagem incógnito que vê a cena mas não se envolve nem se co-move? Pilatos, que lava as mãos? O próprio Jesus? Maria, que assiste em envolvimento e dor? Barrabás, que se safa na frincha da sorte? O bom ladrão, que in extremis se arrepende e confia?…
“preciso de tempo para SER”
Na frase acima, a palavra em maiúsculas é fatidicamente substituída e vivenciada como sendo: ter, empreender, fazer, concluir, testemunhar, realizar, consumar, controlar, compensar, cobrir, salvar, socorrer, etc. Palavras complicadas, todas com mais de três letras…
Maior complexidade é diferente de melhor performance ou evolução. Sem garantias de sermos melhores ontem do que hoje, pelo menos a alguns níveis, apetece invocar não a teoria da evolução mas a teoria da transformação (mais prudente…)
As explicações monocausais tendem a ser insuficientes. Principalmente em sínteses curtas, por este motivo, tenho o dever de humildemente reconhecer que posso, senão ser, pelo menos parecer categórico…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Jer 31, 31-34
e não mais recordarei as suas faltas
O Livro de Jeremias anuncia uma aliança nova, referindo-se a um Senhor que fará um pacto definitivo com os homens. Embora para os cristãos, esta aliança seja consubstanciada na vida de Jesus Cristo é interessante observar os seus indícios judaicos: “perdoar os pecados e não mais recordar as nossas faltas”. Muitas vezes não valorizamos a radicalidade libertadora desta misericórdia, que “treinamos”, em particular na Quaresma. Podemos tentar, também nós, ser instrumentos da uma nova aliança de perdão para outras pessoas. Não sendo fácil (até porque não significa, tão só, esquecer) poderemos trabalhar o “não recordar as faltas” dos outros, incrementando em nós a capacidade de ver os com olhos novos. Sem tanger a ingenuidade, façamos um esforço por ver os outros como Deus vê… Em particular, que as faltas dos humanos com que nos cruzamos sejam mais pretextos de misericórdia nossa, do que matéria para “carimbos”…
A expressão de Thomas Halik de que a fé cristã precisa de um “segundo fôlego” é muito interessante. Este autor refere, em particular, o ‘mito da nostalgia infantil do Pai Natal”, focado na decepção da criança que descobre que a fantasia do Pai Natal era isso mesmo, uma fantasia… Ele quer dizer o seguinte: se me venderam uma fé e uma religião com argumentos infantis (se me disseram que o Pai Natal existia…) eu não só posso como devo abrir os olhos e endireitar caminhos. Mas não existir o Pai Natal, não significa que não há Natal. Da mesmo forma, abandonar a fé que me passaram baratamente e inconsistentemente não significa que não tenho lugar na fé. Preciso é de a resignificar, de lhe dar novos sentidos… Salvar o Natal apesar de não haver Pai Natal seria o paralelo para salvar a minha fé, apesar das catequeses infantis e insuficientes…