tempo e espaço
Mais do que estarmos no tempo e no espaço, somos tempo e espaço. Ontologia relevante, que tem as suas consequências: porque “sou” tempo e espaço, não me adianta sair, nem do tempo, nem do espaço… mesmo para tatear transcendências…
Mais do que estarmos no tempo e no espaço, somos tempo e espaço. Ontologia relevante, que tem as suas consequências: porque “sou” tempo e espaço, não me adianta sair, nem do tempo, nem do espaço… mesmo para tatear transcendências…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 12, 32-48
«Estai vós também preparados»
O Evangelho conta-nos a parábola de um Senhor que pode vir quando menos espera o seu servo (que somos cada um de nós). O estilo de preparação a que um Cristão está convidado, não é da ordem do medo do castigo infernal, do prémio ou do mérito. A preparação da vida espiritual, pessoal e comunitária é um trabalho da ordem do já, do aqui e do agora. É um processo… Há um Encontro que se pode fazer, que se pode antecipar desde já. Esse Encontro, que se vai fazendo e que só pode crescer na intensidade, é o Encontro que importa.
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 137
«Quando Vos invoco, sempre me atendeis, Senhor»
A vida de oração de um cristão, porque é uma relação, pressupõe a petição. Pedir é uma atitude fundamental em qualquer relação, embora pressuponha humildade. Quem entende que tem tudo, é autossuficiente e não pede… Pedir a Deus com um coração puro é certeza de receber. Será importante “não manipular”, isto é, embora colocando explicitamente o que acontece e se elabora, o que preocupa e o que se tece no tempo e no espaço, não deixar de ser sempre um pedir “o que for melhor para mim e para os outros”, o que é, por sua vez, intrinsecamente indeterminado… De alguma forma, pedir em oração, com fé, é passar um cheque em branco. A quem pedir assim, o Senhor atende…
10 -43 do segundo (sub-parte do tempo inimaginável na sua pequenez) é o “tic-tac” mais pequeno que existe. É o ‘tempo de Plank’. Especula-se se terá havido uma “flutuação de vazio quântico” na parte do tempo anterior ao que conseguimos alcançar no entendimento do big-bang. Mas tal vazio, a existir, é um vazio não ontológico… O “dedo de Deus”? Está aí e em todo o lado, mas não se crê que niguém creia por via da prova científica…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 10, 25-37
«quem é o meu próximo?»
A réplica do doutor da lei, quando Jesus invocou o antigo mandamento (“…e ao teu próximo como a ti mesmo”) é uma pergunta que nos pode server como revisão existencial continua: “Quem é o meu próximo?”. Na teoria, conhecemos já a resposta, sabiamente transmitida por Jesus na parábola do bom samaritano. Mas, na prática, quantas vezes nos esquecemos dos nossos próximos?… Em particular, como pessoa religiosa, pergunto-me: quantas vezes há envolvimento em heroicas missões apostólicas e esquecemos os que vivem em nossa casa, no nosso bairro ou no nosso trabalho, precisando de nós?…
Compreendem-se criticamente as atitudes mais fechadas e identitárias de alguns católicos romanos: o fechado, rígido e militante é aparentemente seguro… Mas, “nas coisas do alto (…)”, não há lugar para sonhos baixos, instalados e mesquinhos. A identidade religiosa afirma-se no diálogo radical, mimetizando, aliás, um Jesus Cristo que frequentava lugares duvidosos e tinha pouco de formalidade religiosa. Também do ponto de vista da identidade religiosa nos havemos de render ao radical diálogo, iluminado pelo convite bíblico mais libertador: é preciso perder para ganhar…
É impressionante como as temáticas bíblicas se aprofundam em espiral e se revisitam e se redizem sucessivamente. Muitas vezes, particularmente nos Evangelhos, certa passagem diz-nos, por via de um aparente detalhe, todo o Evangelho. Em certo sentido, se quiséssemos saber dos critérios de Jesus, sem prejuízo de um necessário olhar sistémico, bastaria olharmos a forma como lava os pés aos discípulos, como liberta (e nos liberta…) a mulher adúltera, como se acolhe o filho pródigo ou como se paga ao trabalhador de última hora…
ACREDITAR
Às vezes penso que só creio
porque não sei não crer.
Cobardia esta
a de não deixar
de olhar assim.
Sou gota de água:
ínfimo e
frágil.
Escorrego
não me aguento
e caio na
terra seca
que me criou.
…in Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse, Coimbra.
acessível aqui
Vejo Deus como um bébé quando nasce: olhos turvos do lado de cá, uma mancha apenas, excesso de luz e de amor. Terei de crescer, deixar-me abraçar e alimentar… para ver melhor. Mas como é bom e vital este aconchego … e a vida que me foi dada.
Não há um caminho exclusivamente racional para compreender a fé e, muito menos, para se ser religioso. A religião e a ciência, neste sentido, têm objectivos e caminhos diferentes. O que não significa que a fé não tenha também uma dimensão racional. A racionalidade humana não se reduz à racionalidade científica. As crenças humanas dignas de crédito não são só as que se baseiam neste género de racionalidade científica. Muitas das crenças humanas nas quais se fundamenta a vida das pessoas comuns radicam no testemunho e no crédito que dão umas às outras. Não são o resultado positivo de qualquer teste científico a que essas crenças sejam submetidas…