Discernimento e dúvida
O acerto está para o discernimento como a certeza está para a fé: tudo se joga na tentativa tateante e na dúvida estruturante!
O acerto está para o discernimento como a certeza está para a fé: tudo se joga na tentativa tateante e na dúvida estruturante!
Último segredo
Meu último segredo
é este deserto
este trabalho
este suor
de procura.
Disfarço
convicções fortes
mas são ténues
as formas
de um duro
esculpir.
Só vagamente
uma nesga de Sol
aquece
mares duvidosos.
Mas saboreio
uma laranja
na sombra da árvore
depois da horta
amanhada.
Esse gomo
me salva!
Fornos, 2019
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 118
«A vossa lei faz as minhas delícias»
As leis, no sentido jurídico e na sensação que causam nas pessoas, têm uma carga tipicamente pesada. Embora feitas, em princípio, para ajudar o homem e para lhe dar segurança, as leis provocam constrangimentos. É curioso ver no Antigo Testamento a palavra “delícia” associada à lei de Deus. Saborear a lei do Senhor como uma delícia implica a consciência vivida de uma lei especial. A lei de Deus só pode ser saborosa se for radicalmente enraizada no amor. Em Jesus, esta lei promete ser ‘jugo leve e alívio’ e o melhor teste dessa promessa seria ver a vida dos cristãos a espelhar a lei cristã como doce (mesmo que não fácil…).
José Augusto Mourão afirma algo que me impressiona, mais do que pela humildade, pelo realismo que contém. Para este autor, dizer “Eu encontrei Deus” é obsceno. Deus livrou-nos de Deus e os que O julgam agarrar melhor fora declararem-se, no máximo, tateadores…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 20, 27-38
«Não é um Deus de mortos, mas de vivos»
Os sadoceus colocam a Jesus uma pergunta deveras difícil: qual dos sete irmãos que casaram sucessivamente com a mesma mulher a irá “possuir” depois de morrer. A lógica e a aritmética dos sadoceus tem todo o sentido e é um bom ingrediente para justificar o seu cepticismo quanto à Ressurreição. Jesus apresenta-nos uma ideia diferente, que aponta para uma outra lógica e para um outro quadro de referência depois da morte. Nenhum de nós sabe o que se passará mas acreditamos que esta nova vida que nos espera terá a ver com o Amor, que é o próprio Deus. Podemos experimentar um aperitivo desse encontro, entre-tanto re-velado: já nesta vida, quando estamos a ser construtores do sonho de Deus, em relação com todos os seres humanos e com a natureza. Um “Deus dos vivos”, portanto…
Há três elementos de síntese na busca transcendente: bem, beleza e verdade. Estes padrões (ético, estético e ontológico) estão presentes noutras procuras mas seria interessante, para os crentes, em particular, não perder de vista estes três elementos, que nos apontam para Deus.
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 133
«O Senhor está perto dos que têm o coração atribulado»
Encontramos nos versos do Salmo uma ideia central da fé judaico-cristã: “O Senhor está perto dos que têm o coração atribulado”, isto é, de todos nós. Esta frase faz lembrar as bem-aventuranças que marcam o estilo de vida cristão. Elas refletem a nossa necessidade de Deus, a nossa ânsia de O procurar, de O encontrar e de O amar. A nossa carência… O nosso coração, sem Ele, fica necessariamente atribulado. Este Deus que procuramos é o resto de nós, é Aquele que, como se diz no salmo, “salva os de ânimo abatido”. Numa versão mais contemporânea, que simplesmente rediz uma tradição crente, a fé é o apoio vivível de que Deus (que é amor) está sempre ao nosso lado…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 120
«O nosso auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra…»
Quando se reza o credo na missa, de alguma forma nos encontramos com este salmo: “Deus criou (e está a criar) o céu e a terra”. Nada dizemos sobre as origens de tudo o que existe e a Bíblia não é o livro indicado para indagar sobre esse assunto (será melhor perguntar à ciência que, ainda que provisoriamente, nos dá boas pistas sobre a origem e a evolução da humanidade e do cosmos). O auxílio que vem do Senhor, porém, contém mas ultrapassa o alívio existencial de reconhecer O criador. É que este auxílio, na crença cristã, tem uma presença concreta e real, espelhável no espaço e no tempo. Reconhecer-me auxiliado, incondicionalmente, pode ser uma fonte de liberdade.
A minha não simpatia pela bruxaria (nada contra as bruxas…) resulta precisamente da superstição. A etimologia da palavra superstição pode ajudar (superstitio = ‘por cima’ ou mesmo ‘fora do lugar’). O que há, pois, é um curto-circuito da realidade, da vida. Notar que a religião não está imune à superstição e a deve combater. A perspetiva cristã seria sempre a de entrever a transcendência na realidade, pela realidade, com a realidade…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 17, 11-19
«Voltou atrás, glorificando a Deus…»
A leitura do Evangelho fala-nos de “voltar atrás para agradecer”, fala-nos de gratidão e humildade. Mas pode ser explorado pela diferença entre ‘curar’ e ‘salvar’. Em certo sentido, estes dez leprosos foram curados (com a provisoriedade que isso implica… iremos todos morrer…) mas, apenas um, o que regressa, terá sido salvo, isto é, terá encontrado (melhor, reconhecido) um sentido ultimo para o significado da sua vida. Reconhecer este encontro agradecido é, de facto, o cerne da nossa fé, o centro da nossa vida… reconhecido e agradecido…