luta e interioridade
A nossa vida interior tem algo de luta. Se assim for, a oração é um convite a pousar as preocupações, como o guerreiro pousa o arco e a flecha… e se rende…
A nossa vida interior tem algo de luta. Se assim for, a oração é um convite a pousar as preocupações, como o guerreiro pousa o arco e a flecha… e se rende…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 144
O salmo 144 caracteriza de forma muito bonita o indizível que é Deus: um Deus clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. Um Deus paciente que nos convida a recomeçar, que nos dá a mão direita e que contraria a nossa tendência autodestrutiva face aos nossos desvios (às vezes sinistros). O nosso Deus não se impõe mas antes nos convoca para O coadjuvarmos na história. Por isso somos convidados, hoje, homens e mulheres a ser também nós pacientes e cheios de bondade para com todos os outros.
Escrevi a uma amiga, mulher deste século, com uma provocação: Cara professora-mãe-esposa-sensual-gestora de casa-cidadã-não-super-mulher…”
A carência, é, definitivamente, o fulcro e até a alavanca da fé (como pano de fundo, bem entendido, está a Graça). Trata-se de uma carência amparável, o que demonstra a própria vida, apelando a uma fé, assim, exequível…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 13, 44-52
O Evangelho fala-nos de uma das parábolas do Reino dos Céus. Este reino é, neste sentido, uma pérola, um tesouro, que justifica que tudo vendamos para o ter. É curioso ter este olhar de pérola para com o próprio tempo: “vender tudo para ter o tesouro”, é tornar precioso cada minuto que experimentamos, seja de dor ou alegria, seja com esta ou aquela pessoa, seja de luz ou de escuridão. O que importa, é que seja vivido intensamente, como se nada mais houvesse do que esse mesmo minuto…
Há uma “pescadinha de rabo na boca” em que me sinto baralhado. Trata-se de gerir bem o tempo em que não sei gerir o tempo. Tantas vezes… Ocorre-me uma autoproibição (não me culpabilizar) e uma palavra de ordem (recomeçar).
Autoilusão consentida
Assumo esta
autoilusão
…consentida
até desesperada.
Daqui, da sede
calada que grita,
invento Alguém.
Corro
…como se fosse
real
esta mesma criação.
Vivo
…como se fosse
vida
a minha imaginação.
Avanço
…e num vazio pleno
sinto, experimento
e confirmo
que Alguém me abraça!
Quem diria:
o que inventei existia
… e era Graça!
Fornos, 20 de dezembro de 2017
Uma das inversões mais urgentes na prática religiosa cristã (que afeta significativamente a liturgia e as clássicas orações de petição) é a de assumir radicalmente que a graça é abundante e constante, que Deus “grita”! Vivemos numa atmosfera de graça (às vezes uma lufada, outras vezes mais abafado, mas sempre graça a respirar). Temos é dificuldade em reconhecer essa abundância, como o peixe não se reconhece molhado. E essa abertura e reconhecimento, essa mística de olhos abertos, importa pedir…
Se há assunto que poderia ser crónico e recorrente no nosso exame de consciência seria este: “hoje, houve muita palavra emitida e pouca escuta?…”
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Rom 8, 26-27
Da carta aos Romanos fixamo-nos nesta constatação antiga, da dificuldade em rezar… De facto, se orar (ou rezar) for entendido como descansar em Deus, até aí é difícil rezar. Temos dificuldade em descansar, em geral… e em descansar em Deus, em particular. Daqui decorre que a primeira coisa para (tentar) rezar é, precisamente parar. Diz a mesma carta aos Romanos que o Espírito virá e essa é a promessa que alicerça a nossa fé. Mas para o Espírito nos alcançar, há que não fugir correndo…