outros carismas
Sobre outros carismas e espiritualidades, eis a colocação mais libertadora: “com outras linguagens, tendem à mesma procura!”
Sobre outros carismas e espiritualidades, eis a colocação mais libertadora: “com outras linguagens, tendem à mesma procura!”
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 21, 25-28.34-36
«A vossa libertação está próxima»
Começa para os cristãos católicos romanos o chamado tempo de Advento, de espera, de esperança e, em certo sentido, de preparação para os brotares do tempo. Os ciclos litúrgicos são um ritual ajudante, uma pedagogia, um convite de consciencialização comunitária para os movimentos do espaço, do tempo e do espírito. Mas estes ciclos maiores reproduzem-se no dia-a-dia. Hoje mesmo, na linha do texto proposto, provavelmente, vou viver sinais fantásticos que a natureza me oferecer, vou viver angústias interiores e exteriores, vou-me ver lançado em dilemas complexos, vou deixar-me provocar por esperanças, encontros e desencontros. Vou, com toda a certeza, fazer pontes de Páscoa, em que mortes geram vida. Portanto, o Advento, o Natal, a Quaresma, o Tempo Comum e a Páscoa, são, mais do que ciclos litúrgicos, ciclos de vida quotidiana. Preparar, vigiar e dar toques de esperança e de futuro ao que sou e ao que faço, isso é vida, isso é Advento…
Pai Nosso ontologizado
Pai nosso
que estás aqui.
Sejamos
o pão para
cada outro.
Sejamos
o perdão
que nos queres dar.
Sejamos tudo em todos
além da tentação
de partir
… em pedaços
não inteiros
nem verdadeiros,
sombras de mal…
A frase que mata, dita a mim mesmo ou aos outros, sentida, vivida e exteriorizada é esta mesmo: “isto é meu!”. Começa aqui a desgraça…
Sal de terra
Gostava de ser
cloreto de sódio!
Sal da terra
assim dizia Vieira.
Dar sabor,
metido,
ser solução.
Sem sal,
corrupção,
sem sal,
não há paladar.
Gostava de ser
cloreto de sódio.
Ião sódio,
ião cloreto.
Assim, sal,
me meto
no mundo.
Dissolvo-me,
confundo
mas não
vou ao fundo…
in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.
acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Jo 18, 33b-37
«É como dizes: sou Rei»
A linguagem dos reis e dos reinados é muito específica e bastante presente nos livros da Bíblia. Com Jesus, em particular, há um confronto agudo e sistemático com vários reinados. Jesus é e assume-se como Rei mas, para os seus seguidores (porventura alguns de nós) importa clarificar que Rei é este e quais as caraterísticas do seu reinado. Notar que este texto precede a Páscoa, a passagem da morte à vida, o enorme gesto amoroso. Mais ainda, paradoxalmente, o reino de Jesus (a chave dos Seus critérios) é a originalidade do ‘despoder’. Isto é, o poder é não poder, é a doação e a entrega. Podemos perguntar-nos se estes critérios nos seduzem, se viver neste reinado despoderado nos interessa, se faz sentido ser súbdito deste rei-escravo… se servir, nos enche a alma…
O cristianismo não será ingénuo nem fácil. Mas não há toque cristão sem um tom esperançador e otimista: Jesus desfataliza a história…
Vale a pena celebrar os aniversários, embora eu não seja forte na estética desses dias especiais. Melhor quando se faz a festa do agradecimento da vida, recebida e oferecida tal e qual, com tranças de fragilidade e virtude, esperança e desânimo, labor e descanso e tudo mais que tece este valer a pena viver.
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se o salmo 15
«Senhor, porção da minha herança»
Os salmos são textos poderosos mas encerram um poética carente de extração e contextualização histórico-teológica. Importam, muitas, vezes, os traços subtis cantados transversalmente. No presente caso, seja a confiança.
Pode ser interessante fixarmo-nos numa palavra, num verso, numa ideia, e a partir dela… tecer. Seja a frase: « Senhor, porção da minha herança». Podemos refletir sobre as heranças, isto é, aquilo que nos foi deixado pela geração anterior ou o que deixaremos para outras gerações. Se perguntarmos o que mais precioso nos foi legado pelos nossos pais, pelos que estiveram antes de nós, terão sido os bens, casas ou terrenos, posições sociais ou diplomas? E o que gostaríamos de deixar aos que nos seguirão, à geração seguinte, aos filhos, se os tivermos? Estamos conscientes de que a esperança, a confiança, pode ser o mais precioso legado que podemos deixar a alguém?…
O sociólogo francês Latouche oferece-nos a “economia de frugalidade voluntária”. É uma ideia fortíssima que poderá contribuir para salvar a cultura ocidental do voraz consumismo. Ao mesmo tempo, não se pode oferecer este propósito a quem não tem pão. Portanto, a par da nossa frugalidade escolhida, nós que já experimentamos ter e agora podemos desacelerar o consumo como expressão de liberdade, há que matar as fomes de meio mundo…