A química das relações: pais, filhos e a escola…

Paiva, J. C, A química das relações: pais, filhos e a escola…. Revista leya-educação (on line), março, 2018.

 

Disponível em https://www.leyaeducacao.com/z_escola/i_376

A química das relações: pais, filhos e a escola…

A química, como ciência das propriedades e transformações da matéria, tem uma das suas bases fundamentais na interpretação de fenómenos macroscópicos (visíveis a olho nu) a partir do comportamento dos pequeníssimos corpúsculos que constituem todo o universo, incluindo cada um de nós. Se ainda não reparou, nós somos química em ação!

Serve o contexto químico acima para nos situarmos – a partir do fascinante mundo da química – no dinamismo daquilo que somos. As analogias da química com a vida tal e qual são impressionantes, não fosse a química a ciência das misturas. Os átomos e as moléculas ligam-se mais ou menos, desligam-se e agitam-se… e assim dançam no tempo. A química espelha, por extrapolação, as relações humanas e aquilo que nós próprios somos: forças, ligações, oposições, atrações, repulsões, transformação, reação… E se nos situarmos na complexa triangulação pais-filhos-escola temos a química no seu esplendor: mistura (às vezes explosiva…) de potencial ligante!

A gestão da distância crítica destas relações entre os encarregados de educação, os seus educandos e a realidade escolar é de grande centralidade. Assim como na química há iões complexos (partículas de carga com estruturas menos simplificadas), assim também este triângulo relacional é, no mínimo, complexo. Temos uma escola aberta e por inerência vital dessa condição que conquistámos e não queremos perder, a escola (então um sistema aberto, como muitos dos sistemas químicos) troca matéria e energia com o que a rodeia.

Talvez possamos refletir sobre a sensibilidade do sistema face ao encontro da distância crítica ótima dos seus vários agentes, por observação dos seus exageros e caricaturas, infelizmente não raros na química das nossas escolas:Há escolas, professores e sistemas educativos (inclusive políticos) que têm medo dos encarregados de educação (se estes forem professores, ainda mais…).
Há encarregados de educação que ocupam demasiado espaço no contexto escolar, protagonizando onde não é suposto e assumindo um papel de policiamento dos professores e da vida escolar, que não é nem justo nem pedagogicamente fecundo.
Há pais com distâncias críticas muito curtas face aos seus filhos e ao seu percurso escolar (umbilicalidade que adia teimosamente a desejada autonomia) e, não raras vezes, muitíssimo preocupados com o contexto académico do aproveitamento e pouco incomodados com o alinhamento ético do que mais importa na educação.
Há encarregados de educação que entendem que “é à escola que cabe educar” e se demitem das mais elementares funções, as mais radicais das quais se praticam na família.

Como em muitos dilemas educativos, casos particulares dos dilemas da vida, procuramos um justo equilíbrio entre dois polos (mais uma vez, em ponte analógica com cargas elétricas em átomos e moléculas): a) há professores que se fecham ou abrem de mais; b) há pais que se aproximam ou afastam de mais; c) há alunos que esperam ou desesperam de mais.

Há quem chame à química a “ciência dos eletrões de valência”. Isto porque nas ligações químicas, os átomos tendem a preservar o seu cerne central e partilhar os seus eletrões (livres) que, em muitos casos, por essa radical partilha, deixam de ser seus. Seria esta uma boa analogia para os pais verem os seus filhos? Serão mesmo livres os nossos descendentes? Muitas vezes, os pais entendem, no plano intelectual, que cultivam a liberdade na educação mas, na primeira oportunidade, prendem-nos em ratoeiras de expectativa, de condicionamento, de narcisismo e de projeção da sua imagem própria (digo que quero que tenhas boas notas para o teu bem mas o que me move verdadeiramente é a minha imagem de pai ou de mãe de filho com boas notas…). Outras vezes os eletrões estão de tal maneira livres (assim acontece nos metais) que são libertinos, não possuem qualquer identidade de ligação e, como tal, não podem ter o toque amoroso de serem cuidados. Tudo isto se projeta nas relações escolares dos encarregados de educação e por tudo isto compreendemos que é tão desafiante quanto enorme a obra da educação. Valha-nos o dinamismo das transformações químicas e a mais elementar humildade e abertura ao crescimento de cada um: para pais, filhos e professores, para todos, educar é educar-se!

JP in Educação Química Textos 3 Julho, 2018

Transformação

 

A transformação

do mundo

é a quimica

das reações:

reagente- já

produto- ainda não.

Dinâmico movimento.

Só aparente fim

em incessantes

micro transformações,

discretas

aparentando

deixar tudo na mesma.

Sem olhos químicos,

o mundo soa mais triste,

como se tudo

estivesse de mal a pior.

Mas não:

a internet e a televisão

catalizam a reação.

É tudo mais

rápido, alucinante

mas sempre:

reagente- já

produto- ainda não.

Que bom ser químico

… e saber

que o dilema é cinético,

termodinâmica não: homem e natureza,

…união.

Sempre:

reagente- já,

produto- quase já,

mas ainda não!…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

Recomeço

Recomeço

 

Cresce desordem,

desinformação.

Perdido,

então,

sustido,

parado

na segunda lei.

No equilíbrio, bem sei,

a energia livre

não varia.

E o tempo anda

até um dia.

E eu espero

e desespero.

E o acaso?

Haverá sorte?

A dúvida

não é morte.

Morrer

é entropia

congelada.

E a vida,

agitada,

quem diria,

é incerta

mas aberta

à alegria.

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

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Da química

Da química

 

Buscas

o rigor

mas nunca

atinges

o âmago

da exatidão.

Tendências,

regra geral,

afinidades

e outras

aproximações.

Usas,

quase

interesseira,

a limpidez

do número,

a previsibilidade

da fórmula.

Tateias

o infalível mas,

atenta

ao complexo real,

preferes

o todo,

tácito,

prático,

…global!

Zoom in

zoom out,

processas,

no meio,

quase entalada,

entre o

muito complexo

(qual bio)

e a higiene

das coisas

e dos factos

(qual física).

És de interface,

nem errática

nem purista.

És bela.

Porque também

a vida

é assim:

substância,

mas não só!

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

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Oxigénio

Oxigénio

 

Entras

em mim

todo o dia,

alimentas o

pulmão.

Se não te

temos à mão

entramos

em asfixia.

Tuas moléculas

aos pares

andam por aí

aos ares.

Um átomo

de oxigénio

da minha

hemoglobina

andou

noutro respirar.

Que sublime

maravilha:

este oxigénio

era teu,

anda agora

no meu

sangue.

Que partilha!…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

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Hélio

Hélio

 

Sozinho

disperso

leve

sobes.

Porque

não queres

saber

de mais

ninguém?

Abundas

descomprometido

até com

teus iguais.

Sabes que mais,

Hélio,

às vezes

eu também…

Mas sem pressão

sem agitação

na paz

lá no ar

da solidão

eu me

deixo ligar…

frágil adesão

quase a rasgar

mas ligação…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

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Solução

Solução

 

Eu quero uma solução

homogénea, preparada,

coisa certa, controlada

para ter tudo na mão.

Solução para questão

que não ouso resolver.

Diluída num balão

elixir p’ra me entreter.

Faço centrifugação

para ter ar uniforme

uso varinha conforme,

seja mágica ou não.

Busco uma solução

tudo lindo, direitinho

eu quero ter tudo certinho

ter o mundo nesta mão.

Procuro mistura, então

aqueço tudo em cadinho.

E vejo não ter solução

mas apenas um caminho…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

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Mesmo DNA

Mesmo DNA

 

Um cabelo teu

para analisar.

Hélice DNA.

Fiz zoom.

Tudo igual

a mim.

Tudo igual

a ele.

A Química,

prova

científica da

urgência da

fraternidade.

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

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Enxofre

Enxofre

 

Ligado a

mais sete

cor ovo

estrelado.

Com óxido,

poluição.

Mais água

chuva

acidificação.

Ligado

a metais

sulfato

qualquer.

Ligando

o cabelo

de uma

mulher…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

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Alquimia

Alquimia

 

De tempos

antigos

à noite

ou de dia

caverna escondida

segredo,

alquimia.

Entre ferro

e engenho

um qualquer

vil metal,

sai o sonho

tamanho,

pedra

filosofal.

Sai ouro

e mistério,

receitas

à sorte

elixir

milagroso,

corte eterno

da morte…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

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