poema sem nada para dizer

POEMA SEM NADA PARA DIZER

Até sem nada para dizer

se pode escrever um poema.

Como o silêncio fala

e o branco é cor.

Como sem forma há forma,

como sofrer é amor.

Como o curto é comprido

e o rejeitado é querido.

Como a morte é vida

e o detestado apetecido.

Como quem julga na alma

não ter nada para dizer.

Pega na tinta e papel

e acaba sempre por ter…

in Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse, Coimbra.

acessível aqui

JP in Poemas 28 Junho, 2018

sopram ventos

SOPRAM VENTOS

Sopram ventos

em imensas

direcções.

Ecoam vozes

de tons diferentes

em cada

linha do horizonte.

Forças várias

empurram-me

para muitos

sentidos.

A luz.

A cor.

A água

são o deserto

em que me encontro.

Não tenho tudo

mas sei o caminho.

Sei que depende

muito de mim…

in Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse, Coimbra.

acessível aqui

JP in Poemas

morrer

Morrer

 

Não quero

Senão morrer!

ser trigo,

ser nada,

ser tudo.

Quero ser

somente,

vazio,

cheio

de mundo.

Eu quero

ser silêncio,

dar nada

receber tudo,

morrer.

Quero parar,

deitar-me,

passivo,

em paixão,

ao lado

dos homens,

sem respirar,

inspirando,

inspirado

pelo amor.

 

s/d

scaning da escuta

Scaning da escuta

Que os meus pés

Escutem o Teu chão

E minhas pernas

Caminhem a Tua voz.

Que as minhas entranhas

Respirem o Teu silêncio

E a minha boca

Diga a Tua presença.

Que os meus olhos

Alcancem a Tua sombra

E que eu cheire

O Teu perfume.

Que eu ouça

A Tua existência…

 

2015

mais uma Primavera

Mais uma primavera

 

Sim, gostava de
viver mais primaveras.
E ver as hortenses abrir
e o cheiro do pó…
Gostava de, mais uma vez
olhar os pitos nascer
e tocar neles pequenos,
de montar estruturas na horta
e colher morangos maduros.
Mais uma primavera,
para comer o cheiro das maçãs
e até espalhar o estrume na terra.
Quero mais uma primavera
para cortar lenha
e buscar paus e pinhas
para aquecer o inverno.
E mergulhar na piscina
quente e escura
a ver estrelas no céu.
E para partilhar com outros
estes privilégios,
uma primavera se pediria.
Mas o que eu quero mesmo
desejo e sigo,
emprestando vontade,
é colher a graça
desta Primavera,
talhada com a
sacralidade
do instante
em que escrevo.
O dom da esperança
me basta
… a ele,
me rendo amorosamente.

Fornos, 11 de fevereiro de 2015

 

JP in Poemas