Não te digo sete vezes mas até setenta vezes sete

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 18, 21-35

Não te digo sete vezes mas até setenta vezes sete

A dimensão radical de perdão constitui marca cristã. Per-doar setenta vezes sete (mais do que quarenta e nove…), é perdoar infinitas vezes. Este precioso e original convite de Jesus significa, para cada um de nós, um enorme dom de liberdade, já que perdoar é ser livre. O cerne do perdão está no não ressentimento, está na oportunidade que continuamos a dar ao outro que nos ofendeu. Quem perdoa pode repreender, afastar-se ou até punir. Exteriormente, pode até ser duro ou tanger a violência, mas no coração de quem perdoa, como no de Jesus, há espaço para (re)acolher de novo quem se quiser aproximar por bem.

JP in Espiritualidade Sem categoria 12 Setembro, 2020

Por Vós suspiro, como terra árida, sequiosa, sem água

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 62

Encontramos no Salmo uma imagem muito real de nós próprios:
“terra árida, sequiosa, sem água”. De facto o nosso coração tem uma sede eterna do eterno e esse desejo e essa carência que nos move, na fé e na vida. Quando as nossas apostas se dirigem ao provisório, ao precário, ao passageiro, a terra é regada mas logo seca com o Sol árido da própria vida. É a secura que se torna constante. Há que procurar, pois, para esta terra sedenta que somos, uma fonte, uma fonte de água viva. Para os cristãos, é Cristo esta nascente contínua, que nos rega a cada instante, que nos mata a secura, que nos torna carentes-desejantes-saciados, agora e para sempre.

JP in Espiritualidade 30 Agosto, 2020

Quem acham que Eu sou?

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 16, 13-20

Há uma pergunta muito central no cristianismo, que nos visita em espiral, sempre com aprofundamentos renovados: quem é Jesus, o Cristo, para mim? Embora a fé vivida na Igreja sublinhe o “nós necessário”, o caminho conjunto (a Igreja pode ajudar-me a que eu “me livre de mim mesmo”, concentricamente…), esta pergunta é muito pessoal e dinâmica. Para os cristãos, é uma pergunta que se vai fazendo e que vai tendo como respostas sucessivas a nossa própria vida (con)formada nessa mesma percepção (assim vivida) de Cristo em nós.

JP in Espiritualidade 22 Agosto, 2020

Coragem! Sou eu. Não tenham medo!

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 14, 22-33

A passagem do Evangelho em que Jesus caminha sobre as águas é, antes de mais, uma convocatória para reconhecer a possibilidade de um Deus-amor que caminha sempre com cada um, mesmo quando as águas da vida estão agitadas. Há uma conhecida tensão entre a fisicalidade eventual dos relatos evangélicos e a projeção simbólica que lhes podemos dar. No presente caso torna-se secundário ou mesmo insignificante a fixação na realidade da cena: importa, e muito, que este ‘surfar’ de Cristo nas ondas da vida de todos nós pode ser uma viagem não só dinâmica, mas de medo amparado e, além de tudo mais, com um sentido…

JP in Espiritualidade 8 Agosto, 2020

O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 144

O salmo 144 caracteriza de forma muito bonita o indizível que é Deus: um Deus clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. Um Deus paciente que nos convida a recomeçar, que nos dá a mão direita e que contraria a nossa tendência autodestrutiva face aos nossos desvios (às vezes sinistros). O nosso Deus não se impõe mas antes nos convoca para O coadjuvarmos na história. Por isso somos convidados, hoje, homens e mulheres a ser também nós pacientes e cheios de bondade para com todos os outros.

JP in Espiritualidade 2 Agosto, 2020

Vendeu tudo quanto possuía para comprar aquele campo

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 13, 44-52

O Evangelho fala-nos de uma das parábolas do Reino dos Céus. Este reino é, neste sentido, uma pérola, um tesouro, que justifica que tudo vendamos para o ter. É curioso ter este olhar de pérola para com o próprio tempo: “vender tudo para ter o tesouro”, é tornar precioso cada minuto que experimentamos, seja de dor ou alegria, seja com esta ou aquela pessoa, seja de luz ou de escuridão. O que importa, é que seja vivido intensamente, como se nada mais houvesse do que esse mesmo minuto…

JP in Espiritualidade 26 Julho, 2020

pois não sabemos como orar…

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Rom 8, 26-27

Da carta aos Romanos fixamo-nos nesta constatação antiga, da dificuldade em rezar… De facto, se orar (ou rezar) for entendido como descansar em Deus, até aí é difícil rezar. Temos dificuldade em descansar, em geral… e em descansar em Deus, em particular. Daqui decorre que a primeira coisa para (tentar) rezar é, precisamente parar. Diz a mesma carta aos Romanos que o Espírito virá e essa é a promessa que alicerça a nossa fé. Mas para o Espírito nos alcançar, há que não fugir correndo…

JP in Espiritualidade 18 Julho, 2020

quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim não é digno de Mim

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 10, 37-42

«Quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim não é digno de Mim»

 

Principalmente para quem tem filhos ou filhas as palavras do Evangelho podem parecer chocantes. De facto, é difícil imaginar que se possa amar algo mais do que um filho. Pelos filhos, realmente, dão-se noites, dá-se o corpo, dá-se tudo, dá-se a vida! Jesus pede-nos para O amarmos mais ainda. Ele “usa” a realidade do amor paternal e do amor maternal para colocar a fasquia da entrega a Ele próprio. A entrega a Deus nunca poderia ser um holocausto de diminuição. O apontamento cristão será sempre do tipo ‘quanto mais humano, mais cristão, quanto mais cristão, mais humano’. Há uma coerência humanizante, pois, nesta (difícil e exigente) proposta: é que amando assim a pessoa de Jesus e inquietantemente repousado nos seus critérios e no seu horizonte de liberdade, ama-se mais e melhor, de facto, os filhos e as filhas…

JP in Espiritualidade Frases 28 Junho, 2020

esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 2, 41-51

«Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros»

 

Sabemos da nossa catequese que os critérios de Deus são diferentes dos critérios do mundo. Na nossa vida, porém, custa muito a aprender, interiorizar e viver esta mesma diferença. O que significa, aos olhos do mundo de hoje, a palavra “mais”? Algo de semelhante aos escribas de que Jesus fala no Evangelho: mais dinheiro, mais ostentação, mais poder, mais corpo, mais saúde, mais honras. Seria bom que lêssemos repetidamente esta passagem de Marcos e perguntássemos a nós próprios o que resta em nós de “estilo escriba”. Confrontemos este critério de “mais” dos homens, com aquilo que é “mais” para Deus. É libertador acreditar mas principalmente viver a ideia de que conseguimos despojarmo-nos e oferecermo-nos, tanto mais quanto nos aproximamos de dar tudo o que possuímos.

JP in Espiritualidade Frases 20 Junho, 2020

Ele nos fez, a Ele pertencemos

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 99, 2-5

«Ele nos fez, a Ele pertencemos»

 

Lemos no salmo 99 um verso forte: “Ele nos fez, a Ele pertencemos”. Aderir a este verso pressupõe um golpe de Fé, o de fazer corresponder à pergunta/desejo “eu, embora carente, existo” com uma aposta do tipo “fui e sou criado”. Esta frase tem, pelo menos, duas focagens possíveis: uma diz respeito a nós próprios, à nossa consciência de que somos “barro nas mãos do oleiro”, que somos seu templo e, portanto, nos devemos respeitar e cuidar, no corpo e no espírito, como tal. A outra implicação, não menos importante, é que este salmo é universal e, assim, todos os nossos irmãos são de Deus e a Ele pertencem. Filhos, cônjuges, familiares e amigos, bem como os mais distantes e até os “nossos inimigos”, pertencem a Deus. E se os outros não me pertencem, eu não os posso manipular como um joguete!…

JP in Espiritualidade 14 Junho, 2020