grande dádiva
Deus não só arrisca em nós como, em certo sentido, se busca a si mesmo em nós…esta em nós… Eis a grande dádiva…
Deus não só arrisca em nós como, em certo sentido, se busca a si mesmo em nós…esta em nós… Eis a grande dádiva…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 144
O salmo 144 caracteriza de forma muito bonita o indizível que é Deus: um Deus clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. Um Deus paciente que nos convida a recomeçar, que nos dá a mão direita e que contraria a nossa tendência autodestrutiva face aos nossos desvios (às vezes sinistros). O nosso Deus não se impõe mas antes nos convoca para O coadjuvarmos na história. Por isso somos convidados, hoje, homens e mulheres a ser também nós pacientes e cheios de bondade para com todos os outros.
Autoilusão consentida
Assumo esta
autoilusão
…consentida
até desesperada.
Daqui, da sede
calada que grita,
invento Alguém.
Corro
…como se fosse
real
esta mesma criação.
Vivo
…como se fosse
vida
a minha imaginação.
Avanço
…e num vazio pleno
sinto, experimento
e confirmo
que Alguém me abraça!
Quem diria:
o que inventei existia
… e era Graça!
Fornos, 20 de dezembro de 2017
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 99, 2-5
«Ele nos fez, a Ele pertencemos»
Lemos no salmo 99 um verso forte: “Ele nos fez, a Ele pertencemos”. Aderir a este verso pressupõe um golpe de Fé, o de fazer corresponder à pergunta/desejo “eu, embora carente, existo” com uma aposta do tipo “fui e sou criado”. Esta frase tem, pelo menos, duas focagens possíveis: uma diz respeito a nós próprios, à nossa consciência de que somos “barro nas mãos do oleiro”, que somos seu templo e, portanto, nos devemos respeitar e cuidar, no corpo e no espírito, como tal. A outra implicação, não menos importante, é que este salmo é universal e, assim, todos os nossos irmãos são de Deus e a Ele pertencem. Filhos, cônjuges, familiares e amigos, bem como os mais distantes e até os “nossos inimigos”, pertencem a Deus. E se os outros não me pertencem, eu não os posso manipular como um joguete!…
Entre os meandros do acaso e da necessidade Deus vai-se revelando e criando. O ‘acaso’, não é um inimigo da hipótese de Deus nem da teologia. Bem entendido, o acaso é até o garante de um Deus que não quer determinismos rígidos. Certo ‘acaso’, é a garantia do risco da fé de Deus em nós e na Sua criação…
O mistério tem dois sentidos: é o nosso em relação a Deus e o de Deus em relação a nós. Deus quis pagar o preço da liberdade de tudo e submeter continuamente esse Seu risco ao Seu sonho largo…
Sempre desejei ensaiar um “Pai Nosso” em versão responsabilizante. Seria uma oração incompleta, porque, a menos do “Nosso”, lhe falta maior grau de sublinhado do ‘nós’ e apresenta uma assumida desproporção da expressão “eu”. Mas seria assim:
Pai Nosso, que estás em mim.
Reconheça eu a Tua bondade existente.
Acolha eu os Teus critérios
em tudo aquilo que realizar, hoje e sempre.
Deixe-me eu perdoar pelo Teu perdão
assim inspirador para o perdão aos outros.
Saiba eu viver pleno na tentação
promovendo o Bem, que és Tu.
Há uma analogia matemática que nos pode ajudar a aproximar da ideia de que tudo é sagrado, de que há um certo “tudo em todos”: Deus é uma esfera infinita com o centro em todos os pontos e sem círculos (sem limite).
José Augusto Mourão afirma algo que me impressiona, mais do que pela humildade, pelo realismo que contém. Para este autor, dizer “Eu encontrei Deus” é obsceno. Deus livrou-nos de Deus e os que O julgam agarrar melhor fora declararem-se, no máximo, tateadores…
Da indizibilidade de Deus facilmente chegamos ao estilo útil da teologia negativa: evidenciar o que Deus não é. Muitas vezes, na teologia, na argumentação do dia-a-dia, no trabalho apostólico, nos diálogos connosco próprios, a par do silêncio, podemos usar com vantagem este caminho…