a ti que sofres

A TI QUE SOFRES

A ti

que sofres

não te peço

que não chores.

Que não chore

não há quem.

Que chores,

não te peço também.

Peço-te…

que chores… bem!

 

in Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse, Coimbra.

acessível aqui

JP in Espiritualidade Poemas 30 Novembro, 2018

poeta parado

POETA PARADO

O poeta parou

para marchar!

Acerta o passo

sustém a guerra.

…in Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse, Coimbra.

acessível aqui

JP in Poemas 6 Novembro, 2018

morte suave

Morte suave

Dormindo,
calmo
termino aqui
com paz
uma última morte
depois de tantas outras.
Passo
renascido
arriscando
uma esperança
continuada.
Abraço
um braço
que já me tinha sido
estendido.
Recebo
de forma agradecida:
a vida que era morte
…a morte que era vida.
JP in Espiritualidade Poemas 2 Novembro, 2018

futeboleno

NOTA: O futeboleno é um composto químico muito interessante. Foi sintetizado laboratorialmente mas conhecessem-se vestígios não artificias no espaço. É composto por 60 átomos de carbono, disposto como numa bola de futebol… daí o seu nome…

Compostos semelhantes ao C60 resultam em materiais tão duros que riscam o diamante. O diamante, composto também constituído apenas por átomos de carbono, perde, assim, o estatuto do mais duro material existente…

 

Futeboleno

 

Criado

existente

no espaço

(além Sol)

presente…

Magia,

bola de

futebol.

Pentágonos,

hexágonos,

invenção

pré-existente.

Fascínio

verdade

nano-utilidade…

Potente

futuro

sagaz

elementar

e galante.

Tão duro

capaz

de riscar

diamante…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

JP in Ciência Poemas Química 28 Outubro, 2018

criança na aldeia e tablet

CRIANÇA NA ALDEIA

Criança suja

de alma sã

corre pelo mato

logo de manhã.

Regressa tarde

já com o Sol deitado

com os pés descalços

e o corpo cansado.

Brinca de improviso

e cata piolho

come arroz com massa

sem carne e sem molho.

Rosto maltratado

nariz por assoar

foge até ao rio

p’ra se refrescar.

Foge até ao rio

p’ra se refrescar!…

 

NOTA: Escrevi este texto há mais de uma vintena de anos, com memórias de infância quase cinquentenárias.

Hoje, morando numa aldeia, talvez escrevesse:

foge até ao tablet

p’ra comunicar.

Foge até ao tablet

p’ra comunicar!…

 

 

in Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse, Coimbra.

acessível aqui

JP in Poemas 26 Outubro, 2018

a química e a pressa

A química e a pressa

 

A pressa

é o pecado

do mundo.

Pecar,

fazer mal a mim

e a ti,

é não esperar

e catalisar

o que tinha

mecanismo

previsto

com aquela ativação.

Para quê

baixar em força

aquele valor?

Mais valia deixar,

deixar em amor.

Subir como criança

a brincar

que vai ao alto e,

passando a barreira,

ali contempla

confia e delega.

E desce a rir

…como num escorrega…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

JP in Ciência Poemas Química 16 Outubro, 2018

o que é rezar?

O que é rezar?

 

Rezar é um deserto.

É criar vazio,

preparar o receber,

estar aberto.

Rezar é desencher.

Rezar é treinar a sede.

É desacansar

na confiança.

Rezar é embalar-se

numa rotina.

Rezar é esperar

e deixar-se ser.

Rezar é procurar

o procurante

que há em nós.

Ir mais além,

procurados

por Alguém…

 

setembro’ 2018

 

JP in Espiritualidade Poemas 4 Outubro, 2018

agressivo silêncio

AGRESSIVO SILÊNCIO

Esbofeteaste-a
violentamente
com o teu silêncio.
Foram as não palavras
que a feriram.
Essa tua boca fechada
mordeu e arrancou a carne
do diálogo surdo.
Engoliste a chave
do teu coração.
E é essa indigestão
que mata a vossa
(não) relação!

 

2011

JP in Poemas 30 Setembro, 2018

Transformação

 

A transformação

do mundo

é a quimica

das reações:

reagente- já

produto- ainda não.

Dinâmico movimento.

Só aparente fim

em incessantes

micro transformações,

discretas

aparentando

deixar tudo na mesma.

Sem olhos químicos,

o mundo soa mais triste,

como se tudo

estivesse de mal a pior.

Mas não:

a internet e a televisão

catalizam a reação.

É tudo mais

rápido, alucinante

mas sempre:

reagente- já

produto- ainda não.

Que bom ser químico

… e saber

que o dilema é cinético,

termodinâmica não: homem e natureza,

…união.

Sempre:

reagente- já,

produto- quase já,

mas ainda não!…

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)

 

JP in Ciência Poemas Química 3 Julho, 2018

Recomeço

Recomeço

 

Cresce desordem,

desinformação.

Perdido,

então,

sustido,

parado

na segunda lei.

No equilíbrio, bem sei,

a energia livre

não varia.

E o tempo anda

até um dia.

E eu espero

e desespero.

E o acaso?

Haverá sorte?

A dúvida

não é morte.

Morrer

é entropia

congelada.

E a vida,

agitada,

quem diria,

é incerta

mas aberta

à alegria.

in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.

acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)