o tempo como dom
O tempo é onde se tece a liberdade. O tempo que passa é o dom primeiro. Enquanto viventes, temos sempre o tempo para agradecer.
O tempo é onde se tece a liberdade. O tempo que passa é o dom primeiro. Enquanto viventes, temos sempre o tempo para agradecer.
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Slm 118
«A vossa lei faz as minhas delícias»
As leis, no sentido jurídico e na sensação que causam nas pessoas, têm uma carga tipicamente pesada. Embora feitas, em princípio, para ajudar o homem e para lhe dar segurança, as leis provocam constrangimentos. É curioso ver no Antigo Testamento a palavra “delícia” associada à lei de Deus. Saborear a lei do Senhor como uma delícia implica a consciência vivida de uma lei especial. A lei de Deus só pode ser saborosa se for radicalmente enraizada no amor. Em Jesus, esta lei promete ser ‘jugo leve e alívio’ e o melhor teste dessa promessa seria ver a vida dos cristãos a espelhar a lei cristã como doce (mesmo que não fácil…).
Homenagens
Prescindo
hoje e amanhã
(mesmo em cinzas)
de uma qual-quer(?)
homenagem.
Prefiro a memória
Simples e discreta
De um qual-quer(?)
Rasto de amor.
Custa-me ver a fila
(a logística, a mobilização)
para saudar uma honra.
Use-se tal energia
Para abraçar alguém,
Para amparar
Uma qual-quer(?)
pessoa frágil.
Acresce ainda
Que nada mereço.
E a haver uma honra
Seja endereçada
À graça de Deus
Que, por graça também,
Me usou (quando eu deixei)
para se espelhar.
2018
Se não houvesse já benefício no tempo presente para o silêncio (e a experiência confirma-o como muito útil…), teríamos o seguinte argumento teleológico, que justifica o treino da “não palavra”: o encontro face a face com Deus, já aperitivado aqui, terá a palavra como insuficiente ou mesmo desprezível…
O Livro do Génesis não pretende narrar a criação da Humanidade a partir de um casal original, Adão e Eva, no sexto dia da criação, mas apenas que a Humani- dade, tal como todo o universo, é uma criação de Deus, qualquer que tenha sido o processo evolutivo que deu origem aos seres humanos. Não estamos a falar de origens mas de criação… A aceitação do evolucionismo pela teologia cristã não resolveu, porém, algumas questões teológicas como, por exemplo, o pecado original e o «momento» do início da Humanidade na longa cadeia evolutiva dos primatas…
Sobre o início da humanidade, Joseph Ratzinger procura uma explicação com base numa relação dialogal. Diz ele, pesando as palavras e entreabrindo uma fresta da janela: «A argila tornou-se ser humano no momento em que uma criatura, pela primeira vez, mesmo que de forma muito velada, foi capaz de formar uma ideia de Deus. O primeiro tu que o ser humano — por mais balbuciado que fosse — dirigiu a Deus é o momento em que o espírito se levantou no mundo. Aqui foi ultrapassado o rubicão da criação humana»
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Cor 2, 1-5
«apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor»
É curioso reparar na explicitação de Paulo em relação aos seus sentimentos e emoções enquanto protagonista da atividade apostólica. Ele não se reconheceria como o ‘herói de Cristo’, sem mácula e sem dúvidas, mas o ser frágil que se faz forte pela esperança e não pela impecabilidade. “Não me apresentei com sublimidade de linguagem ou sabedoria”, diz Paulo, como que dizendo que para se ser apóstolo não é preciso dons extraordinários mas antes humildade e confiança, fé num Deus que é amor e que se quer revelar a todos, por via de cada um de nós. A experiência de seguimento cristão poderá tornar-nos, em certo sentido, ‘maiores do que nós mesmos’. Mas o ponto de partida desse crescimento é, precisamente, a consciência de fraqueza e de fragilidade.
José Augusto Mourão afirma algo que me impressiona, mais do que pela humildade, pelo realismo que contém. Para este autor, dizer “Eu encontrei Deus” é obsceno. Deus livrou-nos de Deus e os que O julgam agarrar melhor fora declararem-se, no máximo, tateadores…
O nosso ensino está massificado, como resultado de uma democratização educativa que nos deve orgulhar, mas que teve e tem o seu custo. A todo o instante temos ainda de amortecer o impacto negativo da massificação e requalificar o processo educativo. Em alguns casos, qual movimento pendular, há que fazer alguns recuos…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 2, 22-40
«Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor»
Dando cumprimento à Lei de Moisés, Maria e José levaram o Menino ao templo. O gesto central de Maria e de José, é o de oferecer o seu filho e, desta forma, estabelecer uma cumplicidade com a missão salvadora de Jesus e a sua doação a todos nós. Opõem-se ao gesto de oferecer, as atitudes de possuir, manipular, controlar, chantagear e construir expectativas formatadas. Quantas vezes, nas nossas relações (os pais em relação filhos mas não só), não teremos esta atitude de possuir, em vez de oferecer?…
Ciência ou poesia?
Entre focos de prazer:
ciência ou poesia,
pergunto, o que fazia
se tivesse de escolher.
Ciência e poesia…
acho que me apetecia
fazer desta maneira:
as duas na algibeira!
A ciência escolheria
Se quisesse mais rigor,
com saber eu saberia
como cresce uma flor.
E olhando essa flor
a colhesse com alegria
e oferecesse em amor,
embrulhava em poesia…
Se em vez de perceber
eu quisesse antes dizer
o que a fórmula não diria,
escolheria então a poesia…
Não vou escolher, mas juntar
Trago ciência e poesia.
Ciência é luz a brilhar,
poesia é luz no meu dia.
in Paiva, J. C., Quase poesia quase química (2012) (e-book). Lisboa, Sociedade Portuguesa de Química.
acessível aqui (porventura enriquecido com uma ilustração)