amortalidade

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Paiva, J. C. (2026). Amortalidade. Site Ponto SJ, 06-04-2026. Disponível aqui

A nossa vida é uma vida de vida, não uma vida de morte. Como tal, qualquer vida que queira viver há de ser vida para a vida e não vida para morte. Mas a morte, como avesso da vida, para que seja uma morte de vida, pode ser encarada, falada, abraçada e amada. A vida e a morte dançam e a música que toca é o amor. Não é por acaso que, ancestralmente e ainda hoje, grande parte da pujança artística, das artes plásticas à literatura, passando pelo teatro, pela poesia ou pela música, triangulam, de alguma forma, a vida, a morte e o amor.

Há algum tempo realizei a minha Diretiva Antecipada de Vontade (DAV). Esse gesto fez-me refletir sobre alguns assuntos relacionados com a iminência da morte.

Recentemente tem-me vindo à memória o conceito de ‘amortalidade’ e, com ele, desafios éticos, tão profundos quanto práticos e urgentes. Talvez possamos atribuir a cunhagem do conceito de amortalidade a Catherine Mayer, uma jornalista americana nascida na Grã-Bretanha que, em 2011, lançou um livro com o título “Amortalidade: os prazeres e os perigos de viver sem idade”. Na sua escrita abordam-se os prós e os contras de viver mais tempo. Importa-me para a discussão em causa uma atualização tecnológica do conceito, mas mantendo a sua coerência interna: graças a todo um arsenal tecnológico interessante, contando com a bionanorobótica, agora ainda mais (hiper)potenciada pela inteligência artificial, a breve trecho poderemos (pelo menos teoricamente) viver centenas de anos. Está claro que seremos mais biónicos, numa fronteira indefinida entre a humanidade e a máquina, lato sensu. As próteses poderão ser robóticas e mecânicas, de escala média, como já existem, mas atuarão de forma muito mais sofisticada. Não é descabido imaginar, também, próteses mais capazes de agir à escala celular e bioquímica. Se um órgão começa a falhar, pois haverá maneira de o substituir por um órgão biónico e viver por mais uns tempos. Ressalve-se que a amortalidade não é imortalidade porque, mais tarde ou mais cedo, se morrerá. Mais ainda, em certos acidentes com esmagamentos físicos, poderá não haver próteses biónicas que nos valham.

A questão da amortalidade não é nova, impressionando apenas pela extensão que pode vir a evidenciar-se, colocando os mais variados dilemas éticos à humanidade. Querer viver mais um pedaço (ou para sempre, como procuravam desde sempre os alquimistas com o seu elixir) é humano e natural. Mas valerá a pena viver a qualquer custo?

Abaixo elenco alguns pontos de reflexão que me merecem ponderação pessoal e que poderão dar lugar a discernimentos coletivos importantes. Nem tudo o que podemos fazer devemos fazer e nunca é tarde para equacionar dilemas e ir esboçando caminhos éticos de viver e morrer melhor.

1 – Se nada de extraordinário acontecer neste grão de pó que habitamos, como a descoberta de possibilidades de vida noutros exoplanetas (parecidos com a Terra, mas muito longe daqui), por exemplo, a amortalidade estendida sem fim, trará uma impossibilidade real, pois não caberemos todos na superfície da Terra.

2 – Compreende-se a vontade de viver mais, mas os limites a esse desejo são um imperativo também humano, principalmente na assunção coletiva da existência. A morte como ‘dar lugar a que outros vivam’ torna-se uma evidência ontológica.

3 – Não viveremos já certos aspetos de amortalidade discutível? Por exemplo, as atuais máquinas farmacológicas (medicamentos cada vez mais sofisticados) não estarão, em muitas circunstâncias, a adiar mais do que o humanamente razoável a própria vida?

4 – Apesar da cada vez mais generalizada boa prática médica do não encarniçamento terapêutico, não haverá ainda muitas pressões, afetivas, jurídicas, bioéticas, que levam pessoal de saúde e famílias a estender, para além do humanamente equilibrado, a vida de muitas pessoas?

– Fixemo-nos em duas frases muito típicas ouvidas pelo pessoal médico da parte dos acompanhantes de doentes na iminência da morte, quando se aportam aos hospitais:

  • “Sr. Dr., faça-o(a) viver” (não importa como nem o que sofre tal doente, digo eu);
  • “Não estamos preparados para a morte desta pessoa” (temos de admitir que a morte é um tabu e tal é também verdade nas famílias cristãs).

Estas duas afirmações espelham bem o dilema pessoal, afetivo, relacional e social que acompanha as questões da morte. Por omissão, o que acaba por se praticar muitas vezes é a opção (compreensível, mas porventura a mais negativamente fácil) de prolongar a vida a qualquer custo.

6 – Seria de estimular a Diretiva Antecipada de Vontade, antes de mais em termos pessoais, mas igualmente aplicável a situações de tutoria de pessoas a todos os títulos mais frágeis? Ao prescindir deste direito e desta ‘conversa’ não estaremos, tão só, a anuir silenciosamente uma amortalidade irresponsável?

7 – Não seria de trazer à tona o que poderíamos chamar um certo ‘valor da morte’? Precisamente por causa da vida, da boa vida, muitas vezes, não viver e morrer por amor pode ter o mais amplo, humano e profundo sentido. Ao não forçar medicamente uma vida com sinais óbvios de finalização, estamos a amplificar o próprio sentido da vida, dando mais lugar de vida para mais e melhores vidas. É a fraternidade, também na hora da morte, assim não egoisticamente adiada.

8 – A amortalidade – alguma amortalidade, digamos assim – só deveria ter lugar ético na medida exata da solidariedade fraterna: termos à escala mundial níveis equivalentes de acesso a cuidados de saúde. Sonho grande e difícil de alcançar, mas que convém colocar no horizonte: “amortalidade: apenas se para todos”.

9 – Há um paralelismo muito interessante, registe-se, entre a amortalidade e a luta excessiva face ao envelhecimento, nomeadamente por via de cirurgia plástica e de outros procedimentos. A aceitação do envelhecimento (sem esquecer o seu custo), assim como da morte, tomada como uma bênção…

10 – O meu lugar pessoal, faço questão de esclarecer, não é matar. É deixar que a morte natural aconteça quando há sinais para tal, e que então se desenrole em paz, minimamente preparada e com o máximo alívio da dor possível.

No lugar crístico há uma síntese favorável: em chão de amor, a vida fez-se vida para sempre tornando a morte uma sempre penúltima palavra. Na esperança da ressurreição vivida cabe com fulgor, desde já e para sempre, morrer por amor. Eis a eternidade rasgada, tomada em aperitivo, desde já, por toda a humanidade. Tudo isto é relativamente fácil de teorizar, mas difícil de viver. Para ter um bom viver é preciso saber morrer, também…