Avaliação de professores: sair do abismo

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Paiva, J (2026). “Avaliação de professores: sair do abismo”. Jornal Público (18-06-2026).

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https://www.publico.pt/2026/06/18/opiniao/opiniao/avaliacao-professores-sair-abismo-2178555

O balanço da avaliação de desempenho docente dos professores dos ensinos básico e secundário (ADD) é redondamente negativo para os professores, para as escolas, para os estudantes e para a sociedade. O tema é bastante complexo e sistémico e estou consciente da ousadia em tratá-lo em poucas linhas, mas atrevo-me a elencar alguns itens relevantes:

Da cooperação para a competição

Os professores mais antigos, em particular, têm memória de outros tempos em que a cooperação docente simplesmente acontecia… e era natural. O atual sistema de avaliação, viciado nas suas mais profundas contradições, trouxe progressivamente um ambiente corrosivo na maioria das salas dos professores, que, obviamente, se projeta negativamente em toda a dinâmica educativa. E se alguma artificialidade menos virtuosa da avaliação, para evitar fraturas, resolve avaliar todos maximamente, parecendo tapar o sol com a peneira, a existência de quotas e de congelamentos de carreira dão o tiro fatal. As feridas abertas deram lugar a uma competição estéril, que feriu o corpo docente. Em química usamos o termo tóxico para as doses excessivas, tantas vezes letais. O que posso dizer sobre ADD, por exaustão, é que se tornou tóxica e não tónica.

 Posar para a fotografia

Um dos resultados da avaliação docente, indesejável que seja, é uma certa teatralidade da função docente. Começou a ser demasiadamente importante a imagem dos professores e, para ter boa avaliação, mesmo que sem consciência nem intenção deliberada, os gestos pedagógicos foram-se artificializando. A avaliação mal tomada tem o enorme perigo de valorizar o folclore e o espalhafato. A necessidade de evidências e em muitos casos evidências com potencial métrico, foi capaz de gerar muita comédia e tragédia e, em muitos casos, uma autêntica inversão dos mais internos e profundos valores. A um determinado ponto, em caricatura avaliativa, um professor que quisesse ser excelente na avaliação, haveria de se focar nisso mesmo, na avaliação… e não nos estudantes.

Do privado para o público

Há excessivas, imediatas e não adaptadas importações das organizações privadas para a coisa pública. Nas empresas, me parece, legitimamente enquadradas pelo lucro e pela operacionalização de resultados e objetivos, que podem ser granulados, consegue-se um trilho minimamente operativo de avaliação e distinção de mérito. Organizações públicas como a escola hão-se ser igualmente promotoras do mérito. Mas a forma de estimular esse mérito tem de ser muito mais paciente e positivamente subjetiva, valorizando valores éticos e deontológicos de serviço público, que demorarão décadas a estabelecer-se.

Uma das diferenças entre os dois sistemas, privado e público, que inibiria à partida qualquer excessiva mimetização, é a dificuldade de recrutar seletivamente e a quase impossibilidade de suspender ou despedir com alguma fluidez, nas organizações públicas. Por outro lado, aqueles, que, como eu, acreditam no serviço público e na escola pública, encontram na ausência de espartilhos de vária ordem, nomeadamente de objetivos estrita ou maximamente económicos, uma liberdade humanista de pensamento e de ação, que fecundará positivamente o mundo.

O paralelismo com outras organizações públicas: o monstro SIADAP

Fui entrelaçando a vontade de explicitar esta reflexão em conversas ocasionais com pessoas que lideram e são lideradas noutras organizações públicas como finanças, segurança social, registos e notariado, câmaras municipais, etc. Eis o meu espanto ao constatar uma perceção convergente, de avaliadores e avaliados, no que concerne ao monstro da avaliação profissional. Os dinamismos negativos são os mesmos: geração de mau ambiente nas organizações, desgaste desproporcionado de tempo e energia por parte dos avaliadores e dos avaliados, síndroma de hiper-auto-estima na generalidade dos avaliados (todos excelentes…), valorização polarizada dos resultados em detrimento da qualidade dos processos, feridas profundas nas organizações, fragilização do sentido de corpo e, last but not least, diminuição de produtividade, a paradoxal cereja no bolo de todo este processo avaliativo, em que, na quantidade e principalmente na qualidade, se ofende o objetivo inicial: em vez de melhorar, piora-se. O sistema integrado de gestão e avaliação do desempenho na administração pública (SIADAP), portanto, padece de semelhante doença.

Um desgaste enorme para muito pouco, que inibe energia para a inovação urgente

Uma das consequências mais nefastas de toda esta máquina gigante da avaliação é o tempo e a energia que os que avaliam e os que são avaliados despendem. É, definitivamente, tempo de mais, papel de mais, preocupação de mais, mobilização de mais, centralidade de mais. O problema fica então num ponto em que resulta óbvio que tal energia, gasta excessivamente, nas reais possibilidades de quem, como todos nós, tem limites, significa desinvestimento naquilo que importaria: responder aos atuais (complexos) desafios educativos com inovação, otimizar o que já se faz bem, melhorar o que precisa de ser melhorado. Mais ainda, parar para refletir, o que, todos sabemos, pede tempo, discernimento e uma certa paz organizacional.

A escola precisa de se recentrar como lugar de conhecimento, precisa de retomar patamares mínimos de certa ordem e condição disciplinar, precisa de se reequilibrar na relação com os encarregados de educação, para que a sua invasão do espaço escolar não seja desproporcionada, e precisa, urgentemente, de se reajustar a novos paradigmas socio-tecnológicos como a inteligência artificial, para que, sem os rechaçar, se torne cada vez mais humana. Se os professores e as lideranças escolares não se libertarem do peso estéril desta forma de avaliar, não vão conseguir ajustar-se à urgência de sintetizar a positiva boa tradição educativa com o imperativo educativo de inovar e ajustar.

 

Terapêutica difícil

Não há alternativa a um reset completo: o processo de avaliação de professores tem de ser congelado. O ideal era iniciar um processo todo novo de avaliação docente, baseado numa reflexão profunda e sistemática, interrelacionada profundamente com os grandes desafios educativos contemporâneos. Talvez um dia lá chegaremos. As condições para o fazer, nomeadamente as de teor político, que exigiriam, entre outras coisas, um pacto de regime para a educação muito alargado, estão radicalmente distantes.


Não encontro outro caminho senão o do regresso a um sistema que tenha como caraterística principal ser, compensatoriamente, ultra-simplificado, mesmo que não-ideal. Provavelmente, contando com a velha e quase automática progressão por tempo de serviço, aperfeiçoada, mas até ao limite de nunca deixar de ser simples. Trabalhar-se-ia bastante mais a avaliação formativa e conseguir-se-iam alguns mecanismos de filtrar minimamente os recursos humanos medíocres ou muito maus. Este trilho teria de convocar, ainda mais, devidamente convertidos a uma cultura formativa, os organismos da inspeção de educação.

Custa-me, como académico na área da educação científica e cidadão que valoriza, existencial e operacionalmente, o lugar da avaliação, ocupar um lugar tão excessivamente pragmático como o que estou a propor. Mas tranquilizo-me no entendimento de que a hiper-sofisticação burocrática da avaliação a afasta da sua verdadeira essência, que pode até ser dita de forma simples: avaliar é olhar, pensar e agir sobre cada um, sobre as relações e sobre os processos e, daí, tirar proveito para melhorar. Sem os esmagamentos processuais idiossincráticos a que o sistema está atualmente exposto, vislumbro, não sem custo, professores mais abertos e realizados, arejados pelo respiro de se recentrarem numa escola que olha para a frente, focada nos estudantes e promotora da educação como verdadeiro motor da mudança.

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